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A ESPN e a ESPN

A ESPN precisa ser mais transparente sobre o papel do jornalismo em seu modelo de negócios, os propósitos por trás dele e qual o grau de comprometimento da emissora para garantir sua aplicação.

O parágrafo acima refere-se à ESPN americana e foi escrito por Robert Lipsyte, ombudsman do canal, num longo texto de despedida da função – aliás, reparem quantos assuntos espinhosos ele foi obrigado a tratar em seu mandato.

No Brasil, a emissora recorre ao jornalismo como seu principal instrumento de marketing. No esporte, dizer que se faz jornalismo parece ser uma necessidade (uma bobagem clássica daqueles que ainda separam a comunicação em compartimentos).

Em 2013 eu já falava sobre o poder da ESPN americana (muito maior que o da Globo no Brasil) e questionava se a filial brasileira do canal dos EUA apresentaria-se como combativa, tal qual é hoje, se tivesse o mesmo bolo nas mãos.

É sobre isso que Lipsyte está falando.

O problema da ESPN

Muito boa essa análise sobre o poder da ESPN, que detém contratos milionários com as principais ligas americanas e consegue até mudar times de sede, entre outros aspectos monopolistas. Com mãos de ferro, ela manda em tabelas, horários, regulamentos…

Surpreendente saber que a emissora, hoje, responde por cerca de metade do faturamento do grupo Disney (US$ 5,4 bilhões), uma autêntica máquina de fazer dinheiro.

A questão central é: que jornalismo faz uma rede tão enfronhada nos negócios? Mais, no caso do Brasil: será que a emissora é tão crítica e combativa justamente porque está à margem dessa cadeia de comando?

Rogério Ceni diz que esporte é apenas entretenimento. E você?

A entrevista foi em abril, mas um pequeno trecho da conversa com o goleiro Rogério Ceni publicada pela edição brasileira da revista da ESPN me fez pensar de novo se o jornalismo deveria tratar de vez o esporte com olhar prioritário no aspecto entretenimento _suscitado pelo evidente caráter lúdico do que está em jogo.

Sou adepto do rigor jornalístico, como em qualquer editoria, mas será que estou certo? Realmente precisa? Melhor: é o que o público quer? Não estaríamos, em vários momentos, levando a coisa a sério demais?

Numa resposta ampla dentro do contexto da repercussão do que diz diariamente, Ceni afirma que a área esportiva (em geral)  “deveria ser entretenimento”, ou seja, que palavras e atitudes mereciam ocupar menos destaque.

É verdade que os atletas viveriam todos mais felizes se o mundo da crônica esportiva fosse uma grande Globo _não só ela, pra não ser injusto e repetitivo: veículos jornalísticos que sobrevivem da cobertura do dia a dia, do rame-rame, não conseguem fugir muito da agenda positiva.

Um pouco como acontece com intensidade nos cadernos de turismo, carros e cultura.

Uma aresta para a gente aparar.