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Wall Street Journal restringe diálogo entre redação e leitores

Os jornais ainda não fazem questão de monitorar o que diz (e interagir com) sua audiência on-line, mas já estão bem interessados no que fazem seus jornalistas nestes canais.

O Wall Street Journal inclusive lançou um manual de conduta on-line para seus profissionais. E, por ele, é proibido compartilhar informação com o público.

Nada mais equivocado.

As normas do jornalão para regular a atividade dos funcionários nas redes sociais é digna de reprodução. Uma lição de como não fazer.

* Deixe nossa cobertura falar por si, não detalhe como uma matéria foi apurada, escrita ou editada;
* Não discuta artigos que não tenham sido publicados, as reuniões que você assistiu ou o planejamento de coberturas ou entrevistas que você fez ou fará;
* Negócios e prazer não devem ser misturado em serviços como o Twitter. O bom senso deve prevalecer, mas se você está em dúvida sobre a conveniência de postar uma mensagem, converse com seu editor antes do envio;

Estas recomendações simplesmente excluem a possibilidade de diálogo com pessoas que acompanham seu trabalho e, com frequência, dão sugestões ou simplesmente insights sobre coisas que poderão virar matéria.

Ao mesmo tempo, tenho ouvido opiniões que me desanimam. Como gente experiente em redação recomendar que “o leitor jamais deve ser respondido” porque “não tem nada a acrescentar e só enche o saco”.

Incrível porque várias dessas pessoas reclamam que, ao tentar um conversação via, digamos, microblog, não são respondidas. “Mas pera lá”, costumo interpelar, “e você por um acaso respondeu quando foi perguntado?”. Não, né?

A qualidade da conversação com a audiência depende de uma relação recíproca e de confiança. Se você for útil a um determinado grupo, receberá como recompensa o esforço dessas pessoas em lhe remunerar de alguma forma _normalmente, oferecendo informação.

Mas nossos jornais, ainda por cima, preferem evitar ou mesmo restringir esse contato. Outra desconexão com a vida real, que aponta claramente a tendência de pessoas serem mais importantes que instituições.

Inominável.

Falta um gerenciador de discussão

Praticamente seis meses depois que constatamos o despreparo (e o desinteresse) dos sites jornalísticos brasileiros em abrigar a opinião de seus usuários, a discussão sobre os comentários segue viva no jornalismo on-line.

Desta vez foi o jornal argentino La Capital, de Rosario, que decidiu suprimir a caixa de comentários que tinha sido disponibilizada em todas as notícias. O motivo, segundo nota publicada no próprio site, é que “amparados no anonimato, [usuários] utilizaram esta valiosa ferramenta de participação para a ofensa gratuita, o insulto e a falta de respeito”.

Ou seja, o jornal jogou o sofá fora.

No Brasil, vimos que não há a opção de comentar toda e qualquer matéria porque os portais simplesmente não têm gente suficiente para moderar as opiniões de seu público e excluir os insultos que tanto incomodaram o periódico argentino. Neste caso, optaram por interditar o sofá: ele está lá, mas nunca 100% disponível.

Não precisamos ir muito longe para decretar que, pelo que se vê nos sites de todo o mundo, a palavra do leitor está longe de ser uma “valiosa ferramenta de participação”. Sheila McClear chegou a defender abertamente, no Gawker, que os jornais não devem permitir interferência dos leitores. “Jornal não é blog”, decreta ela, para quem o produto não é lugar de conversação.

Polêmico, para não dizer anacrônico.

A argumentação gira em torno de bobagens que leitores perpetraram jornais afora e toca num ponto em que é difícil discordar: em sua maioria, as pessoas simplesmente não têm o que dizer (isso vai ao encontro do que prega o enfant terrible Andrew Keen em seu Cult of the Amateur).

“Moderar comentários não é uma solução, é perda de tempo”, afirma Sheila.

Minimalista, Mike Masnich dá aquela que eu considero a palavra definitiva sobre o tema num brevíssimo post do Techdirt: “Não existe nenhum indicativo de que alguém, nor jornais, lê os comentários. Os próprios autores dos textos raramente, se o fazem, respondem aos leitores. Não há engajamento algum nas discussões”.

Talvez o ponto seguinte, diante desse impasse, é pensar a figura do moderador no jornalismo on-line não apenas como um filtro para deletar imbecilidades, mas como um gerenciador de discussão, mobilizando a conversa para um, para outro ou para todos os lados.

A função eliminaria essa incômoda sensação de que a opinião do público não é levada em consideração, além de, efetivamente, estabelecer o diálogo tão necessário entre veículo e seu leitor.

Presenciei uma notícia. E agora?

A interação ainda é tratada como um aspecto menor pelos grandes portais de Internet brasileiros. Hoje, a participação do usuário é oferecida quase como se fosse um doce, um agrado. Está lá nos sites apenas porque é bonito e _alguém disse em algum momento_ que é preciso ter.

A interação não é o futuro, é o presente da Internet. E há quem defenda que nem sequer ocorra interação: simplesmente que todo o conteúdo noticioso seja produzido pelo internauta. Falarei disso mais para adiante. Há prós e contras e vale a pena escrever um livro para abordar tudo. Por ora, defendo a mediação (a coexistência pro-am, entre profissionais e amadores).

A questão hoje aqui é o que é possível fazer quando presenciamos uma notícia? Telefones celulares com câmera e gravadores digitais (enfim, a bendita tecnologia) deram ao cidadão comum (ou ao candidato a jornalista) a chance de assumir o posto de repórteres onde os repórteres não estão ou comeram bola.

Nesse ponto, o Wikinotícias é uma ferramenta inadequada. Despreparada para a apuração original, a plataforma é útil apenas para a prática de edição de texto (ou seja, reescrever e aprimorar conteúdo já existente). É o que temos feito e continuaremos a fazer.

Vários portais oferecem o doce para você que captou um flagrante. Imagens (fotos, mas especialmente vídeos) são infinitamente mais bem-vindas do que textos. A primeira experiência do gênero (o Foto Repórter do Estadão, lançado em 2005) originalmente convidava os leitores do jornal a tentar publicar um instantâneo nas páginas do impresso (e com remuneração, o que persiste até hoje).

Fosse a data inaugural do projeto, digamos, 18 de março de 2008, certamente solicitariam vídeo _evidentemente, por questões técnicas insuperáveis, a serem encaminhados para a versão on-line da mídia).

Depois vieram as iniciativas de IG (Minha Notícia), Terra (Vc Repórter), Globo (Eu-Repórter) e G1 (Vc no G1), todas bem semelhantes: abertas a qualquer coisa, apenas para provar que a interação existe, que eles gostam de você e que te dão espaço. Ah, e sem a possibilidade de ganhar nada além da satisfação de ver sua “obra” no ar (como se os blogs não resolvessem essa prosaica questão, né?).

A Folha também ensaia abrigar conteúdo produzido pelo usuário, mas ainda não existe um canal permanente (o doce só é dado em ocasiões especiais, como acidentes ou shows/festas populares). Algo do tipo “só enviem quando eu mandar”.

Mas a dica mais importante se você quiser praticar reportagem e publicar num grande portal é: todos esses modelos de colaboração envolvem cadastros, muitos deles exigindo senhas do próprio site em questão (ou seja, mais cadastros e formulários).

Logo, antes de presenciar uma notícia, cadastre-se nos links que eu dei acima. Nada é mais chato do que, na urgência de reportar um fato, se deparar com uma burocrática seqüência de perguntas e cliques quase inúteis. E lembrem-se: jamais ponham dados confidenciais na rede.