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Começou o ‘ou dá ou desce’ no jornalismo diário

Começou o “ou dá ou desce” no jornalismo impresso do hemisfério norte _por enquanto é só por lá, nossa sentença chegará em mais alguns anos.

O La Presse, “maior jornal em francês do continente americano” (como se isso fosse alguma coisa), apresentou à sua equipe o dilema: ou aceita aumento da jornada de trabalho e perda de benefícios ou o jornal fecha as portas em 1º de dezembro.

O corte de custos presumido pelo veículo para garantir sua sobrevivência é de US$ 11 milhões, incluídas aí ao menos 100 demissões num total de 700 funcionários.

No Brasil, este tipo de barganha não é possível, o que torna ainda mais criativa a tarefa de pensar como empresários e jornalistas negociarão num cenário de terra arrasada.

Desde Getúlio Vargas, não se pode rebaixar salários ou regatear o cumprimento de obrigações trabalhistas _conte nos dedos das mãos os países que dão essa salvaguarda.

Como nós somos eles amanhã, há de se pensar: faz sentido flexibilizar as leis que regem o contrato capital-trabalho, e dar uma chance à redução de danos do desemprego, ou o melhor é brigar por direitos consolidados?

Finado em papel, jornal morre também na internet

Lembram do Rocky Mountain News, o jornal cujo fim acompanhamos praticamente ao vivo aqui, em 26 de fevereiro?

Pois ele morreu uma segunda vez, agora na web.

É assim: um grupo de 30 ex-funcionários do diário da cidade norte-americana de Denver se reuniu em torno de veículo on-line criado para manter vivo o espírito do jornal, que ontem completou 150 anos.

A proposta do InDenverTimes era cobrar US$ 5 mensais de uma carteira de clientes estimada em 50 mil pessoas para tornar o negócio viável.

Como todo mundo que aposta em conteúdo noticioso generalista pago na internet, o InDenverTimes fracassou: reuniu só 3 mil assinantes, número insuficiente para bancar parte do espólio funcional do finado Rocky em papel.

Faz sentido existirem redações ainda?

O fim do jornal impresso em papel já é uma discussão real na profissão. Mas e o fim da Redação (enquanto um espaço físico que reúne jornalistas e equipamentos)?

Será que o avanço tecnológico já não tornou possível o trabalho dos “mojos” (mobile journalists, ou “jornalistas móveis”) longe de um escritório? Afinal, o repórter cobre sua história, escreve, fotografa, faz vídeos e envia ou publica tudo isso por meio do celular ou de uma simples rede wifi.

Logo, o papel da Redação como um centro integrado de informações e também de tecnologia de publicação deixou de existir.

O Editor’s Weblog diz que, para cortar custos, o “The Record in Hackensack“, jornal de New Jersey (EUA), já usa a Redação apenas para o indispensável. Stephen Borg, seu editor, se enxerga num mundo em que os repórteres trabalham todo o tempo fora do escritório.

A conta da economia é o maior ingrediente de convencimento: o “The Record in Hackensack” estima que deixará de gastar, por ano, US$ 2,4 milhões em conta de luz e equipe terceirizada de limpeza, por exemplo.

Aqueles que precisam da Redação como um escritório, para receber uma fonte, por exemplo, fazem uma reserva de mesa, como num restaurante.

Eu, e já faz tempo, acho totalmente desnecessário (ainda mais em cidades-monstro como São Paulo) obrigar as pessoas a se deslocar para usar um computador ou um telefone, coisas que todos possuímos em casa.

Antigamente, você só estava informado se fosse à Redação. O mundo mudou, mas muita gente ainda acha que jornal se faz socando as pessoas dentro de um ambiente insalubre. Tsc tsc tsc…

Editores discutem os caminhos do jornalismo

Cerca de 400 editores de jornais do mundo todo estão em Gotemburgo, na Suécia, participando do Fórum Mundial de Editores.

Além do Editor’s Weblog (publicado pela Associação Mundial de Jornais), que faz cobertura ampla, recomendo a leitura dos posts da Ana Estela, editora de Treinamento da Folha de S.Paulo, que está lá e, como sempre toda solerte, mandando pau no Novo em Folha.

No Twitter, o povo do Journalism.uk está bem prolífico também.

O evento vai até quarta e falaremos dele seguidamente aqui.

A foto errada da tragédia idem

A foto acima é de uma tragédia. Mas da tragédia errada.

Explico: no sábado, o jornalão francês Le Monde (aquele afogado em dívidas que recentemente enfrentou uma raríssima greve de jornalistas) publicou reportagem com o sugestivo título de “Hiroshima: o que o mundo nunca disse”, ilustrada com a chocante imagem de corpos inertes, que o prestigioso Hoover Institution, da Universidade de Stanford, possuía em seu acervo.

Pois bem: a foto não retrata o horror pós-bombardeio de Hiroshima, em 1945, mas a devastação de Tóquio no grande terremoto que atingiu o Japão em 1923. O jornal jogou a responsabilidade pelo erro de crédito para o instituto, e lembrou que um livro do historiador Sean Malloy também mostra a imagem como sendo da hecatombe atômica (Malloy, antes tarde do que nunca, agora busca informações sobre o fotógrafo que registrou a cena).

Para nós, fica a lição: confiar na reputação de institutos e historiadores, como se pergunta o Editor’s Weblog, não é suficiente.  O Museu da Paz, em Hiroshima _que é a referência óbvia sobre o assunto_ foi o primeiro a notar o engano. Nem jornal nem historiador nem instituto procuraram o órgão antes de dar a barriga.

O jornal-papel não acaba, mas pode acabar…

O Editor’s Weblog colocou no ar mais um entrevista com jornalistões analisando o presente e o futuro das edições em papel.

Jonathan Landman, do The New York Times, foi confrontado logo de cara com previsão feita no Fórum Econômico Mundial, em Davos, sobre o fim do jornal-papel em 2013 _mais sombria que a do professor Philip Meyer, que enxerga o crepúsculo das edições forro de gaiola apenas em 2043.

“Duvido. Grandes jornais têm leitores fiéis que gostam de sentir a experiência de ler um jornal”, afirmou ele. E eu assino embaixo. Essa coisa catastrofista de “vai acabar” já deu errado três mídias atrás.

Agora, o Landman diz que o papel pode, sim, ir pro vinagre no dia em que “um substituto eletrônico combine a portabilidade e facilidade de leitura com conectividade e elementos multimídia” numa data em que ele não sabe precisar.

Portabilidade, facilidade de leitura, conectividade e multimídia são, todos, elementos já presentes na web atual. E um dispositivo como o papel eletrônico está em vias de ser produzido em grande escala.

Xiii, então o jornal impresso vai acabar?