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Conversas sobre redes sociais


Ainda no ‘Volto Já’ mode, mas a Raquel Recuero descobriu duas palestras legais sobre redes sociais. Desfrute.

Na reta decisiva, internet parece ter produzido ruído eleitoral

Se não foi capaz de amenizar totalmente a sensação de irrelevância da internet no processo eleitoral brasileiro, a última semana de campanha exibiu ao mesmo tempo o lado bom e o mais baixo da rede que conecta pessoas.

Ainda que restrito a redes sociais específicas (como Twitter e Facebook), é impossível não notar que o movimento a favor de Marina Silva (a “onda verde”) se acentuou na web precisamente no momento em que a candidatura da verde, enfim, decolou e saiu da estabilidade.

Simultaneamente, ressurgia a velha tática terrorista-cristã, agora espalhada via e-mail e Orkut, principalmente, associando a candidata petista Dilma Rousseff a uma suposta disposição de relaxar os dispositivos legais que coibem o aborto no país, assunto que provoca urticária no eleitorado religioso.

Nos dois casos, os movimentos nascidos na internet parecem ter promovido algum resultado concreto nas urnas _só um levantamento entre os dois grupos de eleitores (os de Marina e os religiosos) é capaz de assegurar o que os indícios mostram.

Ações do gênero, que mudam o rumo de eleições, sempre houve, e isso muito antes da internet. Lembro de 1985, quando FHC titubeou ao responder num debate na TV se acreditava em Deus.

Dias depois, São Paulo amanheceu forrada de cartazetes com os dizeres “Cristão vota em Jânio”, que acabou sendo eleito prefeito, virando uma eleição quase perdida.

A diferença daquela época para hoje é que as campanhas não tinham as mesmas armas de contrainformação que dispõem hoje, quando a facilidade de publicação na rede praticamente deu uma imprensa para cada cidadão.

Marcelo Branco e sua “guerrilha virtual”, contratados pela campanha petista para fazer esse trabalho na internet, nem se deram conta.

(versão revisada de texto meu publicado na edição de ontem da Folha de S.Paulo)

Castells e o jornalismo: ‘ser uma gota a mais num oceano de informação não faz muita diferença’

“As redes na internet abrem o jogo das ideias para todo tipo de ideia. Desta forma, a sociedade se expressa mais abertamente”, disse o sociólogo espanhol Manuel Castells, 68 anos e um dos principais pesquisadores sobre o comportamento humano na rede, em conversa que tivemos na semana passada (e sobre a qual você já leu um pedaço aqui).

A frase introduziu a parte em que falamos sobre jornalismo e a avalanche de informação _a trajetória de mídias de massa a massas de mídia, como bem define Ramón Salaverría. Castells acredita, como a gente, que o jornalismo se beneficiou da conversação e da abundância de informação na web.

“Os jornalistas recebem mais informação e, se enfrentam alguma restrição de seus chefes para publicar, podem sempre recorrer ao argumento de que se não publicarem, alguém o fará. Então a internet também ampliou a liberdade para os jornalistas, que sempre, ou quase sempre, lutaram pela liberdade de informação mas também eram prisioneiros de interesses políticos e comerciais em suas empresas”, diz o sociólogo, lembrando a era da publicação pessoal e a possibilidade de difundir informação sem permissão de ninguém.

A outra observação de Castells vai ao encontro do que dizemos há tempos: que a credibilidade restou como o último bastião da mídia profissional desde que o cidadão tem acesso às mesmas armas tecnológicas que ela.

“A única vantagem que têm os meios de comunicação estabelecidos é a credibilidade, o profissionalismo. Nunca se sabe se uma informação na internet é correta, há milhões de informações. Para ter credibilidade, é preciso transmitir a informação correta. A política de meios de comunicação mais exitosa é aquela que afirma o profissionalismo e a independência. Senão, para ser uma gota a mais num oceano de informação, não faz muita diferença.”

Índios mapuches fazem seu próprio jornalismo no Chile

Jornalismo hiperlocal. Para uma comunidade específica. Falando inclusive em sua própria língua.

É a proposta do Azkintuwe, o jornal/site/agência de notícias da comunidade Mapuche, o principal povo indígena do Chile.

Para ver e aprender.

O receituário do jornalista do presente

Novas habilidades, combinadas com as antigas e que já estamos carecas de saber; espírito empreendedor (eu vivo falando aqui sobre criar as próprias oportunidades, e o ambiente on-line é extremamente propício a esse tipo de coisa); buscar novas formas de colaboração com a audiência e com outros jornalistas.

Bem em resumo (leia o texto completo) é o que receita Adam Westbrook para quem deseja se mobilizar com alguma condição de obter sucesso na profissão neste e nos próximos anos.

Um aspecto que ele aborda bem é a necessidade (ou a conveniência, melhor dizendo) de o jornalista conhecer aspectos técnicos que possam ajudar na construção do diálogo com o público e, também na própria concepção de reportagens.

Lembram? Quando nerd e jornalista são a mesma pessoa, estamos bem arranjados. Senão, é bom tratar de fazê-los conviver harmoniosamente e trocar informações.

A notícia sou eu

O episódio da demissão de Vanderlei Luxemburgo do Palmeiras mais uma vez exibiu um aspecto importante do avanço tecnológico que provocou mudanças profundas no exercício do jornalismo.

É, talvez, a principal consequência da era da conversação e da publicação pessoal: cada cidadão possui, agora, sua própria imprensa. E pode se dirigir ao público sem a necessidade de utilizar a imprensa como filtro dos acontecimentos.

Foi assim com o ex-treinador do Palmeiras: à 0h44 de sexta para sábado, ele decidiu tornar a dispensa pública num canal pessoal (no caso, seu blog) _pouco depois, recorreu também ao microblog para dar a mesma informação.

A partir daí, foi a imprensa, vendida, quem saiu correndo atrás da bombástica informação.

Só para se lembrar que hoje não possui mais o monopólio sobre a notícia.

Nós não precisamos de manchetes, não é?

O Webmanario perguntou nas últimas três semanas a seus leitores se um jornal impresso precisa ter manchete sempre. Trocando em miúdos: se é obrigatório, a quem faz jornalismo em papel, determinar que um assunto é mais importante do que outros na construção de uma primeira página.

A maioria absoluta (61%) optou pelas duas alternativas que se complementavam, “Depende: desde que tenha uma informação realmente relevante”, que recebeu 34% das escolhas, e “Não, a manchete é uma convenção. O importante é distribuir bem os assuntos na primeira página”, com 27% _registre-se que a alternativa “Claro, jornal sem manchete está incompleto” alcançou 26% das preferências (“Não sei, nunca tinha pensado nisso” bateu em 13%).

Leia também: Reinventar o jornalismo ou o jornalista?

Quando eu respondo “não” ou “depende” à indagação “um jornal impresso precisa ter manchete sempre?”, eu claramente estou refutando um modelo que vigora desde que o jornalismo é jornalismo. Seria hora da tal da reinvenção?

houve jornal sem manchete, mas era dia 26 de dezembro, pleno Natal. Conta como ousadia, claro, mas reforça bastante a citação do colega Roger Modkovski de que “os jornais partem do falso pressuposto de que todos os dias há acontecimentos a serem noticiados”.

Tudo bem, ousado. Mas porque prescindir de um assunto capaz de chamar mais atenção e, portanto, ser mais promissor como produto?

Tanto é verdade que os jornais não podem navegar ao sabor dos acontecimentos como é mais que sabido que é preciso possuir na agulha material especial/investigativo para tirar o veículo da agenda. São esses os tais “diferenciais” que, além de pautar o jornalismo eletrônico, seguram uma manchete.

Mas ok, a pergunta da enquete _criticada por conter poucas opções e respostas muito fechadas_ era ainda mais existencial. Precisamos viver sob o domínio da manchete? E, além disso, qual a autoridade de quem manchetou?

Vinicius Bruno me lembrou que o “gatekeeping”, ou a escolha do que entra na edição, é meramente subjetivo. Quem é você para me dizer o que é mais importante? “Eu sou o editor, sou preparado e pago para isso, e se o leitor não gostou é porque ele é um idiota”, respondeu, certa vez, Paulo Francis.

Brilhante, mas talvez só Francis tivesse essa autoridade _acho que nem ele.

A semana de reflexão sobre o aconteceu ontem termina hoje. Foram dias de intenso debate e troca de informação. Em todas as frentes on-line.

Onde, aliás, esta conversação prossegue.

Mais diálogos sobre a era da conversação

Participei na noite desta terça-feira da 13º Semana da Comunicação da UNG, a Universidade de Guarulhos.

Foi mais um diálogo sobre a conversação e outras modificações que a tecnologia impôs ao jornalismo. Como você pode ver pelos slides, não muito diferente do papo que mantive em outras faculdades (e mesmo dentro da Folha de S.Paulo) recentemente.

Hoje foi um pouco diferente porque havia a necessidade de dar ênfase ao jornalismo esportivo _que, afinal de contas, é o que desempenho no dia a dia. Daí eu sempre dou um jeito de cutucar quem gosta de esportes, mas não de jornalismo, e tentar afastá-lo o quanto antes da profissão. “Façam educação física, gestão em marketing esportivo, sei lá, tantas carreiras…”, digo.

Exibi ainda uns títulos ruins (eles estão por toda parte, é só procurar) e tive de tempo de discursar contra a obrigatoriedade do diploma para se trabalhar na profissão.

Muita gente não gostou do que ouviu.

A aula na Famecos

Alunos do terceiro semestre da PUC-RS pouco antes de aula sobre jornalismo digital (Foto: Alec Duarte)

Alunos do terceiro semestre da PUC-RS pouco antes de aula sobre jornalismo digital (Foto: Alec Duarte)

Ainda em Porto Alegre, participei de uma aula de jornalismo digital dos professores Ana Brambilla e Andre Pase aos alunos do terceiro semestre da Famecos, a faculdade de comunicação da PUC-RS.

Foi uma conversa bem centrada na importância de o jornalista entender que foi desbancado pela tecnologia (o público agora tem acesso aos mesmos dispositivos e pode fazer jornalismo se quiser) e na necessidade de estabelecer uma conversação consistente, produtiva e colaborativa com essa gente.

Na apresentação, mostrei alguns cases importantes de fusão, apropriação e uso de novas ferramentas _mas bem sob a ótica do contexto de circulação e relevância de periódicos no Brasil.

A conversa fluiu tão bem que falamos ainda de campanhas virais na web e do negócio dos jornais gratuitos. E, claro, de um bom exemplo de mobilização da ex-plateia que deixou um site noticioso de joelhos: o #completeog1, que obrigou o produto global a corrigir um problema imperdoável em seu canal de microblog.

Não vejo a hora de voltar.

O incrível vídeo da tartaruga que ataca uma pomba

Vou postar este vídeo antes que eu esqueça. Mostra uma tartaruga, no melhor estilo National Geografic, atacando, afogando e comendo uma pomba num parque de Porto Alegre.

Foi feito pelo fotógrafo Ronaldo Bernardi, de Zero Hora, jornal onde passei uns dias na semana passada trocando impressões sobre as novas demandas do jornalismo na era do avanço tecnológico desenfreado.

Para obter essa imagem, houve primeiro uma apuração entre os frequentadores do parque, que lhe contaram a história. Mas, da apuração ao vídeo, exatamente um ano se passou.

A persistência foi premiada: Ronaldo é fotógrafo. Mas, antenado com o novo contrato da profissão, também produz vídeos e faz reportagens. Ah, ele fotografa também. E bem.

É a cara do novo jornalismo.