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Jornalismo cidadão, colaborativo e participativo são diferentes?

Qual a diferença entre os jornalismos ditos cidadão, colaborativo e participativo?

Há tempos a tendência é jogá-los todos numa mesma cumbuca, como se fossem sinônimos. Ainda que, em 2005, Axel Bruns já tenha ensaiado uma diferenciação em seu instigante Gatewatching.

Numa classificação própria dos termos _que, em breve, será ampliada num trabalho em formato acadêmico (como se as ideias não bastassem…) _, modestamente sugiro debater o assunto.

O que é a participação ou a colaboração senão a inserção num processo já existente? Bem por isso considero que o jornalismo participativo e o jornalismo colaborativo são, realmente, sinônimos.

É quando o público, seja numa ação independente de crowdsourcing ou num site do mainstream que solicita envio de material específico, interfere claramente num processo que está de pé, atualizado e editado sob as regras da edição jornalística, não importa de onde venha o conteúdo, para construir uma narrativa lógica a descrever ou analisar um acontecimento.

O jornalismo cidadão não tem essa ordenação: caótico, representa o que pessoas publicam, seja em que instância on-line for (blog, Flickr, Twitter, Facebook etc), num movimento absolutamente disperso e dissociado pela rede, sem a preocupação de cooperar com uma cobertura formal _ainda que ela se aproveite desse despojamento.

A ideia é essa, em resumo.

Gostaria de debater mais sobre o tema com vocês.

Nova York credencia jornalistas ‘eventuais’

A decisão do prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, de credenciar jornalistas independentes para ingressar em repartições e eventos promovidos sob a tutela do município é excelente do ponto de vista de democratização da informação.

Abrir portas para iniciativas individuais é reconhecer que o ato de apurar/analisar/difundir informação é direito fundamental da pessoa, um velho mantra deste site.

A credencial de NY tem uma condição: o postulante precisa provar que cobriu, nos últimos dois anos, ao menos seis eventos. Ou seja, tem de ter a partir de 730 dias de sanha jornalística nas veia (apesar de, na média, a exigência corresponder a três por coberturas por ano _um luxo para quem camela nas redações).

No meio acadêmico brasileiro, já houve quem levantasse a voz questionando o porquê de blogueiros receberem o “status de profissionais diplomados”.

Eu sigo questionando por que motivo um diplomado em jornalismo é, necessariamente, melhor do que uma pessoa qualquer relatando/analisando/apurando um acontecimento.

Não há embate entre blog e jornalismo, entre on-line e jornalismo, entre cidadão e jornalismo. Jornalismo todos nós fazemos todos os dias, e desde sempre. As facilidades trazidas pela tecnologia é que evidenciaram esse processo.

Magnum vende acervo para sobreviver (mas com a cabeça que a levou à ruína)

Aula de história: o desembarque das tropas aliadas na Normandia, no Dia D, numa tomada de Robert Capa

A Magnum, durante anos meca do fotojornalismo e que abrigou, em suas fileiras, nomes como Henri Cartier-Bresson e Robert Capa, vendeu seu arquivo para um bilionário americano que pretende vê-lo exposto na Universidade do Texas. São 200 mil positivos que custaram, estima-se, pelo menos US$ 100 milhões.

Pouco se falou sobre a motivação da negociação de tão valioso conjunto de fotos: a revolução digital quebrou a Magnum. Nascida e criada num mundo onde competia-se para ver quem gastava mais dinheiro numa pauta, a Magnum sucumbiu à oferta abundante de registros jornalísticos nos lugares mais remotos. Perdeu seu nicho para a colaboração em rede.

Com o capital extra, a Magnum enxergou uma chance de sobreviver. E eu pergunto como, se ainda acha que jornalismo é uma disputa pelo maior orçamento.

Eles não sabem o que dizem: jornalismo é uma disputa pelo seu quarteirão.

Vamos denegrir a mídia?

Bom saber que existem ONGs como o Instituto Mídia Étnica, dedicada, segundo ela própria, a realizar “projetos para assegurar o direito humano à comunicação e ao uso das ferramentas tecnológicas, especialmente para a comunidade afrobrasileira”.

No jornalismo, como de resto em toda atividade humana, a diversidade é fundamental para garantir o objetivo ainda maior, que é a pluralidade.

“Vamos denegrir a mídia”, diz o slogan do instituto, que promete “advocacy para diversidade na mídia, assessoria para organizações afro-brasileiras e media training para lideranças de movimentos sociais”.

Há também iniciativas semelhantes que tentam incluir indígenas, mas como somos uma coleção de raças, falta muito pra chegar nessa tão sonhada mídia étnica.

Aliás, diversidade na mídia se garante com inclusão digital. Hoje, todos somos a mídia. Basta ter acesso às plataformas adequadas, cada um tem a sua imprensa pessoal.

Visto por esse ângulo, o caminho é bem menos árduo.

Jornal misterioso mobiliza investigação colaborativa

O The London Weekly, lançado com estardalhaço há 15 dias em meio ao vácuo provocado pelo fechamentos de dois outros diários gratuitos londrinos (The London Paper e London Lite), já está provocando tamanha polêmica que virou motivo de trabalho colaborativo na web: o que você sabe sobre o London Weekly?, pergunta Paul Bradshaw, que comanda um projeto investigativo de apuração distribuída para saber qual é a do jornal.

Explica-se: lançado como um negócio de 10 milhões de libras (R$ 29 milhões) e 50 jornalistas, não tem gente conhecida do meio no expediente e sua presença na web, com atualizações esporádicas e em geral assinadas por duas pessoas, revela a precariedade.

O simples fato de jornalistas não saberem o que se passa numa redação alheia (porque deveriam ter pelo menos alguns conhecidos) já é altamente suspeito.

O The London Weekly é distribuído, em papel, às sextas e sábados no metrô da capital inglesa.

Somos todos dependentes das grifes da web

Rafael Sbarai, 23 anos, é um prodígio. Poucas pessoas analisam tão bem os meandros da web (e sua implicação no jornalismo), em português, como ele. E faltam textos em português sobre o assunto. Pessoas, escrevam mais!

Rafael não tem esse problema. Ele e três colegas têm dado, no blog De Repente,  excelentes pistas de quem somos e para onde vamos _e, claro, aquela pitada pessoal do ‘para onde deveríamos ir’.

Conversei com ele numa brecha da rotina corrida de quem é repórter e editor de mídia social no site da maior revista brasileira, Veja. O assunto: monocultura do Google, jornalismo participativo, grandes grifes da web. E, sobre elas, a constatação: temos dados pessoais demais abrigados sob o guarda-chuva dessas empresas poderosas. Leia a seguir a íntegra da conversa, via mail.

O Google é eficiente, talvez sua característica mais admirável, mas qual o risco de ficarmos todos dependentes dele? Somos usuários de serviços que foram, estão sendo ou serão anexados pela companhia de Brin e Page (e agregados).A monocultura me incomoda, mas lutar contra ela exige mover montanhas. A web reproduz exatamente as disputas de poder fora dela…

A questão de dependência na web transcende o Google. Hoje, somos dependentes de Twitter, Facebook e Google. Muitas das nossas informações pessoais estão armazenadas em um grande banco de dados. E isso me preocupa muito. A exposição não divulgada em rede, porém centralizada em um único ambiente. Risco todos nós temos. O lado positivo desta história é a possibilidade de personalização de serviços e recursos, um dos princípios que a internet sempre teve.

Sobre indexação de conteúdos, acho isso o máximo. Indo para nosso lado jornalístico, você percebe qual executivo de jornal sabe o que é uma distribuição de informação. O Murdoch levantou uma bandeira em 2009, de apropriação de conteúdo, e mostrou sua força. Mas quem sai perdendo é ele, por ter um jornal mais centralizado e menos distribuído. Ponto para o NYT, que adota parcerias com o Google, como o Living Stories.

É duro falar sobre isso, mas ainda é maioria o conteúdo ruim produzido pelo público. Já foi pior, verdade, mas ainda é ruim. A ex-plateia ainda está muito preocupada em replicar conteúdo do mainstream? Que parcela dessa audiência colaborativa percebeu que na verdade é capaz de pautar os meios se usar as novas plataformas para se mobilizar?

Infelizmente vivemos já uma época da bolha da colaboração e do que se considera web 2.0. Não sou adepto deste termo (Nota do Webmanario: eu tampouco, é um rótulo marketeiro) e ele é reflexo do processo de mkt que envolveu a colaboração e o jornalismo. A plateia – ex-consumidora de informação – é extensa e está sob diversos formatos. E isso depende muito do contexto cultural.

Fico admirado com a política colaborativa de produção de conteúdo dos norte-americanos, chilenos e sul-coreanos, por exemplo. Totalmente diferente do Brasil. Enquanto aqui sinônimo de jornalismo colaborativo era estar em uma página principal de um portal com notícias requentadas pelo mainstream, lá fora o “cidadão-repórter” pensa em um contexto local e de grande caráter de prestação de serviço. É só ver alguns bons casos do iReport, apesar de que ele recebe maior destaque quando há uma notícia falsa. A questão deste formato é como saber filtrar isso. No iReport, não há este filtro, mas há uma hierarquização de notícias. Quem faz isso com maestria é o bom e velho OhmyNews.

Muito se fala hoje no Spot.us, um outro modelo que é bem discutido nos nossos blogs. Mas ainda o vejo com certo cuidado. Um “jornalismo financiado”, antes de tudo, é intencional.

YouTube, Twitter e Wikipedia: conte-me seus amores e seus horrores por essas três marcas (e ferramentas) que estão eternizadas na história da internet.

Nunca parei para fazer uma reflexão sobre os três modelos. Dos três, o que menos uso é o Youtube. Isso é fato. Nunca gostei de compartilhar conteúdos áudiovisuais. Me considero muito amador neste segmento. Apesar de muita coisa boa em seu “acervo”, aprecio mais Videolog e Vimeo. São formatos com cara mais profissional e com um menor filtro de coisas nonsense.

A Wikipedia é um mecanismo poderosíssimo, discutível e uma das fontes preciosas que conseguem acompanhar diariamente a evolução da sociedade com os usos tecnológicos.

O Twitter é o símbolo da economia da informação e o peso que o conhecimento e “estar ligado” provoca em uma sociedade interconectada. Muito se fala em sua busca em tempo real (já estamos no 2º período da busca em tempo real – a primeira aconteceu com o crescimento dos blogs e a indexação do Technorati), mas o que mais aprecio na ferramenta é a criação de uma linguagem totalmente distinta e que permita colocar muitas pessoas em uma conversa a partir do @. Sem você saber, você foi citado por uma ou outra produção (digo no nosso caso: jornalistas e/ou blogueiros). Esse retorno é o mais fantástico.

Gosto também dos termos que usam para desempenhar funções: saem de cena os falsos “amigos”; entram os ‘seguidores’ e ‘seguidos’. A palavra seguir pressupõe escutar, acompanhar e, acima de tudo, respeitar, o que falta e muito na web em geral.

Outra movimentação destacável é que o Twitter comprovou a tese da queda da audiência de uma página principal de portal/site. É o percurso de tornar-se menos centralizado e mais distribuído. O que mostra a eficiência e a premissa de Paul Baran com seus nodos distribuídos, centralizados e descentralizados. Muito da história do jornalismo on-line está em três imagens que mais parecem astrofísica ou química, mas delimita um belo universo jornalístico. O que dá pra deixar de conclusão sobre esses três formatos é como a tecnologia e internet SEMPRE conectou pessoas e não computadores.

A derrota do cidadão (e o triunfo do jornalismo profissional) revisitados

O texto em que eu detectava a derrota do cidadão para o jornalista profissional na cobertura do terremoto no Haiti suscitou polêmica e debate. Ainda bem, pois exatamente para isso que foi concebido.

A colega Ana Brambilla percebeu algumas coisas como eu: que faltou conteúdo produzido ou atualizado pelo cidadão, especialmente no primeiro momento, e que nunca a mídia formal desesperou-se tanto por contribuição do público sem, entretanto, obter resposta.

Ela cita o trabalho de reportagem de Carel Pedre, a grande referência na cobertura da tragédia (ao lado do canadense Pierre Côté, este reportando de seu país, mas entrevistando, via webcam, muita gente que estava in loco). Ambos são jornalistas _Pedre é um dos mais populares radialistas do Haiti e ainda comanda programas na TV, enquanto Côté há tempos faz transmissões experimentais na web e vive de doações de sua audiência.

Yuri Almeida, aliás Herdeiro do Caos, corrobora minha sensação de que a exclusão digital pode ter sido determinante para explicar o vazio da cobertura cidadã. E cita o poder do rádio como provável canalizador de interesses comuns no cenário da tragédia. Isso só corrobora a tese de que, desta vez, a cobertura foi profissional.

Não estou assumindo a defesa liminar do jornalismo profissional, como fui advertido por quem lembrou do blog de estudantes da Unicamp que estão visitando o Haiti. O blog não foi citado no texto original porque tinha atualização muito deficiente nas horas que seguiram à tragédia, justo quando mais se precisava dele.

Depois de alguns dias, o grupo passou a escrever mais e postou até algumas fotos _uma possível demonstração de que o senso de agilidade, vital ao bom funcionamento do jornalismo, pode ser bastante distinto quando se compara amadores e profissionais.

Quem chegou eventualmente ao Webmanario por obra da busca “Haiti” + “terremoto” pensou estar diante do último bastião de defesa do mainstream. Nada mais equivocado. Os que conhecem o repertório deste site sabem que sou um dos maiores entusiastas da autocomunicação de massas _como tão bem definiu o sociólogo Manuel Castells ao se referir à era da publicação pessoal em seu livro “Comunicación y Poder“, recém-lançado.

O cidadão perdeu para o jornalista na cobertura do terremoto do Haiti, é fato. Que merece ser estudado para entendermos em que circunstâncias isso pode ocorrer de novo, desmontando ou ao menos limitando o mito da testemunha ocular onipresente habilitada a publicar na web algum pedaço da história que testemunhou.

Terremoto no Haiti: o cidadão perdeu para o jornalista

Virou clichê, nas grandes tragédias, incensar o Twitter e seu poder de instantaneidade e mobilização. É quando o jornalismo cidadão, essa prática tão saudável de apurar/analisar/difundir notícias (preceitos idênticos ao do jornalismo profissional), é notado.

No devastado Haiti, porém, o cidadão foi bem menos jornalista do que os profissionais: foram coleguinhas com experiência na condução de transmissões ao vivo que seguraram o grosso dos relatos e imagens in loco sobre o terremoto de 7 graus na escala Richter.

Depois deles, o microblog (com o Twitter na linha de frente, claro) se transformou de novo numa enxurrada de RTs de orações ou supostas informações de ajuda humanitária. Um volume comparável aos anéis de latas de alumínio colecionadas por gente que acreditava, há uma década, que as peças podiam ser trocadas por cadeiras de rodas.

Veja imagens do terremoto no Haiti

A ausência de cidadãos não jornalistas na cobertura da tragédia do Haiti sugere, numa análise rasa, que o povo do país não tem acesso nem aos mínimo dispositivos móveis. O que, se verdadeiro, desmistifica a crença na onipresença da testemunha ocular habilitada a publicar na web algum pedaço da história que testemunhou.

Ao mesmo tempo, insinua comprometimento de quem deve zelar, profissionalmente, pela difusão das notícias.

Um detalhe importante para entender o comentário: a rede de internet, em sua maioria acessada via satélite no Haiti, resistiu surpreendemente bem à tragédia. A telefonia celular apresentou problemas, mas permitia conexões eventuais.

‘Não existe mais informação exclusiva’, diz Marcelo Träsel

Com Marcelo Träsel, jornalista, professor e pesquisador, minha relação é antiga: dividimos opiniões e compartilhamos dúvidas (e soluções) durante um bom período de trabalho no portal Terra. De lá para cá, ele se especializou na análise da influência das novas mídias no exercício do jornalismo. E é assertivo ao dizer que o copia e cola acabou com a informação exclusiva “microssegundos” depois que ela é publicada. Notícia virou commodity, acrescento eu.

Na conversa que você lê abaixo, fiz questão de falar sobre apuração distribuída, seu objeto de pesquisa mais recente. Träsel defende a prática (que consiste em “repartir trabalho” com os leitores, como analisar uma lista extensa de documentos). Para o professor, que comanda uma concorrida pós em Jornalismo Digital na PUC-RS, trata-se de ótimo exemplo de jornalismo participativo _neste caso, o trabalho dos leitores terá, sempre, de passar por filtro e mediação do jornalismo profissional antes de ser publicado.

Falamos ainda de como o leitor-colaborador é maltratado pelo mainstream, que oferece apenas o doce da visibilidade em troca de material exclusivo.

Pesa contra a apuração distribuída o tabu (ou a ignorância, como queira) do mainstream, que acredita que a partir do momento em que disponibiliza abertamente um documento (ou conjunto deles) que obteve com exclusividade, está dando o ouro para o bandido, ou seja, municiando a concorrência com informações que em tese deveriam ser exclusivas. A colaboração do público nunca é lembrada, num primeiro momento. É sempre o menos importante. A discussão sempre começa com “tempos de proteger esse conteúdo a sete chaves e descobrirmos nós mesmos o que ele traz de valioso”. Há um antídoto contra isso? O que dizer aos veículos que ainda protegem informação muitas vezes corriqueira da visibilidade pública e resistem a apelar ao crowdsourcing?

O crowdsourcing e outras formas de participação do público não são adequadas para todas as culturas empresariais. Admiro mais uma empresa que resiste a esse tipo de projeto por apego às rotinas de trabalho e valores jornalísticos da época da mídia um-todos do que as empresas que introduzem o crowdsourcing e seções com graus variados de participação apenas para surfar na onda do “jornalismo cidadão”. E são muitas. Abrir espaços para comentários num webjornal é muito fácil. Difícil é realmente levar em conta a opinião e a informação produzidas pelo público no cotidiano da redação.

Feita essa ressalva, voltemos à questão: o crowdsourcing é uma ferramenta que libera os repórteres de tarefas repetitivas e de pouca exigência técnica, garantindo mais tempo para minerar pautas inovadoras e informação realmente inédita. O verdadeiro ouro do jornalismo não são os documentos, mas o enfoque, o gancho, a pauta. Documentos em si mesmos não dizem muita coisa. Devem ser acompanhados de contextualização, de contrapontos das partes envolvidas. A meu ver, faz mais sentido destacar cinco repórteres para repercutir da melhor forma possível os dados do que condená-los a passar dias garimpando documentos, trancados na redação. Até porque, cerca de 10 microssegundos após a publicação dos dados arduamente refinados, toda a concorrência vai dar CTLR+C e CTRL+V e foi-se a exclusividade. Não existe mais informação exclusiva.

Não custa lembrar também que o papel do noticiário é informar a sociedade, seja por quais meios forem, e não alimentar o ego dos repórteres com furos.

O Guardian tem aquele projeto bem bacana, de ter jogado quase 500 mil notas fiscais na rede e pedido a seus leitores que o ajudem a achar problemas nelas. Mas já surgiram poréns: circula a informação de que assessores parlamentares são contumazes frequentadores do projeto, seja desqualificando provas ou validando outras, sempre de acordo com os interesses de suas siglas políticas. Isso, de certa forma, não sugere que a apuração distribuída é apenas um ponto de partida, algo que exigirá retrabalho, filtros e mais filtros, além de muitíssima apuração, depois? Não pode, em resumo, atrasar o andamento de uma apuração, por mais incrível que pareça?

Embora existam distorções, creio que no fim das contas as estratégias de apuração distribuída sempre vão trazer vantagens para uma equipe de reportagem. Como em todos os sistemas abertos à participação, atores envolvidos nos fatos podem tentar avacalhar a análise dos dados, inserindo contrainformação. Porém, no caso do Guardian mesmo, o sistema permitia a qualquer pessoa revisar as páginas já analisadas e denunciar abusos. Além disso, o número de participantes é tão grande (naquele caso, cerca de 24 mil pessoas) que as distorções provavelmente acabam soterradas pelas intervenções válidas. Pode-se até pensar num sistema que apresente o mesmo documento a, digamos, três participantes diferentes, e avise se houver inconsistências na análise.

Como afirmei acima, porém, os dados em si mesmos não dizem muita coisa. Portanto, o resultado de um projeto de apuração distribuída é, sim, apenas um ponto de partida. Além de contextualizar e repercutir os dados, também é papel dos repórteres verificar todas as informações. Igualzinho a qualquer outro tipo de reportagem.

Não custa lembrar, ainda, que assessores de políticos e profissionais de relações públicas interferem em reportagens realizadas sem ajuda do crowdsourcing usando os métodos mais variados. Um sistema automático ao menos elimina o perigo da influência pessoal e do suborno.

Pra mim o crowdsourcing, para ser bem-sucedido, envolve uma relação de troca. Muitas vezes noto gente que nunca fez nada por mim (ou seja, jamais me deu uma informação útil ou se engajou em algum projeto do meu interesse) pedir auxílio na web. Aliás, acho frequente essa atitude na grande mídia. Parece que ela sempre quer algo de você, mas nunca dá nada em troca _melhorando: acha que seu conteúdo basta. É falha na conversação, reage tal um mamute ante situações novas, é refratária e teme novas tecnologias, segrega o conteúdo produzido pelo usuário a um gueto qualquer em seu site… Tudo pra dizer que reclama-se muito, especialmente no Brasil, do qualidade do colaborador. Mas acho que ele é maltratado, a grande mídia não precisa mudar de atitude?

Quanto a essa questão, vejo dois problemas principais:

1- A mídia se aproveita do material produzido pelo leitor, mas dá em troca apenas “visibilidade” e muitas vezes sequestra esse material. Basta ler os termos de cessão de direitos da maioria dos sistemas de colaboração do leitor para perceber isso. Em geral, ao enviar um texto, áudio ou imagem, o leitor abdica de todos os direitos sobre esse material – até mesmo o direito de publicar esse material em sua conta no YouTube, álbum do Flickr etc.

As colaborações enviadas passam a ser propriedade da empresa de comunicação, o que, convenhamos, é ridículo e absurdo. Se produzi uma foto e a enviei de graça a um jornal, tenho de no mínimo manter os direitos de uso. Os setores jurídicos vêem a colaboração do leitor como uma doação, quando, na verdade, é um compartilhamento, uma concessão, um empréstimo. É justo que o leitor faça o mesmo empréstimo a outros jornais e distribua a informação via redes sociais. O interesse da sociedade é que a informação seja disseminada o máximo possível, e não que empresas de comunicação transformem a participação do público em uma fonte de matéria-prima barata.

Seria muito justo se as notícias produzidas com base em dados e imagens enviados pelo público fossem distribuídas sob licença Creative Commons, por exemplo, já que a empresa não pagou por elas. Talvez seja pedir demais.

2- As informações enviadas pelo público interferem muito pouco na rotina das redações. São raros os casos em que uma equipe dedicada a isso vai atrás das lebres levantadas pelos colaboradores. Envolver-se com os assuntos de interesse dos colaboradores seria a melhor forma de pagá-los pelo compartilhamento de informação e contribuiria muito para melhorar, do ponto de vista social, a cobertura da imprensa.

As pautas enviadas pelo público são um excelente termômetro da sociedade e uma forma de adequar a cobertura ao interesse real da comunidade. É claro, pouca gente se interessa por notícias de Brasília e isso não significa que se deva seguir cegamente os dados de audiência e extinguir a editoria de política. Talvez, porém, pudesse haver menos governo federal e mais governo municipal, Câmara de Vereadores e Assembléia Legislativa na imprensa regional. Mais bairro e menos país.

Percebo que as colaborações enviadas por leitores nos bons projetos de webjornalismo participativo em geral se preocupam em cobrir essa lacuna da cobertura. São mais voltadas ao buraco na rua, aos ônibus superlotados, ao terreno baldio cheio de lixo. Alguns jornais têm aproveitado essa fonte inesgotável de pautas e designado repórteres para aprofundar os temas. A maioria, porém, enxerga as seções de webjornalismo participativo como um tipo de parquinho onde o leitor pode brincar de ser jornalista. É um desperdício.

Retratos de 2009: celular impulsiona o jornalismo na África

Esta notícia confirma outra tendência de 2009: os dispositivos móveis se converteram na principal forma de acesso à internet (consequentemente, de envio de notícias) em países em desenvolvimento.

Jacinto Lajas discorre com propriedade sobre o que está acontecendo agora mesmo na África, continente em que acesso discado é realidade, e banda larga, um luxo.

O texto elenca alguns projetos colaborativos importantes que estão em curso, e incensa o Ushahidi _agregador de conteúdo cidadão com ênfase na mobilidade.

A rede celular, mais do que qualquer outra coisa, está incluindo as pessoas nas redes digitais. E acelerando processos de comunicação que, no jornalismo, são bem-vindos e determinantes para a democratização do exercício da função.