Arquivo da tag: história do jornalismo

A celebração do álcool

New York Times Co./Hulton Archive
Eu certamente estaria nesse evento: é a festa pelo fim da Lei Seca nos Estados Unidos, que tornou crime a venda, fabricação e importação de álcool (por quase 14 anos, creia).

Nova York, 5 de dezembro de 1933. Eu seria aquele cara com o chapéu ao alto ali no canto esquerdo.

E a lei, ora a lei, conseguiu estimular apenas a corrupção e contrabando.

Os trambolhos das redações em 1996

Dá só uma olhada nesse vídeo de 1996 (muito comum na época, quando os jornais mostravam na TV os destaques de suas edições impressas do dia seguinte) feito no Diário Catarinense, de Florianópolis.

Ou melhor: dá uma olhada nos terminais da redação. Trabalhei com alguns trambolhos pouco menos robustos que os exibidos ali. E não dá saudade nenhuma, confesso.

Fora que, em 1996, quem tinha acesso à web dentro de um jornal?

Arquivo público põe na rede jornais raros de São Paulo

Uma grande notícia: o Arquivo Público do Estado de São Paulo colocou na web grande parte de seu acervo de jornais e revistas que circularam por aqui e que ajudaram a construir a história da imprensa no Brasil.

O acervo digitalizado tem exemplares raros de Correio Paulistano (1867), Diário de Santos (1907), La Barricata (1913), A Lanterna (1914), Acção (1936) e, como não citar, uma coleção bastante interessante da Última Hora, criada em 1951 por Samuel Wainer e que circularia até 1971. Isso sem contar uma série de revistas.

Vale a pena fazer essa viagem.

Um trambolho chamado ‘máquina da UPI’

A máquina desenvolvida pela UPI: ruidosa, lerda e pesada, mas uma maravilha tecnológica na era da pedra lascada

A máquina desenvolvida pela UPI: ruidosa, lerda e pesada, mas uma maravilha tecnológica na era da pedra lascada

Outro dia, num claro episódio de regressão, revelei que, na minha primeira Redação (como se fosse minha, eu era apenas mais um foca) tinha um pote cheio de fichas telefônicas. O povo gostou e pediu que, sempre possível, eu contasse um pouco mais sobre a idade da pedra lascada no jornalismo.

Daí, não sei bem o porquê, me lembrei da máquina de transmissão de fotos que a UPI, agência de notícias criada em 1907 e que ainda existe, apesar de ter perdido muito da relevância, ajudou a desenvolver.

Bem, o trambolho da UPI era isso que você vê na foto acima. Pra começar, ficava acondicionado numa maleta (imagem menor, à direita) que pesava não menos do que 20 kg. O peso, como veremos a seguir, era o menor dos problemas.

Apesar de quebrar um galhão e agilizar a chegada de material fotográfico à redação (a máquina da UPI usava o sistema wirephoto, ou seja, as imagens eram transmitidas via ondas de rádio), a questão na operação da bugiganga envolvia bastante paciência.

Notem o cilindro que ela possui. Era ali que o fotógrafo, literalmente, colava a imagem que ia transmitir. E a bichinha passava a girar velozmente, acompanhada de um irritante, contínuo e altíssimo ruído. Uma maravilha da tecnologia, nos admirávamos todos.

Se a foto fosse colorida, o suplício era bem maior. Claro, cada uma das quatro chapas que compõem a imagem em cores (preto, cyan, magenta e amarelo) eram transmitidas uma por vez, num processo que certamente não levava menos de 75 minutos _a foto PB passava em, digamos, meia hora. Isso se a linha não caísse. E o fotógrafo tivesse de começar tudo outra vez.

Lembre que, além de carregar o pesado equipamento, os fotógrafos ainda cuidavam da revelação de suas películas, aumentando sua bagagem com produtos químicos, utensílios plásticos e papel fotográfico, muito papel fotográfico.

A última vez que eu vi uma máquina UPI (em funcionamento, e no meu quarto de hotel me azucrinando) foi em 1993, numa cobertura no Equador.

Que ela descanse em paz.

O fim da Gazeta Mercantil

Primeiro jornal só de economia do Brasil (foi fundado em 1920), a Gazeta Mercantil já tem data para fechar as portas, após ao menos uma década de turbulência financeira.

Leia também: o atestado de óbito da Gazeta Mercantil

Jornal publica anúncio que sugere o assassinato de Obama

Opine: um jornal precisa de manchete todos os dias?

Concretizada, a descontinuação é a primeira de um jornal tradicional brasileiro em tempos de crise do jornalismo impresso (capitaneada por Estados Unidos e Europa). Diferente, é verdade _aqui não há, como fator preponderante, a quebra do modelo de contrato com o cliente, mas um racha administrativo mais grave). Ainda assim, é uma defecção importante.

O atual controlador da Gazeta, Nelson Tanure, avisou que não se responsabilizará pela massa falida (leia-se: o imenso passivo trabalhista) da empresa e devolveu o título ao ex-controlador, Luiz Fernando Levy.

Em conversa por telefone com a redação, ontem, Levy já avisou que não tem saúde financeira para tocar o negócio. “Nao se iludam, acabou”, disse aos jornalistas da casa. E tome imbróglio jurídico.

Tanure se propõe “apoiar a transição da Gazeta“, cujo contrato de licenciamento da marca diz ter devolvido pela “incessante penhora de receitas financeiras do uso da marca Gazeta Mercantil para garantir o pagamento de obrigações trabalhistas”.

O site Blue Bus acompanha em cima o desdobramento da crise.

Leia também:
. Cenas trágicas da última edição de um jornal

Quando líamos jornais 2

Anos 30: vendedores de jornais no Rio de Janeiro

Anos 30: vendedores de jornais no Rio de Janeiro

Armados com lei de 1918, tubarões caçam amadores

A Associated Press levou, há 91 anos, um concorrente que cozinhava seu conteúdo aos tribunais nos EUA.

Cooperativa mantida por jornais, tvs e rádios do país, a AP se sentiu ameaçada em 1918 pela INS (International News Service), agência de notícias rival de propriedade do magnata William Randolph Hearst _quem inspirou o clássico Cidadão Kane.

A I Guerra Mundial se desenrolava na Europa, e a AP tinha a primazia sobre a informação (não era permitido à INS, que não possuía o carimbo de agência “confiável”, o acesso ao teatro de operações do conflito).

Fato é que a rival da AP conseguia cobrir a guerra por meio de uma sistemática que nunca foi devidamente explicada _aparentemente, emissários de Hearst obtiam simultaneamente, por meio de suborno, as reportagens da AP e, via telégrafo, as transmitiam para seus assinantes, devidamente reescritas.

A estratégia garantiu aos jornais que assinavam os serviços da INS vários furos, notadamente os da costa oeste dos Estados Unidos, quatro horas de fuso atrás de Nova York _e onde a adesão à AP era menor.

A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos criou a “doutrina da notícia quente”, pela qual grandes grupos, como a AP, detinham o direito de legal de exclusividade sobre as coberturas em que seus concorrentes não conseguissem “apuração independente e checagem”.

Isso em 1918.

Agora, e pelo mesmo motivo, a NBA foi atrás de um site que exibia resultados de jogos da liga de basquete dos EUA em tempo real (sem credencial para acompanhar as partidas in loco), e agências de notícias como a mesma AP caçam agregadores de conteúdos e feeds.

Ainda em há, em alguns Estados americanos (a lei deixou de ser federal), a “doutrina da notícia quente”. É por meio dela que alguns grupos do mainstream têm caçado profissionais e, sobretudo, amadores.

Porém eles não fazem como a INS, que não citava a AP como fonte (despacho do juiz há 91 anos considerava que, houvesse a referência, o delito seria atenuado).

O que é um agregador de feeds senão uma vitrine explícita para o conteúdo ali exibido (uma coleção de links)?

Em tempo: até onde sei, a mais recente demanda judicial de empresonas contra bagrinhos é esta. Patético.