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Jornalismo declaratório – e errado

Mestre Janio de Freitas, que há tempos tem dedicado algumas de suas linhas a um criticismo ímpar com relação ao trabalho da imprensa, notou que agora nem mesmo o jornalismo declaratório merece credibilidade.

A última foi uma “forçada de mão” em declarações do ex-presidente Lula, prontamente desmentidas.

O jornalismo declaratório é uma praga, mas eram bons os tempos em que ele era apenas ruim, não equivocado.

Ponto pra gente: ‘os jornalistas tinham de ser atirados no meio do rio’, diz funcionário público flagrado em delito

“Nós somos a mosca na sopa” já dizíamos tantos jornalistas muito antes da campanha publicitária da Folha. Por motivos óbvios, eu parei.

Mas como é bom ver a reação dos que tiveram a sopa estragada por nossa vigilância. Hugo Jenefes, conselheiro do tribunal de contas da província argentina do Chaco, perdeu a compostura diante de matéria dando conta que permitiu, ao arrepio da lei, o funcionamento de uma creche estatal.

“Tem que fazer como dizia o general Juan Domingo Perón: ou todos os jornalistas são funcionários do estado, ou que sejam postos numa canoa e atirados no meio do rio”, disse Jenefes. Que depois contemporizou. “Venho de uma família de jornalistas e tenho vários amigos jornalistas. Jamais diria que é necessário matá-los”.

Mais uma sopa quentinha e gostosa jogada no lixo. Ponto pra gente.

A paúra da entrevista

Minha temporada de bancas de TCC encerrou-se ontem, na Fiam (instituição pela qual, aliás, me formei em Jornalismo em 1992). Lá pelas tantas, no meio do debate, o jornalista e professor Edson Rossi pôs o dedo na ferida. “A universidade precisa perder a paúra da entrevista”.

Era um recado ao aluno que apresentava seu trabalho, pobre no quesito, mas também a todos os estudantes e faculdades que tentam preparar gente para esta profissão. As gerações que estão chegando, em parte por causa da benevolência da universidade, acham que a pesquisa substitui a conversa com pessoas.

Não, não substitui.

A pesquisa é um importante trabalho de produção antes da fase de conversas com entrevistados que podem elucidar um assunto, contar versões, analisar fatos, contextualizar notícias. E também depois, como complemento e elucidação do tema tratado. Ponto.

Agora tem um outro detalhe nessa história, que é o reverso da moeda: a supervalorização da entrevista, que desemboca no que conhecemos como “jornalismo declaratório”.

O fato de termos a obrigação de conversar com a maior quantidade possível de pessoas não significa que estas declarações precisem ser publicadas. A entrevista é, antes de tudo, um processo da apuração, uma forma de ficar por dentro das coisas, saber o que se passa.

As fontes nos dão informação, não frases. Em alguns casos, o uso de aspas numa reportagem se transforma apenas na válvula de escape para um texto pobre e vazio. Repare como isso é comum, por exemplo, no caderno de esportes. Frases e mais frases, uma pior do que a outra. Do tipo “queremos ganhar” ou “vamos conquistar os três pontos”. Absurdo.

Eu adoro matérias sem declarações. Significa que o texto foi burilado, e as aspas, compiladas, condensadas e transformadas em algo palatável.

Pena que ainda não encontramos o meio termo. Nas faculdades, fecham-se os olhos para a ausência de fontes por trás dos trabalhos dos alunos. Nos jornais, idem para o “aspismo juramentado”.

Mas quem disse que é fácil fazer jornalismo?