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Canibalismo nos Andes: o furo do El Mercurio em 1972

Há uma dica interessantíssima de que havia algo perturbador na história dos 16 sobreviventes dos Andes _os uruguaios que passaram 72 dias perdidos no meio da neve e tiveram de redefinir seus padrões após um acidente com o avião que os levaria de Montevidéu a Santiago.

Os dois primeiros resgatados, Roberto Canessa e Fernando Parrado, gaguejaram na primeira entrevista quando o repórter da TV chilena pergunta como foi possível sobreviver tanto tempo sem comida. Parrado diz claramente “disso não se fala”, com o que Canessa assentiu _e deu uma resposta genérica. Era o dia 20 de dezembro de 1972.

Seis dias depois, o jornal chileno El Mercurio deu o furaço: os sobreviventes dos Andes não eram tão dignos assim, eles tinham se alimentado de restos dos mortos no acidente.

No dia 28, numa entrevista coletiva, houve a admissão de canibalismo. Entre o choque e o aplauso.

Pinochet, um atentado, e o carregador de microfone

Nada melhor do que se despedir do Chile com o histórico vídeo no qual o general Augusto Pinochet, sem ser interrompido nem questionado pelo repórter da televisão estatal TVN (um mero carregador de microfone), dá a sua versão para o atentado frustrado que sofreu em 7 de setembro de 1986 (mais uma coincidência com uma efeméride brasileira).

O desempenho do jornalista (??) é o melhor exemplo do que eu convencionei chamar de “cachorro com um gravador pendurado no pescoço”. Chega a ser constrangedor. E foi. Imagine as pressões para a tomada do depoimento.

Por ocasião dos 20 anos do atentado (que teve represálias trágicas, como a execução de um jornalista de esquerda horas depois do crime), o El Mercurio de Santiago concebeu uma belíssima infografia animada, com áudio e vídeo, que até hoje serve perfeitamente de exemplo para o que queremos dizer quando falamos em infografia na plataforma on-line.

Do Pacífico, agora rumo ao rio da Prata, louco para falar das agruras de Cristina K e do jornalismo dos hermanos. Por sinal, eles estão muito de olho na gente: reportagem de hoje do Clarín comenta sobre cinco aspectoa da vulnerabilidade argentina com relação à “derrocada” do Brasil na crise econômica.

O texto encerra com uma observação curiosa sobre a “balança comercial turística” entre os dois países (“veranear no Brasil já custou o dobro do que fazê-lo na Argentina” _afinal, R$ 1,60 e 3,20 pesos equivaliam a US$ 1). Ainda assim, conclui a reportagem, “é bom comprar agora os reais para suas próximas férias”, uma aposta clara na acomodação do valor da moeda americana passada a turbulência.

A ver. E ao vivo.

Em tempo: o sobrenome Pinochet não foi varrido da política chilena. A filha do general, Lucia Pinochet Hiriart, é candidata a vereadora pela comuna santiaguenha de Vitacura;

Filial de jornalão chileno nasceu antes da matriz

Hoje peguei em mãos uma edição do jornal mais antigo do mundo em língua espanhola, o El Mercurio de Valparaiso, cujo número inaugural foi às ruas da bela cidade portuária chilena em 12 de setembro de 1827. É, agora, um modesto tablóide de 36 páginas com foco em assuntos do dia-a-dia, coluna social e classificados.

O jornal é um caso raro de filial nascida antes da matriz. Explico: sua atual nave-mãe, o El Mercurio da capital, Santiago, só seria fundado 73 anos depois, num momento em que a empresa jornalística do litoral passava por grave crise financeira e foi vendida.

Hoje, o grupo El Mercurio detém 15 títulos diários no Chile _e é inegável que o jornalão de Santiago, com seus respeitáveis 108 anos, é o mais influente e importante deles.

Ao ler o filhote de Valparaiso, chama a atenção a página “Pauta del Lector”, que pretende oferecer “reportagens” escritas pelos leitores. Cá como lá (o Brasil), o cidadão não tem a menor idéia do que é notícia e qual seu timing. Será por isso que o jornalismo cidadão não decola?

Exemplo: na edição de hoje, quarta-feira, o periódico publica uma nada empolgante história sobre um caminhão de loja que quebrou a lanterna de um carro particular (e cujo dono, o autor da “matéria”, tenta ser ressarcido). Detalhe: o incidente, que não é notícia nem aqui nem em qualquer lugar do mundo, ocorreu em 8 de agosto…

Outro exemplo da desimportância do jornalismo cidadão (pena, não é só o nosso) na América Latina: o outro texto da página relata uma agressão recebida por um vira-lata em 28 de setembro. Meu deus, nem dona maricota deve ter se dado ao trabalho de comentar essa…

Por sinal, ainda que antigo, há num site dedicado ao tema um relato de a quantas anda a interação entre meios tradicionais e seus leitores no Chile. Como se vê, a coisa não anda, seja deste lado da Cordilheira dos Andes ou do outro.

É por isso que a interação mediada (por jornalistas profissionais) ainda me parece ser a melhor forma de colocar as pessoas “comuns” dentro dessa caixinha de surpresas e macetes chamada jornalismo.