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A web, a conversação e a parede de banheiro

“Aquilo que antigamente as pessoas escreviam numa parede de banheiro hoje pode ser visto por milhões”, afirma a advogada Sandra Baron, diretora-executiva do Centro de Estudos de Direitos da Mídia, de Nova York.

A frase sintetiza o que está acontecendo agora nos Estados Unidos e, como sempre, deve se espalhar pelo mundo: pessoas estão sendo processadas por calúnia, invasão de privacidade e violação de direitos autorais pelo que publicam na internet _seja nos comentários de um blog, num fórum, num chat, no microblog…

Reportagem do The Wall Street Journal (que aliás erra no título e restringe o problema legal aos “blogueiros”, esse termo detestável) mostra que o número de processos civis motivados por declarações postadas na web saltou de 12, em 2003, para 106 quatro anos depois (é o dado disponível mais recente).

Essa metáfora da parede de banheiro é muito boa. E se aplica também ao jornalismo, profissional ou amador.

Curioso que, nos EUA, alguns dos processados alegam estarem cumprindo tarefas jornalísticas para serem julgados por uma lei específica.

No Brasil, nem essa chance há mais: a queda da Lei de Imprensa aumentou sensivelmente o risco de a gente ser condenado por calúnia, injúria e difamação.

Jornalista bom é jornalista processado

Eu costumo dizer que jornalista que não tem um processo nas costas é simplesmente porque não foi notado. Não foi a “mosca na sopa”, como me dizia um colega de redação. Quando, no geral, os personagens do noticiário gostam de você, é sinal de que algo está errado com o seu trabalho.

Há a tentativa de reparação quando ocorre o erro crasso, é verdade. Essa não é boa ter nas costas.

Lembrei de tudo isso ao saber que Donald Trump, o homem que deu um emprego a Roberto Justus (seu imitador como apresentador de reality show no Brasil), foi aos tribunais contra o escritor Timothy L. O’Brien, que atesta que ele é, ao contrário do que apregoa, apenas um milionário.

Sim, Trump (que se denomina possuidor de US$ 5 bilhões) foi tratado como um reles detentor de “no máximo” US$ 250 milhões no livro-reportagem “Trump Nation: The Art of Being the Donald“, lançado em 2005. O’Brien teria descoberto, na biografia não autorizada, que o homem do topete inflava seu real patrimônio.

Hoje, quatro após o lançamento da obra, Trump confirmou a validade da queixa (houve uma espécie de reserva antes, para não perder o prazo _confesso que não entendi o meandro jurídico, me expliquem) dizendo ter sido prejudicado em seus negócios porque O’Brien o teria “desvalorizado” sem provas.

O magnata (milionário ou bilionário, tanto faz) garante ter perdido quatro negócios “intercontinentais” por causa das “difamações” contidas no livro. Aparentemente, não há provas dessa alegação.

Esse é um ótimo processo para se tomar nas costas (pondere aí o poderio do adversário, claro). Ainda mais após a crise econômica global, que fez fortunas enxugarem do dia para a noite. Trump está mais fraco e seus argumentos sempre parecerão mais pífios. E são.

E nessas, quem se notabiliza, é Tim O’Brien. Com um porém: ele precisa explicar de onde vieram os dados que tanto incomodaram Trump. No livro, eles são creditados a fontes que pediram anonimato.