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Canibalismo nos Andes: o furo do El Mercurio em 1972

Há uma dica interessantíssima de que havia algo perturbador na história dos 16 sobreviventes dos Andes _os uruguaios que passaram 72 dias perdidos no meio da neve e tiveram de redefinir seus padrões após um acidente com o avião que os levaria de Montevidéu a Santiago.

Os dois primeiros resgatados, Roberto Canessa e Fernando Parrado, gaguejaram na primeira entrevista quando o repórter da TV chilena pergunta como foi possível sobreviver tanto tempo sem comida. Parrado diz claramente “disso não se fala”, com o que Canessa assentiu _e deu uma resposta genérica. Era o dia 20 de dezembro de 1972.

Seis dias depois, o jornal chileno El Mercurio deu o furaço: os sobreviventes dos Andes não eram tão dignos assim, eles tinham se alimentado de restos dos mortos no acidente.

No dia 28, numa entrevista coletiva, houve a admissão de canibalismo. Entre o choque e o aplauso.

Uma coletiva, uma imagem

A reporter raises his hand to ask a question as U.S. Army Gen. Ray Odierno, Commander of U.S. Forces-Iraq, delivers an operational update on the state of affairs in Iraq during a press briefing at the Pentagon, June 4, 2010.  DOD photo by Cherie Cullen (released)

Belíssima imagem de um momento tão chato do jornalismo: uma entrevista coletiva…

Passando dos limites

Um jornalista tem emoções e preferências, mas revelá-las em público (ou seja, no exercício da função) é catastrófico nos quesitos ético e comportamental.

É bastante comum (além de péssimo e não-recomendável), nas coberturas de esporte, treinadores e jogadores vitoriosos serem aplaudidos em entrevistas coletivas.

Repórteres de cultura também costumam dar uma de tietes quando estão diante de astros e estrelas _e daí, tome mais aplausos.

Até em política há personagens que são recebidos com felicitações por profissionais que têm a obrigação de manter postura neutra diante dos acontecimentos (um exemplo é o ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, que tem uma geração de fãs hoje de bloquinho e caneta nas mãos).

Mas nada como o ocorreu neste domingo, quando um jornalista iraquiano arremessou seus sapatos contra George W. Bush durante uma visita-surpresa do norte-americano a Bagdá. “Este é o beijo do adeus, cão”, disse o repórter, retirado da sala de entrevistas.

E, espero, da profissão.

Entrevista sem perguntas (?) na berlinda

Existe uma coisa pior do que a entrevista coletiva (essa instituição que pasteurizou o noticiário): a “entrevista sem perguntas” (pode isso?).

Pode. Trata-se de uma declaração oficial, feita por uma personalidade qualquer, que se dirige a um microfone e, cercada de jornalistas, fala o quer sem ser questionada.

A Associação de Imprensa de Madri se manifestou recentemente sobre o assunto, considerando ser desnecessária a presença de jornalistas em eventos deste tipo.

Eu acrescento que a própria entrevista coletiva, via de regra, resolve-se mandando um cachorro com um gravador pendurado no pescoço.

A “entrevista sem perguntas”, óbvio, nem deveria existir. Um comunicado via assessoria de imprensa ou site oficial basta.

A questão por trás desta discussão: a imprensa segue totalmente presa ao declaratório. Esquece-se da investigação, do pensamento associativo e da observação. Escrever textos recheados de aspas é muito fácil. Interpretá-las, ou aprender a viver sem elas, é nosso principal papel.