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O Twitter, os robôs e a política

Levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV/DAPP) tenta quantificar uma ação que a cada dia ganha mais musculatura no Twitter: o uso de robôs para influenciar no debate político.

“O estudo tira do campo da hipótese a informação de que todos usam robôs – esquerda, direita e centro – para propagar suas ideias”, diz Marco Aurélio Ruediger, diretor da DAPP.

A constatação do estudo é de que pelo menos 20% das conversações na ferramenta são motivadas ou aquecidas por mensagens automáticas,  representando “uma ameaça real para o debate público, representando riscos, no limite, à democracia”.

A interferência de atualizações automatizadas esteve no cerne da disputa eleitoral de 2016 nos Estados Unidos – que culminou com a eleição do empresário Donald Trump.

 

 

Como usar a bolha do Facebook a seu favor

Muito já se falou (inclusive aqui) sobre a circulação de notícias falsas nas redes sociais e até que ponto elas podem ter beneficiado o republicano Donald Trump, enfim eleito presidente dos Estados Unidos. Agora vale a pena tentar entender um pouco também o lado do bem – que tipo de estratégia digital colaborou para o triunfo de Trump?

A mais importante delas é ultraóbvia: se o Facebook é uma bolha que faz com que seus conteúdos dificilmente atinjam grupos fora da turma de apoiadores, qual a melhor maneira de otimizar essa característica do que pensar na rede quase que exclusivamente como um canal para amealhar doações?

Pois foi isso que Brad Parscale, estrategista digital da campanha, imaginou. Usou os US$ 90 milhões dedicados por Trump para essa rubrica em busca de contribuições – e portanto usando o digital como ferramenta, não apenas como plataforma. Cerca de US$ 250 milhões chegaram à campanha por essa via.

“Ganhamos a eleição por causa do Facebook e do Twitter. O Twitter por Trump e o Facebook pelas doações”, disse Parscale à Wired, mencionando a incontinência verbal que o republicano demonstrou (e ainda demonstra) no microblog.

Além do uso do Facebook como um canal de publicidade, a estratégia explorou como nunca a incrível capacidade de personalização de anúncios dentro do site – algo ainda proibido nas campanhas eleitorais brasileiras.

Em média, relata Parscale, cerca de 50 mil variações diferentes de uma única peça foram testadas por dia – uso ou não de legendas, imagem estática ou vídeo, idade, gênero e localização do receptor, entre outras diferenças sutis. Os números são difíceis de acreditar até ele te contar que no dia do debate presidencial foram 175 mil possibilidades testadas com os mais variados públicos em anúncios dentro do Facebook.

Enquanto Hillary gastava mais de US$ 200 milhões em comerciais de TV na reta final da campanha, o laboratório de Parscale produzia milhares de opções de conteúdos que recebiam investimento variado no Facebook e toda sorte de configuração de entrega.

É uma história para onde devemos olhar se quisermos entender todos os meandros daquele que muitos consideraram como um resultado surpreendente.

A propósito: até mesmo na face visível do trabalho em mídia social, o engajamento, Trump deu de goleada.

Triunfo de Trump põe em xeque estratégia eleitoral de Hillary

O desfecho da eleição americana colocou em xeque uma estratégia do marketing político tão controversa quanto famosa por ter dado com os burros n’água em outras oportunidades: a campanha democrata torrou US$ 33 milhões (ou 68% de todo o custo da empreitada) em anúncios, na TV e na internet, que tinham como único objetivo desconstruir o republicano Donaldo Trump, enfim vencedor.

Na web, nada menos do que todas as dez peças mais compartilhadas pelos usuários partiram da campanha de Hillary Clinton, mas não falavam dela – ressaltavam desatinos verbais do adversário, convidando o receptor das mensagens a confrontar suas convicções morais (veja outros comerciais da eleição americana).

Os conteúdos (em outra decisão polêmica do ponto de vista comunicacional) muitas vezes foram conduzidos sem porta-voz, ou seja, era da boca da própria Hillary que partiam as críticas ao adversário. Enquanto o tiroteio corria frouxo, a agenda positiva foi deixada de lado – e o país ficou sem saber o que Hillary realmente podia fazer pela América.

Durante muito tempo acreditou-se, no Brasil e no mundo, que o caminho escolhido pela campanha democrata era fadado ao fracasso. Análises mais recentes (inclusive a de um pesquisador brasileiro) mostraram, porém, que quem bate não necessariamente perde. Desta vez, mais uma vez, perdeu.

Impossível não voltar a refletir sobre a eficácia deste surrado método e a conclusão, imediata, de que cada eleição tem uma história.

Jornalista bom é jornalista processado

Eu costumo dizer que jornalista que não tem um processo nas costas é simplesmente porque não foi notado. Não foi a “mosca na sopa”, como me dizia um colega de redação. Quando, no geral, os personagens do noticiário gostam de você, é sinal de que algo está errado com o seu trabalho.

Há a tentativa de reparação quando ocorre o erro crasso, é verdade. Essa não é boa ter nas costas.

Lembrei de tudo isso ao saber que Donald Trump, o homem que deu um emprego a Roberto Justus (seu imitador como apresentador de reality show no Brasil), foi aos tribunais contra o escritor Timothy L. O’Brien, que atesta que ele é, ao contrário do que apregoa, apenas um milionário.

Sim, Trump (que se denomina possuidor de US$ 5 bilhões) foi tratado como um reles detentor de “no máximo” US$ 250 milhões no livro-reportagem “Trump Nation: The Art of Being the Donald“, lançado em 2005. O’Brien teria descoberto, na biografia não autorizada, que o homem do topete inflava seu real patrimônio.

Hoje, quatro após o lançamento da obra, Trump confirmou a validade da queixa (houve uma espécie de reserva antes, para não perder o prazo _confesso que não entendi o meandro jurídico, me expliquem) dizendo ter sido prejudicado em seus negócios porque O’Brien o teria “desvalorizado” sem provas.

O magnata (milionário ou bilionário, tanto faz) garante ter perdido quatro negócios “intercontinentais” por causa das “difamações” contidas no livro. Aparentemente, não há provas dessa alegação.

Esse é um ótimo processo para se tomar nas costas (pondere aí o poderio do adversário, claro). Ainda mais após a crise econômica global, que fez fortunas enxugarem do dia para a noite. Trump está mais fraco e seus argumentos sempre parecerão mais pífios. E são.

E nessas, quem se notabiliza, é Tim O’Brien. Com um porém: ele precisa explicar de onde vieram os dados que tanto incomodaram Trump. No livro, eles são creditados a fontes que pediram anonimato.