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O preço de um erro

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Custou R$ 650 mil – afora o incalculável passivo de imagem – a publicação de uma foto fake do presidente venezuelano Hugo Chávez pelo jornal espanhol El Pais na semana passada. É a imagem que você vê acima (ela foi negociada por R$ 40 mil).

A empresa que edita o jornal saiu à caça dos exemplares já na rua, e promoveu uma reedição de emergência sem a barbaridade. Em seu site, a imagem ficou impávida como Muhamad Ali por eternos 30 minutos.

É o que nos conta o próprio jornal, em reconstituição passo a passo da decisão de publicar a imagem, oferecida por uma agência que não prima exatamente pela primícia noticiosa – o mais surpreendente para mim, e isso já se sabia desde aquele dia, é que a ficha do periódico só caiu por causa da repercussão em redes sociais. Ou seja, o jornal estava completamente nu. E foi descoberto.

Estamos numa época, portanto, em que as pessoas avisam em tempo real  que o jornalismo profissional fez uma barbeiragem. Mais: uma era em que as pessoas, atuando juntas, acabam fazendo o que a gente deixa de fazer.

Para piorar, um italiano assumiu o “atentado jornalístico” justificando que sempre faz isso: espalha cascas de banana para checar quais os níveis de filtragem e apuração da imprensa formal.

É uma grande história porque extrapola o campo do folclore das barrigas jornalísticas e penetra no turbulento mundo da conspiração política.

Preocupante ou auspicioso?

O massacre da escola e o fetiche da velocidade

O “jornalismo formal” costuma apontar o dedo para as redes sociais como um exemplo de falta de acuração e cuidado com a informação. Claro, acuração e cuidado com a informação são apanágios do “jornalismo formal”.

Daí um rapaz de 24 anos que teve toda a família assassinada pelo irmão mais novo (também morto) é apresentado pela mídia tradicional como sendo o assassino.

Definitivamente estamos caminhando com muita pressa. Esse fetiche da velocidade foi extraordinariamente dissecado na tese de mestrado que Sylvia Moretzsohn defendeu na UFF em 2000.

“Antes de mais nada a informação deve ser rápida para ser considerada eficiente. A velocidade, portanto, parece ganhar vida própria, e passa a ser o valor fundamental a ser consumido”, escreve a pesquisadora.

E isso agora é pra todo o sempre. Um ônus que o jornalismo em tempo real impôs aos nosso tempo. E que vale inclusive para a rede social.

Não sabemos fazer conta

“Sou jornalista, não sei fazer conta”. Quantos já recorreram à essa surrada frase para explicar uma barbeiragem no uso de números em matérias?

A BBC compilou alguns dos nossos erros mais frequentes nessa seara e, pasmem, eles pouco tem a ver com habilidade numérica – e tudo mau jornalismo mesmo.

Vejamos: “esquecer o contexto”, o erro número um. Óbvio: citamos uma cifra, como o preço de uma obra ou o salário de um jogador, sem comparar o que aquele valor significa.

O que dizer de “focar no atípico e esquecer a média”? É uma falha flagrante: pegar um dado que aparece fora da curva e pimba!, desenvolver uma tese sobre ele que não se sustenta analisada toda a série.

Tem mais, dá uma olhada.

Falando em bom português

Você sabia que cerca de 15% das palavras patrocinadas em mecanismos de busca (que anunciantes compram para destacar seus produtos) contêm algum tipo de erro de grafia?

Equívocos de digitação e desconhecimento da língua pátria (o que dirá de outras) forjaram termos como ‘home teacher’, ‘gravides’ e ‘Maiami’. Todos são entendidos perfeitamente pelos sistemas de pesquisa.

No nosso mundo, até o deslize gramatical leva ao lugar correto.

Políticas de correção de erros on-line

A ausência de uma política de correção de erros em sites noticiosos não deveria ser uma surpresa.

Temos jornais impressos tradicionais (estamos falando de publicações com mais de 100 anos) que até hoje não possuem transparência nem um local específico para avisar a seus leitores que coisas incorretas foram publicadas.

O caráter de hemeroteca viva da internet transforma esse trabalho (o de corrigir os erros nossos de cada dia) numa tarefa ainda mais fundamental. Afinal de contas, o jornal de ontem não está mais nas suas mãos, e acessá-lo certamente lhe dará algum trabalho.

Enquanto isso, na web os textos estão ao alcance do dedo.

Para os veículos, isso significa não só uma política editorial, mas também de recursos humanos _o dia a dia on-line, todos sabemos, é árduo Trabalho retroativo é mais um acúmulo na montanha de tarefas.

E aí o bode entra na sala.

O massacre dos redatores do LA Times

Deirdre Edgar, O ombudsman do Los Angeles Times, teve de comentar (e o fez com bastante humor) o errinho chato da página A22 da edição impressa da última quinta-feira.

Foram rodados 55 mil exemplares até que alguém se desse conta de que não havia títulos nas notas de uma coluna de noticiário nacional.

Quer dizer, títulos havia, mas eram marcações gráficas do tipo “O título vem aqui”, o bom e velho modelo ou figurino: um texto fake salvo para fazer a demarcação do espaço que ocupa.

“Os leitores temeram que todos os redatores tivessem sido demitidos ou até mesmo ‘massacrados’, como disse um”, registrou Edgar.

Acontece.

O Valor Econômico e a fonte que não fala ‘nem a pau’

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Às vezes, coisas que escrevemos em documentos que deveriam ser particulares (como rascunhos em nossas pastas pessoais ou mesmo o texto da pauta do dia, que costuma _e deve mesmo_ ser mais informal) acabam vazando, e por ene motivos.

valor_nemapauNo caso do jornal impresso, é um caminho sem volta. Publicou, está eternizado.

Aconteceu na semana passada com o Valor Econômico, que numa reportagem sobre o interesse da Telefónica na aquisição da operadora GVT (empresa-espelho da Brasil Telecom) relatou que Fernando Antônio França Pádua, chefe interino da Superintendência de Serviços Públicos da Anatel, “não fala nem a pau”.

Como disse Ancelmo Gois, “acontece nas melhores famílias”.