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Estudo sobre jovens e web é pretexto para vender lições

Entra best-seller, sai best-seller, Don Tapscott continua a escrever para um público que ainda se surpreende com o que a internet fez por nós e também com tudo aquilo que podemos fazer com ela.

Foi assim em “Wikinomics”, talvez o maior sucesso do canadense, palestrante disputado e consultor na área de novas mídias -a obra chegou a 22 países.

É assim em “A Hora da Geração Digital – Como os Jovens Que Cresceram Utilizando a Internet Estão Mudando Tudo, das Empresas ao Governo”.

Originalmente lançado em 2008, o livro é desnecessário: é um pretexto para vender as ideias (e o negócio) de Tapscott, um persistente candidato a guru tecnológico que jamais abandona o tom de autoajuda em seus escritos.

Bem por isso, a obra se dedica a dar conselhos de toda sorte. De métodos para ter uma mente aguçada a dicas para gestores, empreendedores, pais e até governantes.

Desta vez, pelo menos, há trabalho duro por trás: o livro é resultado de uma pesquisa que custou US$ 4 milhões e ouviu mais de 10 mil jovens sobre seu comportamento na internet.

Claro, é tudo muito americano (defeito menos grave do que os quase dois anos que separam o levantamento da chegada ao público brasileiro, uma eternidade em se tratando da web).

Porém o canadense discorre, sempre com a segunda intenção de vender algum tipo de solução fácil (ele é dono da empresa que coordenou a pesquisa), sobre assuntos que outros autores já abordaram de forma definitiva.

REFERÊNCIAS
Como o engajamento político, por exemplo, dissecado em cada palmo pelo sociólogo espanhol Manuel Castells no brilhante tratado “Communication Power” (O Poder da Comunicação, Oxford University Press, 2009).

Ou a força da mobilização e da vigilância do público pela internet (e também a produção colaborativa de conteúdo), objeto de estudo de Clay Shirky, professor da Universidade de Nova York, no indispensável “Here Comes Everybody” (Aí Vem Todo Mundo, Penguin, 2008).

Assim como a inevitável convergência de mídias e produtos, uma necessidade dos tempos da conexão integral, que Henry Jenkins analisa com primor em “A Cultura da Convergência” (Aleph, 2008) -única das três obras citadas que possui tradução para o português.

O novo livro de Tapscott tem, no entanto, o mérito de tentar resumir todos esses assuntos, fundamentais para se compreenderem as mudanças pelas quais o mundo está passando.

Analisar esse contexto de transformação tendo como ponto de partida a geração que já nasceu digital acaba sendo, de fato, uma boa ideia. Mas sem pensar em usá-la para ensinar lições de como proceder diante da avalanche da tecnologia.