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As fontes sumiram

Eis um efeito colateral interessante da megavilância a que o governo dos EUA tem submetido o tráfego de dados: o presidente da Associated Press (AP), Gary Pruitt, disse que fontes simplesmente estão deixando de falar com os jornalistas da agência com medo de serem descobertos.

Esse é o ponto crítico quando se estabelece um terror como a inexistência de privacidade: a inexistência de informações circulando.

A saúde dos jornais

Interessante artigo do professor Carlos Alberto Di Franco, com o título acima, aborda uma série de questões importantes sobre a “mcdonaldização dos jornais”, termo que ele usa, e algumas propostas para fazer o produto impresso sobreviver.

A mais curiosa delas, mas que faz algum sentido: aumentar o corpo das fontes do jornal. Afinal de contas, o leitor médio no Brasil beira os 50 anos _ressalte-se que a Folha de S.Paulo fez isso em sua última reforma gráfica, ampliando em 10% o tamanho das letras que publica.

Sobre blogueiros e jornalistas

A notícia de que a corte suprema de Nova Jersey determinou, ao julgar um caso, que blogueiro não é a mesma coisa que jornalista tem um erro de viés. Não foi exatamente essa a decisão do tribunal.

O caso envolvia Shellee Hale, ex-funcionária da Microsoft, que postou comentários em um fórum acusando de fraude e ameaça de morte uma companhia que produz softwares usados na indústria pornográfica.

Tivesse utilizado seu site pessoal (ainda em construção) e, mais especificamente, a área de notícias da página, Hale não poderia ser processada.

Portanto, a corte não entendeu liminarmente que uma pessoa que mantém trabalho jornalístico na internet mesmo sem ser jornalista profissional está totalmente desprotegida de leis como a que permite o sigilo de fontes.

Sugeriu, apenas, que “jornalistas autointitulados e entidades com pouco histórico” carecem de maior investigação sobre suas atividades antes de se decretar que podem ou não ser defendidas como jornalistas.

Agora, que blogueiro e jornalista não são a mesma coisa já sabíamos há tempos. A atividade jornalística não é a única que se pode desempenhar num site pessoal. Isso basta para esclarecer que uma coisa nada tem a ver com a outra.

Escrever, pura e simplesmente, não é jornalismo.

O primeiro grande vazamento do WikiLeaks

A divulgação de mais de 250 mil correspondências entre embaixadas americanas no mundo todo e o Pentágono ainda vai ocupar as páginas dos jornais por um bom tempo _nem 10% desse conteúdo foi revelado até agora.

No Brasil, quem publica os papéis vazados pela ONG WikiLeaks é o jornal “Folha de S.Paulo“.

Bom momento para relembrar o primeiro grande vazamento (no jargão jornalístico, conteúdo passado de forma anônima pela fonte) ao projeto de Julian Assange.

O vídeo é inesquecível: uma desastrada incursão de duas patrulhas aéreas das Forças Armadas Americanas que culminaram com a morte de vários civis em Bagdá no dia 12 de julho de 2007.

A imagem que abre este post é o momento do ataque que matou dois cinegrafistas da agência de notícias Reuters. Os diálogos dos pilotos americanos beiram o patético: eles confundiram as câmeras com armas pesadas.

Foi o que tornou o WikiLeaks famoso, em 18 de abril de 2010 _quando o site completou quatro anos no ar.

Finalmente um golpe de mestre dos jornais

A ANJ (Associação Nacional de Jornais) anunciou sexta-feira no Rio, no encerramento de seu congresso anual, que está negociando com agregadores estímulos para que os internautas busquem notícias diretamente nos sites que os hospedam.

“Nossa meta é buscar formas adequadas de remuneração de nossos conteúdos, para que o jornalismo de qualidade continue a desempenhar o papel que tem e sempre teve em sociedades democráticas”, disse Judith Brito, presidente da entidade.

Como seriam essas “formas adequadas”? Ainda não sabemos ao certo, mas discute-se a redução dos textos exibidos em agregadores (como o Google News) e critérios de indexação que consigam distinguir entre o que pode ou não ser exibido por meio do Protocolo de Acesso Automático a Conteúdo.

Toda essa discussão, direitos autorais à frente, sempre teve como pano de fundo a sobrevivência dos jornais. A novidade, agora, é que os agregadores aceitaram negociar.

Se os jornais conseguirem ganhar dinheiro com algo que claramente ajuda a promover seu conteúdo, terá sido um golpe de mestre.

Nenhum estímulo para alcançar a fonte original de uma notícia pode ser maior do que o agregador (que, com frequência, possui audiência várias vezes superior aos veículos que se incomodam em aparecer neles).

O dever de proteger a fonte

Esse é um dado bacana que o Columbia Journalism Review revelou: desde 2001, na gestão de Robert Muller, o FBI já investigou (sem processar ninguém) 85 casos nos quais a acusação era “crime report”, ou seja, a revelação de dados confidenciais para veículos de imprensa _nesta conta entrou apenas a mídia formal, e em geral os “infratores” eram funcionários públicos.

Há ainda outros 21 casos em andamento.

Na maior parte das vezes, há pressões sobre os jornais para que divulguem suas fontes (quem teria, sob a luz da lei americana, cometido algum tipo de delito). É um dever nosso proteger essas pessoas.

Por ora, a imprensa resiste. Veremos até quando.

Com a palavra, a fonte

Cesar Maia, prefeito do Rio, distribui de segunda a sexta uma newsletter com opiniões, informações sobre sua atuação pública e divagações. Ela, que já foi um blog (daí o pouco feliz, mas engraçado, nome de “Ex-blog”), pode ser assinada aqui.

Alertado por Leopoldo Godoy (que comanda o “8bitsemeio“), resolvi trazer aqui largo trecho do boletim desta terça-feira, no qual o político discorre sobre como enxerga a imprensa e este “novo” meio, a Internet. Vale lembrar que Maia, certamente, tem uma intimidade com o computador que muitos jornalistas (vergonha!!!!) não têm. Há quem diga, inclusive, que ele _em vez de administrar a cidade_ passa o dia diante do laptop.

Enfim, não é esse o propósito aqui. Apenas reproduzo abaixo o que o prefeito escreveu como um registro de uma fonte relevante comentando o nosso trabalho. Alguma coisa observada por Maia é absolutamente verdadeira. E passível de reflexão.

Atualização: só depois me toquei que talvez fosse bacana comentar item a item as opiniões de Maia. Vamos lá? Em bold, minhas intervenções:

PARTE DA IMPRENSA NÃO ENTENDE A INTERNET COMO UM MEIO DE COMUNICAÇÃO!

1. O prefeito do Rio comentava a este Ex-Blog, que achava curioso que sempre que ele responde uma pergunta por e-mail, de TV, Rádio ou Jornal, o veículo cita esse fato: – O prefeito respondeu por e-mail que… Curioso porque nunca dizem que o ministro respondeu por telefone, ou o deputado respondeu num gravador, ou que respondeu cara a cara num restaurante ou em seu gabinete. Por que a internet merece um destaque negativo, ou um “caco” como se fosse uma forma menor de responder a indagação de um repórter?
Hum… será? Dizer que alguém falou a um gravador claro que não, é bobagem, mas alguns jornais têm como padrão informar como se deu a conversação com um entrevistado. No caso do e-mail, pode se tornar informação essencial, pois justifica eventuais questões não rebatidas pelo repórter, naturais num papo pessoal.

2. A internet é um veiculo de comunicação, tanto quanto o telefone e a palavra, e ao mesmo tempo um meio de comunicação como a imprensa. Mas -como sempre- em períodos de mudança de padrão tecnológico, o hábito dificulta a compreensão de quem por anos opera da mesma forma, com saudades da gravata desapertada, da mesinha com papéis, da máquina de escrever, de um telefone que levava horas para chegar ao entrevistado, do bom papo no bar…
Pura verdade. A resistência a mudanças é uma característica do ser humano, não poderia ser diferente com os jornalistas. Ainda há profissionais em “redações de papel” que não checam e-mails (simplesmente por não considerar a tarefa importante) ou que gritam aos quatro cantos que, se fazem papel, fazem on-line, “afinal, jornalismo é jornalismo”. Não é.

3. Para os jornais só vale a entrevista com um gravador na mão e um fotógrafo do lado. Para o rádio só vale a entrevista com um gravador, estúdio ou telefone e a voz ao vivo. Para a TV só vale a entrevista com as imagens editadas do entrevistado respondendo.
É evidente que, para as mídias TV e rádio, as sonoras (declarações gravadas) são essenciais. No jornal papel, recomenda-se gravar todas as entrevistas para segurança jurídica (combater eventuais desmentidos). Na Internet, se eu tiver áudio e vídeo agregado ao texto, terei cumprido ainda melhor meu papel.

4. Na entrevista por e-mail a resposta vai editada e sucinta. Não há pergunta-pegadinha, não há foto, não há imagem editada, não há voz… Mas por outro lado há a vantagem -cada dia maior- de entrevistar, consultar, perguntar, esclarecer, a qualquer hora do dia e da noite. Ontem com equipamentos fixos, os comentários eram de que o entrevistado ficava sentado atrás de um micro, o dia inteiro. Mas esses comentários permanecem num quadro em que os equipamentos são móveis e miniaturizados, com antena e portanto a disposição do entrevistado e do repórter o dia inteiro em qualquer lugar.
É o que comentei no item 1: por e-mail, é mais difícil para o repórter retrucar e corrigir declarações sabidamente equivocadas. Em compensação, a disponibilidade e agilidade citadas por Maia são, até aqui, insuperáveis. Tanto que ele próprio, volta e meia, é pego por um jornalista mais ágil que responde ao mail-resposta com ponderações (Maia se comunica muito por e-mail), não é respondido e cita que sua réplica foi ignorada _ao menos até o horário de fechamento.

5. Num período de transição como ainda estamos por aqui, tudo isso choca e se torna incompreensível para uma cultura tradicional de imprensa. Isso atrasa a comunicação especialmente num mundo rápido. Alguns jornais pensam que a edição do jornal na internet deve ser uma reprodução eletrônica do jornal, quase que como uma cópia página a página. Na verdade o veículo com isso não muda. Todos os jornais do Rio fazem isso, pensando a internet como extensão do jornal. Não é!
Meia verdade: passamos desse estágio já, mas caminhamos lentamente. A Internet chegou aos jornais brasileiros exatamente assim, como a versão on-line da edição em papel. Hoje temos, em maior ou menor nível, atualização diária. Mas ainda grassa nas redações de papel um analfabetismo tecnológico assustador. Tanto que são poucos os veículos que possuem profissionais polivalentes, ou seja, que transitam pelos dois meios.

6. Na edição do jornal na internet com as matérias devem ser listadas verticalmente, sem diagramação, sem leads e ou manchetes ou destaques, o editor é cada leitor pessoalmente. Uma micro-noticia pode ser a noticia relevante para quem lê e não a que o editor daquela página gostaria. A ausência de fotos nas páginas internas na edição internética, rompe com a hegemonia da imagem e garante a hegemonia do texto, do conteúdo e a hierarquização feita pelo consumidor.
Aos trancos e barrancos e de forma oblíqua, Maia toca no ponto que muitos jornalistas (nem os exclusivamente on-line) perceberam: que a edição é, de fato, do leitor. Não apenas por causa do feed, mas pela possibilidade de escolher a ordem a leitura ou procurar o que deseja numa máquina de busca (os atalhos que fazem prever a gradual desimportância da home page).

7. O que hoje é percebido como mau uso do tempo ou ausência física, será em breve o cotidiano da imprensa, com a internet como vanguarda ou pelo menos entendida como meio com características próprias. A agenda externa fechada evita que a presença da cobertura da imprensa dramatize o contato com a população, sempre pronta para dizer o que a faz aparecer no dia seguinte ou no mesmo dia nas páginas, voz ou tela. E aí temos uma caricatura e não um retrato do fato, independente que a avaliação do repórter seja essa ou aquela, para abrir (rádio e jornal), ou fechar (TV) a matéria.
Não entendi nada. E você?

8. A liberdade de imprensa não pode ser vista só, como a liberdade dos meios de comunicação. É também a liberdade dos entrevistáveis que podem escolher seus métodos. Amanhã muitos que ainda não sabem, saberão que perderam tempo nestes tempos de mudança, e que o mundo da comunicação já não era/não é o mesmo.
A tecnologia assegura não só a liberdade do entrevistado, como também a da ex-audiência, cada vez mais dotada de recursos antes exclusivos dos profissionais de comunicação. É o “We the Media” preconizado por Dan Gillmor. Aqui, o prefeito acertou na mosca.