Arquivo da tag: jornalismo cidadão

Uma imprensa para cada um

Mais de uma vez já escrevi aqui que se no meu tempo houvesse o acesso à tecnologia que vivenciamos hoje, talvez nunca teria trabalhado numa redação _faria jornalismo cidadão com meu celular ou netbook, numa boa, publicando tudo num blog ou coisa que o valha.

É sério. Com as armas que todos dispomos agora, quase idênticas às do jornalismo profissional, não faz muito sentido se acotovelar numa redação em busca de um lugar ao sol.

Ao jornalista de carreira, é verdade, há o privilégio da legitimação. Um exemplo bobo, mas prático: após o jogo de futebol, ele tem acesso a treinadores e jogadores, coisa que um cara que faz jornalismo como hobby tem de sofrer para, talvez, conseguir _sim, a internet permite conquistar legitimação (e os vários casos de jornalistas independentes com acesso aos personagens do noticiário prova isso).

O jornalista profissional tem ainda, à frente de si, a relevância e a credibilidade do veículo que representa. Não é pouco e abre portas.

Uma iniciativa individual pode atingir esse patamar, mas é uma trilha bem mais cansativa. Possível, mas desgastante.

A foto lá de cima, o equipamento individual de um freelancer, não pode intimidar. Com muito menos (e eu sou testemunha disso) dá para fazer bom jornalismo.

Mas, sinal dos tempos: é frequente ver outsiders muito melhor equipados _e sintonizados com a agilidade que nossos tempos pedem_ do que repórteres do mainstream.

Notícias do jornalismo cidadão


Enquanto isso, pelo menos sobrevoe um estudo sobre jornalismo cidadão bem interessante.

Com a conclusão que já é consenso: a relação e cooperação profissional/amador só melhora o jornalismo.

Um laboratório de jornalismo comunitário

A eleição de ontem é um ótimo pretexto para falar do projeto de jornalismo comunitário que o amigo Bruno Garcez está tocando com a cara e a coragem.

O projeto multimídia (cujo resultado pode ser conferido no blog Mural) incentiva “correspondentes comunitários” a produzir textos, fotos e vídeos e já formou 40 alunos _blogueiros, jovens com alguma experiência em jornalismo e outros interessados egressos de comunidades de periferia e de regiões pobres.

O trabalho de Garcez é exemplo de como a convivência pro-am (profissionais e amadores) pode fazer bem ao jornalismo.

O 11 de setembro revisitado

Bem bom esse vídeo, incrível. Parte da (ainda) existência da segunda torre do WTC. E produzido pelo usuário. Foi, sem dúvida, o evento mais bem documentado da história.

Leituras de domingo

#ficaadica: A revista Fronteiras-Estudos Midiáticos, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos (RS).

Coisas bacanas e boas discussões.

Esporte ainda é o calcanhar de Aquiles do jornalismo cidadão

Pode perceber: o esporte (digo o de alto nível, ou seja, aquele cujos direitos são loteados pelas emissoras de televisão) ainda é um setor em que o jornalismo cidadão não deu as caras. Em Copas do Mundo e Olimpíadas, por exemplo, é proibido aos espectadores inclusive tirar fotos do eventos ou fazer registros em vídeo.

Bem por isso a pobreza participativa do público em eventos dessa natureza _até grandes portais, quando planejam blogs de pessoas envolvidas na competição, são obrigados a recorrer a fotos frias para não morrer na praia.

Na África do Sul não deverá ser diferente. Participação, mesmo, só bem longe de onde estiverem sendo realizadas as partidas (e, mesmo assim, há vários locais “protegidos”, como hotéis e centros de treinamento).

O Global Voices, o projeto mais sério de jornalismo colaborativo, está tocando uma convocação paralela de cidadãos para o Mundial que começa no dia 11. Mas nada de bola: o que o site quer saber de seus colaboradores é qual o significado da Copa do Mundo para os sul-africanos que vivem em estado de pobreza e também para todo o continente.

O bug do cidadão-jornalista em eventos esportivos tem tudo para continuar intacto.

Enganado por agência de notícias, fotógrafo ainda é processado por difamação


Estava na cara que um dia isso acontecer: um fotógrafo está processando a AFP (Agence France Presse) porque a empresa se apropriou de uma imagem postada por ele no Twitter.

A foto em questão foi tirada por Daniel Morel (ele próprio ex-empregado da agência de notícias francesa) durante o terremoto do Haiti.

Redistribuída posteriormente pela AFP, perdeu o crédito de seu autor original _uma constante em colaborações do jornalismo participativo, repare como as agências rapidamente incorporam seus créditos e tiram o cidadão da frente  o quanto antes.

Morel, que tinha acesso a um mailing de assinantes da AFP, disparou um e-mail protestando contra a tungada que levou. Extraordinariamente, o feitiço virou contra o feiticeiro: agora a agência também o está processando, por difamação e danos morais.

Na defesa da companhia francesa, letrinhas miúdas do Twitter que eu reproduzo, na íntegra e em inglês, abaixo.

“(…) submitting, posting or displaying Content on or through the Services, you grant us a worldwide, non-exclusive, royalty-free license (with the right to sublicense) to use, copy, reproduce, process, adapt, modify, publish, transmit, display and distribute such Content in any and all media or distribution methods (now known or later developed)”.

Você já tinha lido isso em seu contrato com o Twitter? Pois é, basicamente o trecho diz que, publicado, um post não mais o pertence: você dá ao mundo o direito de usar aquilo do jeito que bem entender.

Só agora entendi porque Morel limpou seu Twitter poucas horas depois de divulgar essa imagem. Estava se desenhando uma história bizarra de apropriação indevida que, aparentemente, tem o suporte da plataforma tecnológica.

Mas nada que a boa e velha justiça analógica não resolva.

‘A invenção da internet é muito mais importante que a da imprensa’

Quando Arcadi Espada e Juan Varela se reúnem, claro que vêm reflexões boas sobre o trabalho jornalístico na internet.

Espada é taxativo: “Antes [do avanço tecnológico] se fazia um jornalismo pior”.

Sou bem partidário dessa tese, mas aplicada a tudo. Hoje é muito melhor do que ontem em qualquer aspecto.

Espada esculacha arroubos de nariz-de-cera em jornais impressos e critica a intenção de vários deles ao abordarem de maneira filosofal os temas do dia a dia. “A invenção da internet é muito mais importante que a da imprensa”, sentencia.

Varela também fez convites à reflexão. Primeiro: o jornalismo cidadão não existe. “Chega de confundir informação e jornalismo. Quem não se dedica profissionalmente ao jornalismo relata fatos na qualidade de fonte ou testemunha. Nunca como jornalista. A mediação jornalística é fundamental para esclarecer os fatos”. Para ele, nunca houve tanta desinformação sem reação do jornalismo formal”.

Leia mais sobre esse encontro que reuniu outros feras.

Uma imagem para resumir como nossa profissão mudou


Eu gosto muito dessa foto. Para mim, representa como poucas como mudou, para nós jornalistas, essa profissão maravilhosa.

Hoje temos a companhia de pessoas _de todas as pessoas, a rigor_ que estão lá, como a gente, testemunhando e difundindo fatos. Isso é muito saudável, oxigenou nosso ofício.

O lado ruim dessa história: não tenho informação alguma sobre a imagem acima, que suponho ter sido tirada em 11 de setembro de 2001.

Alguém tem?

ATUALIZAÇÃO: O Thiago Araújo resolveu o mistério, trata-se da cobertura cidadão da explosão de um gasoduto em Manhattan, em 2007

Crowdsourcing e jornalismo de raiz em debate

Dan Gillmor aparece, num post de blog do Guardian, defendendo o crowdsourcing _outra novidade do jornalismo nos tempos da alta tecnologia.Para quem sabe, Gillmor é uma espécie de pai do “jornalismo de raiz”, ou seja, aquele que independe do jornalista profissional para acontecer.

O ponto do texto era debater dois aspectos do trabalho produzido pela ex-plateia, hoje também protagonista do processo de apuração/relato (e análise)/difusão de notícias: credibilidade do material e envolvimento do público DURANTE a confecção de uma reportagem, não depois, para que ele apenas bata palmas

“O mosaico será sempre verdadeiro, ainda que alguns pixels sejam falsos”, diz que Gillmor, que em 2004 preconizou o fenômeno do “uma imprensa para cada um” no livro “We, the Media“. Ele se refere, por exemplo, às inevitáveis fotos falsas que circulam durante episódios de grande comoção, como o terremoto do Haiti.

Paul Lewis, repórter do Guardian que envolve inteligentemente seus leitores em todas as suas matérias (conseguindo com isso dicas, ajuda e pistas importantes para incrementar suas reportagens), fala sobre o segundo ponto. Ele é um dos que ajudam a acabar com essa baboseira, que circula nas redações, que recorrer ao crowdsourcing é entregar o ouro para o bandido, ou seja, a concorrência.

“Pensa bem: quem é a concorrência? Você tem mais a ganhar do que a perder [recorrendo ao público e compartilhando informação com ele]”, diz. O custo para isso, porém, é bastante alto. É por isso que dá pena ver jornalistas profissionais adentrarem determinadas comunidades que jamais frequentaram, disparando perguntas que ajudem a resolver um problema (dele), normalmente a incapacidade em localizar possíveis entrevistados.

Isso é tão frequente como desastroso. O crowdsourcing terá mais qualidade e credibilidade em razão diretamente proporcional à maneira como o jornalista constrói sua rede de relacionamentos on-line.

É preciso trabalhar duro para ter uma comunidade de verdade e dedicada: oferecer bons serviços a ela, escutá-la, fazer reportagens que atendam seus interesses e provar que se está aberto à conversação é o mínimo. Sair pedindo ajuda a ilustres deconhecidos, em geral, só faz água.

É nesse ambiente que surge a boa colaboração entre público e jornalista.