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Jornais e TVs investem contra portais de internet

Chegou à Procuradoria Geral da República uma representação que promete provocar bastante barulho: ANJ (Associação Nacional de Jornais) e a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), em nome dos veículos de comunicação brasileiros, consideram que portais de internet (casos específicos de Terra e Ig) controlados por estrangeiros estejam descumprindo a determinação constitucional que limita a 30% a participação forasteira no capital de grupos de mídia.

“Entramos com a representação com base em duas premissas: o de que a internet não é uma terra sem lei e o de que algum órgão público tem que fazer valer uma regra constitucional que está sendo flagrantemente desrespeitada”, disse Daniel Slaviero, presidente da Abert.

O grupo português Ongoing, dono dos jornais Brasil Econômico e O Dia, também está na mira das entidades patronais do mainstream.

É polêmica para mais de metro.

O Terra, por exemplo, pertecente à espanhola Telefónica, diz que não é um grupo de mídia, mas uma empresa de tecnologia. Fato, mas que produz conteúdo, como todo mundo sabe.

No cerne do tema não está a Constituição, mas uma mera questão de concorrência. Coincidentemente, justamente com a internet, que tantos apontam como a responsável por tomar leitores dos jornalões…

O dia em o IG criou a data da notícia boa. Era 11 de setembro de 2001…

ATUALIZAÇÃO: o Good News Network resiste, festeja 15 anos (isso significa que iniciou suas operações em 1997, nos primórdios da operação comercial da internet). Já a Companhia da Boa Notícia, nem tanto (respira por aparelhos…).

A história das boas notícias rendeu. Em seu blog, e por coincidência, Sérgio Dávila comentou no mesmo dia sobre o Good News Network, cuja audiência cresceu 45% desde que começou a crise econômica.

Recapitulando: já há quem recomende aos jornais que criem seções ou invistam numa agenda positiva para recuperar leitores, cansados de desgraças, crimes e patifaria.

Inevitável alguém lembrar (não me conformo como é que eu esqueci) do “Dia da Boa Notícia” que Nizan Guanaes tentou instituir no portal IG. A data escolhida, 11 de setembro de 2001.

A efeméride seria comemorada assim: a capa do produto destacaria apenas noticiário otimista, edificante, social e feliz. A data foi anunciada com pompa pelo portal na véspera, que prometia um festival de boas notícias em sua capa ao usuário no dia seguinte.

Já na madrugada, o plano começou a fazer água: era assassinado o prefeito de Campinas, Toninho do PT, numa ação ligada a sequestro que até hoje jamais foi bem explicada. A capa do IG ignorou _a notícia sobre o crime, claro, foi jogada na lista de últimas normalmente.

Até que chegou 9h45, hora de Brasília, e um avião atingiu uma torre do World Trade Center. A capa do IG, impávida. Mas decidiu-se por acordar a chefia. Veio 10h03. Outro avião, outra torre. A prisão do “Dia da Boa Notícia” colapsou o site, que só abandonaria o propósito perto do meio-dia, quando notou que o mundo estava de fato acabando e só ele, porque tinha tomado a decisão errada no dia errado, ignorava o Armagedon em sua entrada mais nobre (até então), a home page.

Louco saber que, dois meses depois, Diléa Frate _por mais de 20 anos diretora dos talk-shows de Jô Soares e que mantinha, como até hoje, um site chão de fábrica com apenas notícias positivas  (ou bizarras)_ dava uma entrevista comentando o caso. É absolutamente insano.

“No dia 11 de setembro aconteceu uma coisa interessante. O portal do iG elegeu o dia como sendo “O Dia da Boa Notícia” e nós fomos escolhidos para ser a estrela do portal. Fizeram uma entrevista comigo muito parecida com esta aqui e íamos enviar boas notícias durante o dia todo. Foi um desafio, mas conseguimos nos safar: Choveram emails de pessoas confraternizando com o site e dizendo que não agüentavam mais aquele massacre de baixo-astral americano, com várias notícias que omitiam a verdade e massacravam um assunto. E nós conseguimos uma nova saída editorial no boa notícia: a partir da seção de Opinião, fizemos um apanhado crítico do que havia acontecido e projetamos que uma guerra não seria solução. A manchete desse dia no site foi: “DEU A LOUCA NO MUNDO!” E a partir de então, todos os dias, colocamos na parte superior do site um banner com uma arte de campanha pela Paz.”

Esse é um exemplo extremo, claro, mas definitivo para compreender que agendas e amarras e predisposições não fazem parte da rotina jornalística. Podem, no máximo, se resumir a seções ou pequenas notas. Jamais orientar a linha editorial de um produto noticioso.

O teto da igreja caiu, mas onde estava o jornalista cidadão que não viu?

Há três dias falávamos aqui sobre a agilidade do cidadão jornalista (e até sua disputa pelo furo, como se viu no caso do avião que pousou no rio Hudson, em Nova York), e então neste domingo cai o teto de uma igreja evangélica em área densamente povoada (e cercada de prédios), em São Paulo, e a colaboração dos usuários é próxima do zero?

Como reagir a isso?

Enquanto escrevo (são 2h18 da madrugada desta segunda), há um mísero registro fotográfico no Flickr _que nem sequer evidencia, devido ao ângulo, a extensão da tragédia_, enquanto mesmo sob apelos, os guetos de jornalismo participativo dos grandes portais (Eu-Repórter, Minha Notícia, VC no G1 e Vc Repórter) não têm material algum produzido pelo usuário para exibir.

Nos sites de microblog, ao menos, a primeira menção ao incidente surgiu antes que Paulo Henrique Amorim desse a notícia de última hora na TV Record _que foi, até onde sei, quem deu o furo na grande mídia.

No You Tube, maior site de compartilhamento de vídeos, aparentemente há um único arquivo original, afora os tradicionais repliques dos canais do mainstream.

Nesta segunda voltarei ao assunto atualizando as coisa. Se você souber de algo que passou batido nessa análise inicial, avise. Quem sabe limpamos a barra do jornalismo cidadão tupiniquim? Por ora, baita fiasco…

ATUALIZAÇÃO: Voltei, conforme prometido. Tarde, mas voltei. E não há nada a atualizar. De fato, a colaboração no caso do desabamento do teto da sede da Igreja Renascer não teve nenhum episódio novo, nem nas plataformas independentes nem nos portais que oferecem o “gueto colaborativo”. De prático, sobrou a troca de impressões, na caixa de comentários, com Ana Brambilla, que acrescentou ingredientes saborosos para tentar entender essa ausência de jornalismo entre os cidadãos que presenciaram o fato.