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Papel sucumbe no tablet

Sem pompa nem circunstância, e no 18º parágrafo de um release sobre diretrizes empresariais, o magnata da mídia Rupert Murdoch anunciou o fechamento do The Daily, diário (?) que criou exclusivamente para iPad (depois admitiu dispositivos movidos a Android) e que não ficou na praça nem dois anos –  estreou em fevereiro de 2011.

Na época, Murdoch havia dito que precisaria de pelo menos 500 mil assinantes para tornar o negócio (e uma redação de 120 pessoas) rentável. Pois o The Daily sai de cena tendo arregimentado, em seu auge, não mais que 100 mil clientes.

É evidente que uma série de obituários pululam, e pundits se perguntam o que deu errado no negócio.

De minha parte, acrescento duas impressões: a idiotice da reprodução do papel num ambiente em que isso não é necessário e o produto fechado em copas, como é tradição da NewsCorp, numa plataforma em que o compartilhamento faz parte do negócio.

Tudo avança no jornalismo, menos o horário de fechamento

Outro dia, conversando com o colega Netto Gasparini (o homem que concebe o desenho e põe nas páginas nossas matérias da editoria Poder, da Folha de S.Paulo), fiquei sabendo que ganhamos mais uma etapa no processo industrial de confecção de um jornal diário: o fotolito (filme em negativo que reproduz páginas do jornal) não existe mais.

Agora, da paginadora a página viaja para a gráfica e se transforma diretamente na chapa que será aplicada à rotativa.

Pergunte se esse novo salto conquistado graças ao avanço tecnológico se reverteu em tempo a mais para o horário de fechamento, ou seja, a conclusão da edição diária. Claro que não!

Esse continua sendo o maior mistério do jornalismo impresso: com a alta tecnologia, ganhamos tempo precioso em diversos aspectos (da logística à distribuição, passando pela transmissão de notícias e fotos rua-redação etc.).

No entanto, desde que comecei na profissão, em 1990, o horário de fechamento só recuou _hoje, nos jornais nacionais, não passa de 21h, com direito a mais uma edição, quando se atualiza o noticiário, fechada por volta de 23h.

Saudades dos tempos em que fechávamos um único jornal à 0h.

Alguém explica?

Só o deadline está sempre na mesma

Comecei no jornalismo diário em 1990, na Folha da Tarde, jornal que mais tarde, numa quase fusão com o Notícias Populares, gerou o Agora (o NP, na verdade, fechou dois anos depois da mudança de nome da FT, mas isso proporcionou uma absorção de parte de seu cardápio pelo único jornal popular que seria publicado dali por diante pelo Grupo Folha).

Era uma época bem diferente.

Pra começar, na entrada da redação tinha um pote forrado de fichas telefônicas _claro, não havia celular, e contato entre base e repórter só era possível se este último fosse a um orelhão dar sinal de vida.

Muitas vezes, esta ligação servia como modo de transmissão da matéria. Explico: muitas das coisas que fazíamos na rua tinham de ser simplesmente ditadas, porque não havia outro modo de passar a informação à redação.

Ficávamos mais tempo na rua, disparado. A verdade é que a rua era o refúgio do repórter. Hoje, monitorado o tempo inteiro, virou um calvário documentado em tempo real.

O contato externo com o jornal era exíguo. Ou envolvia um mensageiro portador de rolos de filmes, documentos e manuscritos _seja motorista, amigo fazendo um favor, o que seja_, ou era todo feito por telefone. Jornais mais diligentes usavam radiotransmissores, conhecidos como walkie-talkie (o fax, diga-se, apareceria pouco depois).

O dia a dia de produção do jornal envolvia ainda tarefas demoradas, como o past-up (a montagem manual, com cola Pritt e estilete, de cada página da edição), a transformação daquilo em chapa, a preparação da rotativa, bem menos expedita do que nos tempos de hoje, e a própria rodagem da edição _nem é preciso dizer que o equipamento atualmente disponível para as editoras imprime até dez vezes mais rápido a mesma quantidade de papel.

Você já deve estar aí rindo de tanta dificuldade, pensando em como era fazer jornalismo na era da pedra lascada (e olha que nem citei a inexistência da internet _ou do Google, como queira).

Mas tem uma coisa que não mudou em nada de lá para cá: o horário do fechamento.

É sério, alguém, me explica: por que, com tanto avanço tecnológico notório e a olhos vistos, o deadline, o maldito deadline, é praticamente o mesmo em 2009 como era em 1990?

Não é balela, eu vi: em alguns casos, como o das edições de domingo, o limite para concluir a edição era mais extenso há 19 anos do que atualmente. É, na minha eleição, o maior mistério que permeia o jornalismo impresso.

Se todos os gargalos se abriram, porque só o horário do fechamento não reagiu?

Falta reportagem, não repórteres

Costuma-se falar muito sobre o papel do repórter num jornal. Claro, é o cara que está na linha de frente da notícia. Sente-se muito a falta do repórter, especialmente em produtos on-line. Mas peralá, esse é o único cara da redação que está na rua? Eu também estou, oras. Só ele fala com pessoas e detecta coisas? Afe…

A questão, quando analisamos a crise do jornalismo mundial (financeira e de credibilidade), provavelmente passa pela falta de reportagem, não necessariamente de repórteres. Em jornalismo, assim como todo mundo edita, todos têm de sentir o pulso das ruas, nem que seja na esquina da própria casa, no supermercado, no trânsito.

Imagine um jornal produzido e fechado integralmente por repórteres. Ele jamais iria às bancas. O repórter tem, por definição (e com as devidas exceções), uma visão limitada e centrada em seu foco de atuação (é a tal da setorização, tão boa e, ao mesmo tempo, tão ruim).

Quem amarra os assuntos e liga os pontos é a turma do fechamento, do ar-condicionado. É o editor e seus fechadores (sejam redatores, assistentes ou o que seja). Bem diz minha colega Ana Estela que a tarefa de quem liga os pontos é tão nobre quanto. Porém relegada ao último plano, porque seu nome quase não aparece.

Dane-se meu nome.

Sem ovos não há omelete, eu sei. Mas os caras da “bunda na cadeira” podem perfeitamente apurar, aparar arestas, propor sinapses. O repórter também, claro. Mas normalmente ele está sendo cozido numa caldeira que contém todo o caldo informativo.

O trabalho de acabamento, a ourivesaria, como bem diz meu editor José Henrique Mariante, é da turma de cá.

Eu exijo mais reconhecimento ao povo do fechamento. Juan Luis Cebrián, uma das cabeças pensantes do El Pais (um diário que há décadas tenta fugir do hard news e oferecer conteúdo diferenciado), fala, como a Ana, da importância de quem burila o material a ser publicado a partir do bruto apurado pelo repórter.

Sintam falta de reportagem, não de repórteres. Todo jornalista tem a obrigação de apurar. Faz parte do metiê. Se falta apuração no produto jornalístico que você lê, a culpa é de todo mundo.