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Curso de jornalismo da USP atrai 25% menos gente

Curso mais concorrido da Fuvest no ano passado (uma relação de quase 42 candidatos por vaga), Jornalismo caiu para 32 postulantes a cada cadeira escolar neste ano _uma procura 25% menor.

O vestibular, que seleciona candidatos a USP, Santa Casa e Academia do Barro Branco, teve justamente essa instituição policial como dona da vaga mais concorrida (quase 46 pessoas por lugar na sala de aula).

O porto seguro de uma carreira pública (ainda que a de oficial militar, aparentemente árdua e pouco reconhecida) tende a atrair cada vez mais gente.

Se a queda da obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão tem a ver com a redução da procura pelo curso universitário, e fosse só por isso, estaria plenamente justificada.

Precisamos de menos gente nas faculdades de jornalismo. É um passo para mudar o conceito fast-food e investir no pessoal e intransferível.

A faculdade de jornalismo tem de ser procurada por ser reconhecidamente capacitadora (profissional e intelectualmente).

Tudo menos ser apenas o pedaço de papel que dá o passe para exercer um ofício. Essa era acabou, felizmente.

O diploma de jornalista na Argentina. Que diploma?

No momento em que o STF está na iminência de votar a obrigatoriedade (ou não) de um diploma específico para o exercício do jornalismo, e aproveitando que sigo aqui pela Argentina, procurei consultar jornalistas amigos para saber como a questão é tratada aqui.

Pasmem: para ser jornalista na Argentina não é preciso nem sequer um diploma universitário. Isso mesmo, qualquer um, de qualquer área. Basta, apenas, comprovar que se trabalha (ou se trabalhou) na profissão, inclusive em atividades correlatas _como diagramador ou fotógrafo, por exemplo.

Radical demais, mas não deixa de colocar uma boa pitada nesta discussão. Afinal, que atire a primeira pedra quem considera _e pode sustentar essa opinião com argumentos sólidos_ o jornalismo brasileiro superior ao argentino. No mínimo, diria que estão no mesmo nível (sendo benevolente conosco, para dizer a verdade).

O fato de não existir exigência de diploma não significou o fim da carreira como uma disciplina acadêmica, pelo contrário. No país, há centenas de opções de cursos (que duram os mesmos quatro anos que os cursos brasileiros). E estas faculdades estão cheias de gente em busca de informação que possa auxiliar seu trabalho futuramente nas redações.

Entrementes, no Brasil, a Fenaj segue sua campanha pró-diploma sustentada no fragilíssimo pilar da regulamentação.  Ora, a regulamentação nada tem a ver com o diploma em si, mas sim com metodologias de acesso e controle profissional que muito bem poderiam ser supridas por um órgão que fiscalize as práticas dos jornalistas militantes (especificamente no campo da ética).

Como vimos, as faculdades de jornalismo não acabaram nem perderam alunos apenas porque um diploma não é necessário para se trabalhar na profissão. O caso argentino prova isso e derruba mais uma das bobagentas argumentações dos que defendem a obrigatoriedade de um pedaço de papel para exercer esta função altamente técnica.

O papiro do ensino de jornalismo no Brasil

Outro dia o ensino do jornalismo no mundo fez 100 anos. Agora, no Brasil, recentemente a Universidade de Brasília (UnB) descobriu o projeto original de Pompeu de Sousa, criador do primeiro curso de Comunicação Social do país lá mesmo, na novíssima capital, em 1961.

Na verdade, é um texto de Alberto Dines, escrito em 1965, que detalha alguns conceitos do curso concebido por Pompeu, introdutor do lide no jornalismo brasileiro (no Diário Carioca, em 1950) e também criador do primeiro manual de redação de que se tem notícia nestas paragens.

O propósito do curso, que ora reproduzo, era nobre: “Dedicar-se-á, pois, a Faculdade de Comunicação de Massas ao estudo e ensino das ciências, artes e técnicas concernentes a todos os veículos e instrumentos que, transmitindo informação, opinião, sugestão, recreação e arte, em escala industrial, intra-relacionem e inter-relacionem as massas humanas, recebendo e exercendo influências geradoras ou condicionadoras de estados-de-espírito coletivos das mesmas. Estudará e ensinará, portanto, a melhor utilização de todos estes veículos e instrumentos: jornais, revistas e periódicos de toda natureza, agências noticiosas, agências de publicidade e propaganda, rádio, cinema, televisão, ou, ainda, outros quaisquer que o progresso da tecnologia venha a criar ou desenvolver.”

Há de se perguntar o porquê da presunção do trecho “ensinará (…) a melhor utilização de todos estes veículos”, mas acho que não vem ao caso. Nem hoje, mais de 40 anos depois, haveria resposta.

O mais interessante é notar o óbvio (para a época) ensinamento restrito às ciências, artes e técnicas concernentes a todos os veículos que “transmitem em escala industrial”. Se transposto para os dias de hoje, deixaria de fora precisamente o mais bacana: as coisas escritas de cueca, em casa, e que estão verdadeiramente revolucionando a profissão graças à difusão gratuita e imediata proporcionadas pelas novas tecnologias.

Por sinal, o grosso das faculdades ainda não atentou para isso.

Vida de jornalista é interessante?

Vem cá: a rotina de trabalho de um jornalista interessa realmente ao público? Um pequeno canal de TV da Argentina está fazendo o teste: de segunda a sexta, e por dez minutos (a partir de 23h45), vai ao ar na C5N um reality show que tem coleguinhas como protagonistas.

Basicamente, o programa mostra a confusão em torno de eventos concorridos como entrevistas coletivas.

Nada grandioso para ver, portanto. É como quando me pedem para visitar a Redação: gente, isso aqui é um bando de computador amontoado, papéis espalhados e gente neurótica gritando. Nada para ver, portanto.

Tem outra coisa: pra mim, jornalista não existe. Ele é um mediador entre notícia e público (mediação, por sinal, que está indo para as cucuias graças ao avanço tecnológico).

Em tempo, e ainda falando sobre o interesse (de outro tipo) em jornalismo: enquanto no Brasil segue crescendo o número de pretendentes a vagas nas faculdades de comunicação, na Argentina as matrículas caíram 30%. Nas faculdades, o diagnóstico é claro: não há emprego para tanta gente.