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A proposta da Unesco para o ensino de jornalismo

A Unesco publicou em português uma proposta de modelo curricular (em PDF) para o ensino do jornalismo elaborada em 2007. Omissões absurdas poderiam, a princípio, ser creditadas apenas ao tempo (quatro anos é uma eternidade na internet), mas parecem deliberadas.

O órgão resume assim o processo: quatro “especialistas” da entidade elaboraram um esboço depois apresentado a 20 professores “com reconhecida experiência na profissão” (de professor ou de jornalista? Não sabemos). Eles se encarregaram da descrição de cada disciplina e do esboço “das competências fundamentais do jornalismo”.

Depois, um grupo ainda mais numeroso espalhado pelos cinco continentes escreveu o programa das 17 disciplinas fundamentais. Foi um trabalho valoroso que, pese a bibliografia desatualizada, não faz feio ao que hoje se ensina nas faculdades de jornalismo brasileiras.

Mas há outros problemas. A palavra “inovação” não aparece no texto de 161 páginas.

Assim como “empreendedorismo”, que é um tema importante a se debater com pessoas que trabalharão numa área na qual iniciativas individuais cada vez mais conquistam espaço e remuneração.

Insuficiente também a preocupação com o avanço tecnológico, que na proposta da Unesco aparece associado apenas ao jornalismo on-line, quando precisa estar espalhado por toda e qualquer disciplina de um bom curso.

Não existe menção a dispositivos móveis, e o termo “celular” aparece uma única vez quando se fala sobre SMS. Em 2007, o iPad nem existia.

Precisa de um banho de loja essa grade curricular.

O que os futuros jornalistas deveriam aprender na faculdade?

Com a palavra, a professora americana Amy Gahran, que tem defendido (assim como eu) uma forte ênfase nas novas ferramentas on-line _e na habilidade gerencial dos alunos em admistrar idéias e negócios na rede.

O aspecto “econômico” das idéias de Gahran foi muitíssimo bem comentado pelo jornalista José Renato Salatiel.

A parte jornalística deixa comigo: a professora aponta, por exemplo, que simulações com ferramentas de administração de conteúdo são indispensáveis (como o trabalho com blogs que desenvolvemos em Jornalismo On-line).

Sua sugestão é que os alunos, reunidos em grupo, passem ao menos dois semestres alimentando e melhorando seus blogs _notadamente integrando-os a serviços como Flickr e Delicious.

Imersão em mídias portáteis, como estamos fazendo com o Twitter e com o Telog, é outra exigência atualíssima e indispensável.

Gahran cita como exercícios a inscrição a serviços de SMS disponíveis no mercado (para que possam ser criticados e avaliados pelos alunos) e também incentiva a participação em canais de colaboração dos grandes portais. Exatamente como fiz, pregando no deserto…

Outro ponto importante é o uso das mídias sociais (Facebook, Myspace, Orkut -arghhhhh!!!!) como instrumento de pauta e apuração, promoção do próprio trabalho e possibilidades de alcance externo.

Finalmente, entender a notícia como ponto de partida de um diálogo, não mais um discurso de mão única, é uma habilidade desejável no mundo jornalístico redesenhado pela tecnologia.

Agora, se você não souber como fazer um lide, meu amigo, desista.