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Clay Shirky: ‘Mesmo sem dinheiro, estamos na época de ouro do jornalismo’

Ainda tratado como “guru” (o que é um despropósito, trata-se de um pesquisador), Clay Shirky falou esta semana em Paris sobre as mudanças que a tecnologia impõe ao comportamento humano.

Para quem ainda não o conhece, Shirky escreveu dois livros importantíssimos sobre o tema (Here Comes Everybody e Cognitive Surplus, ambos sem tradução em português).

No que nos diz respeito, o jornalismo, Shirky sai do lugar comum: diz que a profissão vive seu melhor momento “ainda que não haja dinheiro”.

Para ler, guardar a refletir.

A sociedade não precisa de jornais, mas de jornalismo

Cresceu, nas últimas semanas, a discussão sobre a cobrança por conteúdo jornalístico na internet, por sinal uma grande bobagem que já foi testada e reprovada nos primórdios da web.

E não adianta comparar com o iTunes _afinal, notícia é perecível, ao contrário da música, executada milhares de vezes (logo, seu valor é imensamente superior).

Mesmo assim, me responda: você conhece alguém, no Brasil, que paga ao iTunes por música diante de tanta oferta gratuita? Um louco, talvez.

Daí aparece Clay Shirky, professor da Universidade de Nova York (o lugar para se aprender jornalismo hoje no mundo), contando que em 1993 uma investigação antipirataria identificou uma série de torneiras que vazavam, de forma ilegal, o protegido conteúdo da popular coluna humorística que Dave Berry publicava no jornal Miami Herald.

A força-tarefa achou muita coisa, desde material na usenet (espécie de avó da internet), a listas de e-mail com mais de 2 mil destinatários e até um garoto de 14 anos que copiava as colunas porque adorava Barry e queria “que mais gente lesse o que ele escreve”. Isso há 16 anos.

“Quando uma criança ameaça o seu negócio não porque te odeia, mas porque te ama, você tem um grave problema”, disse a Shirky Gordy Thompson, que na época era executivo dos negócios on- line do New York Times.

Pois é exatamente este grande problema que está encarando o jornalismo de frente. Por mais que você se feche em copas e exija moedinhas para liberar pílulas de conteúdo, ele estará circulando livremente na web por outras vias. Várias. Milhares. E principalmente por pessoas que acham o seu trabalho o máximo. Elas pagariam apenas para ter o prazer de distribuí-lo na rede, sem auferir qualquer lucro.

“A habilidade do público de compartilhar conteúdo não vai cair. Pelo contrário, se expandirá cada vez mais”, diz Shirky. É essa certeza que torna absolutamente inócuo qualquer modelo escorado em cobrança do usuário.

Jornais não vendem papel. Vendem notícia. Sobre isso, Shirky _autor do principal livro sobre a sociedade em rede em 2008, Here Comes Everybody_ é definitivo.

A sociedade não precisa de jornais. Ela precisa de jornalismo“.

Mark Deuze, professor de jornalismo e novas mídias, também fala sobre o assunto em post recente de seu blog.

A balela dos micropagamentos

Está ótima a discussão iniciada por Clay Shirky (autor do indispensável “Here Comes Everybody“) sobre a proposta de micropagamentos para salvar o jornalismo impresso _grosso modo, se você vai imprimir um conteúdo, pague US$ 0,50; se for ler na tela, US$ 0,20, e assim por diante.

 É incrível, apesar de a Internet ter um passado tão recente, as pessoas não lembrarem que esse modelo já foi usado (e reprovado) nos primórdios.

 Além da indisposição natural do internauta a não ser taxado pelo que sempre recebeu de graça, esconder seu conteúdo atrás de um paredão pago significa, também, sua morte on-line (fora das máquinas de busca, você não é indexado ou encontrado). 

É o que nos relembra, agora, Shirky.

Protesto de rua combinado por SMS

Aproveitando que estou no Uruguai (por isso o sumiço nesta terça, perdão), vou falar da Argentina _sim, este país oriental gravita em torno do que se passa do outro lado do rio da Prata.

Os últimos panelaços contra a intransigência do governo Cristina (Nestor??) Kirchner, que se recusa a dialogar com agricultores após aumentar subitamente os impostos sobre exportações, foram combinados via torpedos e correntes de e-mail. Mais de um provedor e operadora do país detectaram movimentação anormal de troca de mensagens nos últimos dias.

Era a conclamação para o protesto. O poder de mobilização do ser humano atual, plugado e ainda mais participativo, mais do que nunca ameaçador aos que acreditam que, dominando os meios de comunicação tradicionais, dominam o mundo.

Covardia, até. Argentino, quando o meio de comunicação mais rápido ainda era o pombo-correio, sempre foi um mestre em se aglutinar, especialmente se o motivo é reclamar do governo.

É como diz Clay Shirky em seu “Here Comes Everybody”: se você não sabe o que está passando no mundo on-line, pare tudo, permaneça off-line, entenda o que está rolando e, daí, volte à vida.