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Não, o e-mail não morreu

Não, o e-mail não morreu. E as eleições americanas deram outra demonstração disso.

Foi desta maneira que a campanha de Barack Obama conseguiu arrecadar a maior parte dos US$ 690 milhões que o atual presidente dos EUA amealhou na internet.

Comandada por Toby Fallsgraf, a campanha tinha 20 redatores debruçados na tarefa de “fisgar” potenciais doadores por meio de textos que, inicialmente, lhe chamassem a atenção.

Antes disso, testavam os subjects com uma amostragem de seu mailing. E, claro, sempre erravam – é assim a vida on-line – sobre quais teriam mais retorno.

A propósito, o subject campeão de reações (leia-se doações) foi “Eles [os republicanos] vão arrecadar mais”.

Wikileaks passa o chapéu outra vez

O Wikileaks anunciou que novos vazamentos de informações estão suspensos porque o projeto precisa se viabilizar financeiramente.

Só não disse como vai conseguir doações se os principais distribuidores de dinheiro via internet (Visa, Mastercard, Western Union e Paypal) bloquearam as contas do site _muito provavelmente por pressão do governo dos Estados Unidos.

ATUALIZAÇÃO: Na caixa de comentários, saiba como doar ao projeto.

Pague para ser um repórter

Considerado a principal trincheira do jornalismo cidadão (eu adoro esse clichê), o site coreano Ohmynews _que só em 2009 já acumula prejuízo de US$ 400 mil (ou cerca de R$ 800 mil)_ agora aposta em doações para sobreviver.

É o próprio fundador e “presidente” da iniciativa, Oh Yeon-ho, quem relata o conto em carta postada na página. A doação é algo muito americano, pouco europeu, nada brasileiro (asiático, confesso, não sei).

Ele recorre a um discurso de “independência” e sugere que 100 mil leitores, doando cerca de US$ 8 mensais, poderiam manter o projeto de pé e, principalmente, menos dependente de publicidade. Pergunto-me, neste caso, se o produtor do conteúdo não é, em boa medida, seu leitor. Logo: pagar para trabalhar?

“Hoje”, diz Oh, “mais de 70% de nosso faturamento vem de publicidade”.

Eu torço o nariz quando o papo vai por aí. Porque toda a mídia formal amealha isso ou mais em anúncios. Porque os leitores, no máximo, pagam a assinatura ou a compra eventual em banca (e isso nunca garantiu a sobrevivência de ninguém).

Ao mesmo tempo, ser bancado por publicidade não pode ser motivo de alegação de falta de independência. Faz parte do jogo.

Sabem como é, o galo que canta primeiro tem culpa no cartório.

Aposto que a Ana Brambilla, especialista em Ohmynews, vai falar sobre o tema em breve.

Clóvis Rossi e Eugênio Bucci debatem o jornalismo

A convite da CBN, Clóvis Rossi e Eugênio Bucci debateram os destinos do jornal impresso (e, consequentemente, do jornalismo) no programa Notícia em Foco, que vai ao ar sempre às segundas, às 19h.

O tema foi a sustentabilidade do negócio jornal.

Bucci imagina um mundo em que as empresas jornalísticas serão sustentadas “pelo menos em parte” por seus leitores. Motivo: manter a independência do veículo (quer dizer então que até hoje ela nunca existiu de fato?). Rossi diz que uma mudança desse tipo levaria mais tempo do que os anos que ainda têm a viver _ele tem 66.

O tema nada mais é do que um desdobramento do micropagamento, a bobagem lançada nos últimos meses como um último apelo pela grande imprensa _especialmente a dos EUA e Europa, esta sim verdadeiramente ameaçada de extinção. Mais do que o micropagamento, a doação (ainda inviável, por questão cultural e burocrática, no Brasil).

Sobre a produção jornalística colaborativa on-line, o colunista e repórter especial da Folha de s.Paulo deu um exemplo bizarro. “Se um blog me recomendasse, digamos que no dia 14 de setembro do ano passado, que eu investisse em ações do Lehman Brothers, quem eu iria processar?” (a falência do Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008, é apontada como um dos estopins da crise financeira global).

Não entendi, porque eu tampouco teria respaldo jurídico para processar um jornalão que fizesse o mesmo.

Ou teria?

Bucci, professor de Jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo e com um vasta experiência no mainstream como jornalista, bateu muito na tecla do financiamento público do jornalismo _pelo público, não pelo poder público.

Falou-se também do polêmico blog Fatos e Dados, com a qual a Petrobras decidiu vazar conteúdo de reportagens ainda em andamento. Seu pleno direito, diga-se de passagem. A argumentação, por sinal, é excelente.

Até o microblog, quem diria, foi parar na conversa. “O meu papel não é gritar que caiu um avião. É dizer porque caiu o avião”, encerrou Rossi. “Contando calmamente, no ouvido do leitor”.

A falsa mobilização da ex-plateia

O falso anúncio dos leitores no NYT

O falso anúncio dos leitores no NYT

O engajamento da audiência (ou melhor, da ex-plateia) definitivamente mudou o fazer jornalístico. Não só mudou como, em alguns casos, o influenciou diretamente, criando ruídos contestatórios e evidenciando que seu poder não é mais o mesmo.

Só que muitas vezes essa audiência serve a interesses, inclusive de governos que, nas sombras, agem bancando seus devaneios.

A ONG “For the Next Generation” voltou a fazer barulho ontem, ao publicar no New York Times um anúncio que repara um mapa publicado pelo jornal _a questão é toda política e envolve o nome de um quase golfo entre as Coreias, China e Rússia, além do país que lhe dá o nome mais usado.

O NYT escreveu Mar do Japão, o ONG briga pelo uso de Mar do Leste. Daí a provocação.

Não foi uma novidade: em 2005, a entidade publicou anúncio semelhante no The Wall Street Journal. É seu modus operandi.

No caso mais recente, ela diz que foram 94.966 doadores que bancaram o anúncio, cujo valor não foi revelado (mas gira em torno de US$ 60 mil), quase todos coreanos.

Aqui se trata de massa de manobra, não de uma manifestação espontânea da ex-plateia. Apenas para que os registros de uma conduta induzida e politizada não sejam confundidos com a legítima participação do público no jornalismo formal.

Leitores se mobilizam para salvar seus jornalistas

Leitores abraçaram a causa dos jornalistas do Rocky Mountain News

Leitores abraçaram a causa dos jornalistas do Rocky Mountain News

ATUALIZAÇÃO: Acaba de rolar a coletiva do povo do Rocky Mountain News. Com o apoio de três empresários, 30 ex-funcionários do extinto jornal tocarão um site noticioso on-line, o Indenvertimes.com. O modelo escolhido, porém, sugere um novo fracasso: o conteúdo será fechado e espera-se que, até abril, o produto consiga reunir 50 mil assinantes para ser ampliado. É muito otimismo.

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Hoje, a partir das 14h (horário de Brasília), vamos conhecer o destino de parte da redação do Rocky Mountain News, jornal de quase 150 anos que encerrou suas atividades (em papel e on-line) definitivamente há três semanas com uma emotiva última edição que teve cobertura ao vivo no microblog e virou um documentário no melhor estilo chora-leitor.

Até onde se sabe, um grupo expressivo de leitores influentes (entre os quais há políticos, empresários e o próprio xerife de Denver) encabeça o projeto “Quero meu Rocky“, que convocou entrevista coletiva para anunciar “uma nova visão baseada em 150 anos de tradição”, como propaga seu slogan. Traduzindo: o reaproveitamento de parte da equipe do RMN, mas agora apenas em ambiente digital.

É mais uma movimentação de leitores que se mobilizam para manter vivo, de alguma forma _via de regra apenas na internet_ seu jornal favorito, despedaçado pela incapacidade administrativa de compreensão ao ambiente tecnológico e à transformação pela qual passou o modelo de negócios ultrapassadíssimo do jornalismo impresso.

Isto é jornalismo financiado, cujas experiências estão pipocando mundo afora.

Simultaneamente, no My Space, começou a fazer barulho uma comunidade portuguesa que propõe às pessoas a compra de um jornal por dia como forma de amenizar as perdas (de faturamento e leitores) que este tipo de produto experimenta especialmente no hemisfério Norte _entre nós e todos os emergentes, se as coisas não andam às mil maravilhas, ainda estão longe de se transformar em colapsos de corporações com dezenas de décadas de existência.

No manifesto assinado por Afonso Pimenta, o Movimento a Favor da Imprensa Escrita Paga destaca aspectos como “O jornalismo escrito, enquanto produto, não pode ser encarado exclusivamente como tal: ele é aquilo que me alerta para o que eu não sou. O único veículo que possuo para estar atento relativamente ao que é exterior à minha diminuta capacidade de alcance e atenção: o poder.”

Público banca mais uma experiência no jornalismo

Começou mais uma experiência de jornalismo financiado pelo leitorado nos Estados Unidos (as outras, que você já conhece, são o Spot.Us e o Jornalismo Representativo).

Jornalistas demitidos de impressos que fecharam as portas ou estão moribundos no Arizona criaram seus próprios veículos on-line para tocar a vida. E o Heat City trabalha com o conceito de microdoações para fazer pautas pinçadas entre sugestões do público _exatamente como funciona o Spot.us.

Vamos acompanhar e ver no que dá. Uma coisa é certa: a cultura da doação é americana. Não cola no resto do mundo.

Por uma imprensa sustentável

Dois textos debatem hoje o assunto do momento: a sustentabilidade da indústria jornalística.

Na Salon, Gary Kamiya dá números do desastre ( o prejuízo dos jornais americanos foi o maior da história em 2008 ) mas lembra que, na era da publicação pessoal, as notícias estão circulando como nunca.

O problema, com o fim da imprensa “formal”, é que imediatamente a blogosfera e o jornalismo no ciberespaço acabariam _ou eles não reproduzem e vivem a reboque dos veículos tradicionais?

No Huffington Post, Jack Myers é mais auspicioso: ele oferece a possibilidade de doar dinheiro para publicações que estejam, de alguma forma, trabalhando e compartilhando boas idéias e modelos de negócios que ajudem a perpetuar o negócio.

Afinal, a crise não é exatamente dos jornais, mas do jornalismo. E, sem ele, a democracia perde um pilar importante.

Mais propostas para salvar o jornalismo impresso

Cresce o movimento, especialmente nos Estados Unidos (onde o jornal está pela hora da morte), por uma mudança radical no modelo de negócios para tentar a salvar a indústria. É sinal de que chegou-se ao fundo do poço.

 Agora é a vez da prestigiosa Time (ela também com a circulação a despencar a olhos vistos) sugerir uma política de micropagamentos por conteúdo premium, o que não é exatamente uma ideia original, mas pouco colocada em prática.

Enquanto isso, engatinham _e com experiências quase marginais_ os testes de jornalismo financiado nos EUA. Ao mesmo tempo, já há quem resista na rede (e não em papel, que tem um custo exponencialmente superior) com base em doações de seus usuários.

A conversa desemboca naturalmente na transformação das empresas jornalísticas em entidades sem fins lucrativos, o que as capacitaria a receber verbas governamentais e doações de instituições como fundações _exatamente como funcionam as universidades na América.

Esse debate vai longe. E esbarra