Arquivo da tag: ensino de jornalismo

Passaralhos também atingem universidades

O ensino (incluído aí o do jornalismo) também está às voltas com passaralhos: cerca de 150 professores foram demitidos da UniABC nesta semana, a maioria com título de mestrado ou doutorado.

O sindicato dos professores enxerga na ação uma manobra para substituir profissionais com titulação por graduados e especialistas, que por lei ganham menos.

Sabemos que é possível – mas muito difícil – tocar a carreira no jornalismo e na academia. No nosso caso, não dá pra prescindir de gente com experiência diária na profissão.

Faculdades que se fecham a bons jornalistas que não puderam avançar na pesquisa científica estão, em boa medida, cerceando o alcance de aprendizado de seus alunos.

O jornalismo precisa tanto de doutores e mestres quanto clama por especialistas.

Como recuperar a ilusão de querer ser jornalista?

Ser jornalista é diferente de estudar jornalismo. Vem antes, quase nasce com a gente.

A frase “pra você, de quem todo mundo ri quando diz que quer ser jornalista” é o ponto de partida de uma experiência interessante do coletivo espanhol 1001medios _encontrado, como sempre, pelo solerte Gerardo Albarrán e o seu Sala de Prensa.

Dez jornalistas relembram seu começo (conversas com os pais na hora de decidir a carreira, por exemplo) e falam sobre a paixão que move quem se dispõe a trabalhar nisso.

Aos 21 anos de profissão, não me arrependo de nada. Queria fazer isso desde muito novo (não desde sempre).

A verdade é que tive o que mereci.

A proposta da Unesco para o ensino de jornalismo

A Unesco publicou em português uma proposta de modelo curricular (em PDF) para o ensino do jornalismo elaborada em 2007. Omissões absurdas poderiam, a princípio, ser creditadas apenas ao tempo (quatro anos é uma eternidade na internet), mas parecem deliberadas.

O órgão resume assim o processo: quatro “especialistas” da entidade elaboraram um esboço depois apresentado a 20 professores “com reconhecida experiência na profissão” (de professor ou de jornalista? Não sabemos). Eles se encarregaram da descrição de cada disciplina e do esboço “das competências fundamentais do jornalismo”.

Depois, um grupo ainda mais numeroso espalhado pelos cinco continentes escreveu o programa das 17 disciplinas fundamentais. Foi um trabalho valoroso que, pese a bibliografia desatualizada, não faz feio ao que hoje se ensina nas faculdades de jornalismo brasileiras.

Mas há outros problemas. A palavra “inovação” não aparece no texto de 161 páginas.

Assim como “empreendedorismo”, que é um tema importante a se debater com pessoas que trabalharão numa área na qual iniciativas individuais cada vez mais conquistam espaço e remuneração.

Insuficiente também a preocupação com o avanço tecnológico, que na proposta da Unesco aparece associado apenas ao jornalismo on-line, quando precisa estar espalhado por toda e qualquer disciplina de um bom curso.

Não existe menção a dispositivos móveis, e o termo “celular” aparece uma única vez quando se fala sobre SMS. Em 2007, o iPad nem existia.

Precisa de um banho de loja essa grade curricular.

Curso de jornalismo da USP atrai 25% menos gente

Curso mais concorrido da Fuvest no ano passado (uma relação de quase 42 candidatos por vaga), Jornalismo caiu para 32 postulantes a cada cadeira escolar neste ano _uma procura 25% menor.

O vestibular, que seleciona candidatos a USP, Santa Casa e Academia do Barro Branco, teve justamente essa instituição policial como dona da vaga mais concorrida (quase 46 pessoas por lugar na sala de aula).

O porto seguro de uma carreira pública (ainda que a de oficial militar, aparentemente árdua e pouco reconhecida) tende a atrair cada vez mais gente.

Se a queda da obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão tem a ver com a redução da procura pelo curso universitário, e fosse só por isso, estaria plenamente justificada.

Precisamos de menos gente nas faculdades de jornalismo. É um passo para mudar o conceito fast-food e investir no pessoal e intransferível.

A faculdade de jornalismo tem de ser procurada por ser reconhecidamente capacitadora (profissional e intelectualmente).

Tudo menos ser apenas o pedaço de papel que dá o passe para exercer um ofício. Essa era acabou, felizmente.

Aumenta, nos EUA, o número de estudantes de jornalismo

Os patrões encaram a crise, e a profissão tem perdido cada vez mais o glamour.

Então me explica porque o número de estudantes de jornalismo só aumenta, principalmente nos EUA, onde o cenário é de terra arrasada?

Socorro, frente parlamentar defende volta do diploma de jornalismo

Estou me perguntando aqui qual a contrapartida que 184 deputados e 12 senadores receberão por compor a tal frente parlamentar em defesa da exigência do diploma de jornalismo para o registro profissional.

Pior, o grupo diz ter a capacidade de propor uma “lei de transição” entre o vazio com a acertada decisão do STF (o ruim é o vazio, a imprensa sem lei) e o modelo que desejam impor, o da volta da reserva de mercado, do pedaço de papel como passe para exercer a profissão _um curral inaceitável.

Tem gente de todos os partidos na jogada, o que é excelente (economiza saliva em qualquer discussão de botequim).

A universidade, enfim, deu um passo adiante e sugeriu mudanças efetivas nos cursos de graduação e posteriores. Afinal, caiu o diploma, não a profissão e, menos ainda, a formação.

Deixemos deputados e senadores pra lá.

O fim do diploma e o começo de outro jornalismo

A decisão do STF, que por 8 votos a 1 optou ontem pelo fim da exigência do diploma, é histórica e abre caminho para que, enfim, o ensino de jornalismo melhore e seus profissionais passem a constituir uma categoria _o que jamais existiu, com ou sem obrigatoriedade de canudo.

Comecemos pela repercussão: que triste constatar centenas de comentários de jornalistas diplomados tratando a questão meramente como “joguei quatro anos no lixo” ou “e os R$ 60 mil que paguei pelo curso, como ficam?”.

Sintomáticas, são frases que exemplificam porque o jornalismo está tão ruim. Quer dizer que desde sempre a questão foi tratada apenas como um trâmite, uma obrigação a se cumprir, como se a formação pessoal não contasse nada.

Pois bem: é exatamente nesse aspecto (o da formação) que eu vejo um futuro auspicioso.

Leia mais notícias sobre o fim da exigência do diploma
Gay Talese e o orgulho de ser jornalista

Afinal de contas, agora a formação prevalece sobre a imbecil reserva de mercado. E, para ser jornalista, você terá de se preparar de verdade. Não bastará cumprir (sabe-se lá em que nível) uma quarentena obrigatória de oito semestres para, ao final dela, chegar ao pote de ouro.

A mudança atingirá a universidade justamente no momento em que uma comissão de notáveis discute mudanças no currículo da graduação. Essa reformulação precisa ser mais aprofundada agora que a formação e especialização serão a moeda corrente _sim, as empresas seguirão dando preferência a quem entende do assunto.

Não consigo enxergar a extinção e o esvaziamento dos cursos de jornalismo no Brasil. Na Argentina, como contei no ano passado, tampouco existe obrigatoriedade de diploma e as salas de aula estão cheias. É assim nos Estados Unidos e na Europa também.

A formação do profissional, que sem dúvida é muito mais rápida na prática, tendo a redação como lousa e os velhos lobos como professores, continuará existindo na academia.

A diferença é que, agora, o portador do diploma não terá um passe para exercer automaticamente a profissão. Ou seja: a faculdade só poderá lhe fornecer informação, não o passe de papel. E as que vivem acenando com o passe, estas sim, estão seriamente ameaçadas.

Com a decisão do STF, preparar-se passou a ser o fim, não um incômodo entre aluno e salvo-conduto para trabalhar.

Prevejo ainda uma enxurrada de cursos de especialização no que você puder imaginar (jornalismo esportivo, político, econômico, cultural, oficinas de reportagem, texto etc.).  Aliás, já há vários projetos sendo preparados para 2010.

No quesito categoria profissional, o fim do diploma também traz consigo a oportunidade histórica de, finalmente, reunir os jornalistas numa categoria de verdade.

Qualquer argumentação sobre o fim da obrigatoriedade precipitar contratações irregulares, jornadas extenuantes de trabalho, não pagamento de horas extras, condições precárias de trabalho e quetais não colam.

Tudo isso já existe hoje, no mundo real. E sob a égide do diploma. O que leva o patronato a tratar os jornalistas como subempregados é precisamente a ausência de um espírito coletivo.

Vejo a suposta fragilização da profissão, após a decisão do STF, por outro ângulo: o fim da reserva de mercado, e a possibilidade de ingresso no jornalismo de profissionais com outras experiências inclusive no trato com os patrões, dão a todos nós a chance imensa de estabelecer outro tipo de relação com o empregador _e, quem sabe, atingir a tão sonhada categoria que discurso nenhum de sindicato conseguiu forjar.

Quem se habituou a ser tratado como gado, como os jornalistas diplomados, ganha uma ótima perspectiva com a companhia, agora oficializada, de gente que não está acostumada a essas relações de trabalho tão podres que foram construídas com a conivência de quem (eu, inclusive) deveria ter protegido o exercício da profissão.

Restringir o acesso a ela, como já sabemos, não funcionou.

ATUALIZAÇÃO: Já li dois excelentes textos nesta manhã sobre o fim da obrigatoriedade do diploma: o de Marcelo Soares “Se você tem medo de concorrer com analfabetos, melhor plantar batatas” e o de Rogério Christofoletti “Estudar não faz mal a ninguém” (as aspas foram escolhas minhas). Durante o dia, atualizo aqui com mais coisa legal.

Mais textos sobre a decisão do STF: “Não tenho medo de perder meu emprego para um sem-diploma” (Márcio Leijoto), “Existem duas visões que podemos adotar, a otimista e a pessimista” (César Valente) e “Muito barulho por nada” (Carlos Brickman).

Sugestões para o ensino de jornalismo

A dica é do @agranado e é bem legal: que disciplinas deveriam ser ensinadas a estudantes de jornalismo.

A economia do freelancer e o empreendedorismo jornalístico são, disparado, as sugestões mais auspiciosas.

Por que tanta gente quer ser jornalista?

Ricardo Kotscho comenta porque tanta gente quer ser jornalista. Pudera, é muito legal, adiciono. Durante anos, uma frase de Ziraldo foi meu mantra: “Eu não entendo como as pessoas podem ser felizes se não forem jornalistas”.

Legal que, logo de cara, Kotscho já se sai com “Claro, eu sei que com o crescimento das novas mídias eletrônicas ninguém mais precisa ter diploma nem emprego para ser jornalista, pois cada um pode fazer seu próprio jornal na internet.”

Essa é uma das sentenças com as quais mais concordo hoje em dia. Eu mesmo já disse, algumas vezes, que se tivesse essas oportunidades na minha época, provavelmente eu teria desenvolvido minha veia jornalística de cueca e em casa, sem jamais ter passado por uma redação ou faculdade do ramo.

Kotscho ainda fala de sua crença na sobrevivência do produto jornalístico impresso (eu também acredito nisso).

Enfim, é um texto de fôlego (na verdade, a transcrição de uma palestra) reproduzido pelo Comunique-se. E que num feriado pode cair bem como leitura incidental.

A questão do diploma e os jornalistas militantes

A discussão sobre a obrigatoriedade do diploma específico para o exercício do jornalismo segue rendendo pano pra manga. O STF está na iminência (a quantos meses tenho escrito isso, meu deus?) de julgar a matéria.

A primeira coisa que me chama a atenção hoje, anos após o início da pendenga, é que a maioria das vozes que se levantam para discutir o tema _sejam elas de sindicalistas ou de acadêmicos_ partem seguramente de pessoas com minúscula atuação prática na área.

Alguns, mesmo com pequeníssima passagem por algo que se assemelharia a uma redação, batem no peito, posam de especialistas, dão sugestões e conselhos ao debatores. Coitadinhos.

Também concordo que a Fenaj, por pior que seja constituída sua diretoria (uma cambada de barnabés que mamam nas “assessorias” de órgãos públicos), deveria capitanear o processo de regulamentação e fiscalização da profissão.

Afinal, foi o desinteresse dos jornalistas militantes (não os de meia-pataca, de biblioteca ou de repartição pública) que propiciou o estabelecimento desta desordem vergonhosa que hoje representa os jornalistas brasileiros.

Talvez, com uma missão de verdade à vista, os processos eleitorais e de gestão dentro da Fenaj sejam encarados com seriedade por quem dedica seu dia ao trabalho jornalístico de verdade _os que metem a mão na massa, não os que vêem a massa em cima da mesa e, de barriga vazia, desandam a criticá-la sem propriedade alguma). Eu me incluo na crítica: sempre, em 18 anos de profissão, me recusei a participar dos pleitos da entidade nacional, mesmo tendo mais de uma década como profissional sindicalizado e em dia com suas obrigações financeiras _que é o que, no fundo, importa a estas instituições.

Pior é a própria Fenaj, que nesta segunda distribuiu nota aos professores de jornalismo brasileiros com o título cafona “Aos mestres, com carinho”, no qual insinua que sempre esteve por trás de projetos que visam melhorar a qualificação do ensino da disciplina. Outra mentira.

Repito aqui: o ensino de jornalismo nada tem a ver com a exigência ou não de um diploma para exercê-lo. Eu, assim como muitos de vocês, quero uma faculdade melhor, preocupada com a discussão acadêmica sim, mas dona de recursos humanos capaz de gerir as necessidades técnicas do ensinamento deste trabalho.