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Tribunal dita regras de jornalismo

A Suprema Corte de Justicia, o STF mexicano, acaba de aprovar um pacote de seis resoluções definindo o que é uma reportagem neutra e esclarecendo os limites do direito à privacidade e da liberdade de expressão.

A motivação foi a demanda judicial que a mulher do presidente Vicente Fox, Marta Sahagún, apresentou (e perdeu) contra um revista de celebridades que revelou detalhes de sua vida pessoal.

Para o tribunal, numa reportagem neutra, vale tudo. É o que se depreende do trecho “(…) quando os comunicadores se limitam a divulgar informação de autoria de terceiros, não têm o dever de verificar ou classificar se a intromissão na intimidade (…) tem relevância pública ou não”.

Portanto, basta atribuir a informação, fechar e ir pra casa.

Uma das decisões aprovadas define o que é pessoa pública (em resumo, conhecidas por circunstâncias sociais, familiares, artísticas ou esportivas) e insta os juízes de primeira instância a avaliar, mediante essa régua, se a informação publicada é de interesse público _ressaltando que essa condição “será atualizada em cada caso concreto” por conta da volatilidade das situações “históricas, políticas, econômicas e sociais”.

O pitaco da corte mexicana na nossa profissão alivia as coisas para os jornalistas de lá. Demais, até.

Nós, os leitores e o filho secreto de FHC

A minha ficha só caiu depois de ler, na seção de cartas de um jornal, um leitor intitulando-se “otário” por só agora ter ficado sabendo que o ex-presidente FHC teve um filho fora do casamento, ainda antes de ser presidente, com a jornalista Miriam Dutra, da Rede Globo.

Claro, o Brasil não é a França, onde casos extraconjugais de políticos são certos, sabidos _e não noticiados. E muito menos os Estados Unidos, onde por muito menos que um filho um presidente quase perdeu o cargo (é verdade que por mentir acerca de seu relacionamento com uma estagiária da Casa Branca, não pelo affair em si).

Será que de fato tratamos como idiotas os nossos leitores durante esse tempo todo? A informação sobre o filho secreto de FHC era, afinal, de interesse público?

Não importa, o fato é que nas redações o assunto era corrente há muitos anos, como uma busca despretensiosa no Google confirma (role a página e leia a nota ‘Conivência: não é bem assim’). Antes do Plano Real eu já sabia disso, pra você ter uma ideia. Estou falando de 1993…

E, mesmo assim, negligenciamos, deliberada ou inadvertidamente, uma informação que, anos depois, fez pelo menos um leitor se sentir um otário.

Eu não sei você, mas eu sinto que fracassei.

O conflito existencial entre a relevância jornalística e o interesse da audiência

Acaba de sair um estudo na Suécia que coloca sobre a mesa uma porção de questões interessantes sobre a nossa profissão. A conclusão é que os jornalistas vivem um eterno conflito existencial entre o interesse do público e o que consideram verdadeiramente notícia.

Recentemente conversei com Pablo Pereira, editor-executivo na web de O Estado de S.Paulo, sobre o quesito audiência. E a posição dele é clara: que o jornalista não pode estar preocupado com o alcance do que relata, ou melhor, em entrar numa disputa clique a clique nas matérias que escreve.

O que deve prevalecer, diz Pablo, é nossa noção profissional do que é relevante e deve ser destacado e priorizado.

Há uma pontinha de arrogância numa declaração como essa, mas eu tendo a concordar em grande parte com ela. Valorizo como poucos a importância de se ouvir a audiência e dialogar com ela, mas isso não exclui nossa responsabilidade de, sim, e enquanto houver esse modelo de distribuição de notícias, apontar o que é importante.

Ulrika Andersson, do Departamento de Jornalismo e Comunicação de Massa da Universidade de Gotemburgo, resume bem a situação. “Geralmente, os jornalistas sentem que é importante responder àquilo que a audiência quer, mas ao mesmo tempo eles frequentemente não sabem realmente do que se trata”.

Para muitos, bastam os dados de acesso às notícias on-line do dia anterior.

E eu pergunto: será?