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Design de notícias e o declínio do jornalismo impresso

O veterano jornalista Alan Mutter (que se autointitula newsosaur _na minha tradução, “noticiossauro”) faz uma observação interessante: em 1995, a Society of News Design destacava 12 jornais americanos entre os melhor diagramados e com visual eficiente no mundo. Em 2010, não havia mais nenhum.

Mais: desde 2000, só três publicações impressas norte-americanas ganharam o prêmio principal da entidade que reconhece a excelência no design de notícias e no jornalismo visual _porque não dizer, também na usabilidade, que não é um conceito restrito a produtos on-line (facilitar a tarefa do leitor é um problema de todos nós, em rede ou off-line).

E daí? E daí que “um bom design é mais do que um simples doce para o leitor”, diz Mutter. Ele aponta essa crise (mais uma) na indústria do impresso como outro motivo para o declínio alarmante das circulações no hemisfério Norte.

O bom design é bom para o leitor e para os negócios, finaliza Mutter, que posta uma interessante palestra do designer Jacek Utko, um dos paladinos da ideia de que arquitetura da informação e desenho de notícias podem, efetivamente, colaborar com a modernização (e perpetuação) do produto impresso.

Em tempo: Mutter é o autor da “regra dos 30%”, uma das constatações mais interessantes sobre papel e on-line e que relaciona o declínio das circulações ao momento em que o acesso à banda larga residencial chega a 30% da população de um país. Não foi desmentida até agora, com exceção do Japão, que é exceção para tudo.

As mil capas do Babelia, sinônimo de suplemento cultural

Babelia, o suplemento cultural do jornal espanhol El Pais, completou mil edições (e quase dez anos) e disponibilizou esse exuberante acervo de capas.

É um cadernão clássico de cultura que, por anos, seguiu um princípio de diagramação da primeira página na verdade presente até hoje na publicação.

Para consultar e usar como referência.

Agruras da diagramação e da falta de acabamento decretam que entrevistado é sem noção

Olha quão importante é, no jornalismo impresso, o acabamento da edição (também o é no on-line, mas é que o papel não permite correção): fui tratado como “sem noção” em entrevista que dei recentemente, como você vê acima.

O projeto gráfico do Diário do Norte do Paraná, de Maringá, me foi cruel: o box em que apareço como entrevistado de um miniping tem um título e uma seta que não deixa dúvida. Leva diretamente ao meu nome. Eu sou sem noção.

Não creio ser uma decisão editorial, já que também ofereço declarações para o abre.

Sempre digo que não é fácil fazer jornalismo em papel…

Um guia de design para novatos _mas que experts podem garimpar coisas valiosas

Páginas e mais páginas com dicas no estilo “faça” e “não faça”, comparativas. É o The Wall Street Journal Guide to Information Graphics, livro bacana _mas que pode parecer repetitivo pra quem já conhece muito o riscado: há coisas valiosas, mas tem de garimpá-las.

A obra não traz gráficos do jornalão, mas é assinada por Dona M. Wong, ex-editora de Arte da publicação. Tem tanto texto quanto exemplos gráficos e, em resumo, mostra problemas (e soluções) em infografias que vemos publicadas todos os dias em qualquer jornal.

Como tudo que realmente é útil em design, o livro é uma espécie de guia do bom-senso. Para experts e garimpeiros.

A capa certa na banca de jornal errada

design_revista

Foi a sempre ligada Renata Steffen quem achou essa: você pode desenhar a melhor capa do mundo, mas ser derrubado pela exposição da sua revista em banca.

No caso, a capa da PC World remete explicitamente para… a concorrente MacWorld.

Claro que a vibração da Renata tem a ver com o fato da manchete de uma dizer “claramente” que upgrade de verdade é ter um Mac…

O jornal sem manchete

A primeira página do jornal Folha de S.Paulo em 26.12.2008

A primeira página do jornal Folha de S.Paulo em 26.12.2008

A diagramação de um jornal diário tem alguns segredos que muitas vezes passam despercebidos. Por exemplo: uma matéria que tenha um título em seis colunas abrindo uma página significa que ela tem importância não apenas para ocupar o alto de uma página, mas também toda a colunagem padrão do jornal.

Ou seja: um abre em seis colunas não é a mesma coisa que um abre em duas, ou três, ou ainda quatro. Esse é um dos erros mais flagrantes no que diz respeito ao design de notícias nas publicações brasileiras. Em geral, desenha-se a esmo, sem levar em consideração a relevância do assunto publicado.

O que dizer de uma primeira página sem manchete? A Folha de S.Paulo repetiu a fórmula (já usada no Carnaval) nesta sexta-feira (capa acima). Repare: cadê o titulão forte? A grande foto está, nada espetacular, mas está. E a manchete?

É uma boa demonstração de uso adequado do design de notícias. Leitor, é dia 26 de dezembro e não temos, nesta edição, nada que justifique um desenho que apresente uma notícia em formato de manchete. Elas (as notícias) aparecem apenas lateralmente, numa mísera coluna _é possível dizer que, dentro dessa hierarquia, a chamada “Teles planejam investir R$ 19 bi em celulares no próximo ano” foi a escolhida pelos editores da capa do jornal como a mais importante do dia.

Por sinal, a matéria é uma conseqüência (ainda com trema, até o dia 31) daquele nosso papo sobre as facilidades que as operadoras de telefonia móvel oferecem pra gente.

Voltando à vaca fria: a diagramação de um jornal tem de refletir seu conteúdo. Não há fôrma nem fórmula pronta. A opção pela supressão da manchete é, sem dúvida, o movimento mais ousado de todos.

Enquanto o jornal impresso não acaba…

A apocalíptica previsão do professor Philip Meyer de que a última edição de um jornal impresso irá às ruas no primeiro trimestre de 2043 fica martelando na cabeça daqueles que, como eu, têm bastante tinta correndo nas veias.

Meyer é um cara que entende das coisas (seu livro, traduzido no Brasil para “Os Jornais podem desaparecer?“, deixa isso claro), mas este tipo de previsão costuma ser chute tipo o pênalti do Baggio na final da Copa de 94. No caso de Meyer, hoje aos 78 anos, é até confortável, porque ele não estará aqui para ver.

O declínio do jornal imprenso, porém, é flagrante. Desde 1984 ele vem perdendo leitores e vê dizimado seu poder de angariar anunciantes.

Por isso que trabalhos como os mostrados agora no blog espanhol La Buena Prensa são bacanas. Ali, valorizam-se soluções espertas de diagramação, a grande companheira do conteúdo, da clareza e do leitor, claro.

Uma página como a abaixo mostra que tem coisas que só o jornalismo impresso pode fazer por você.

 

Página especial do El Correo

A diagramação da web na sua língua

Falamos tanto de usabilidade outro dia, e hoje descubro pelo utilíssimo Blog do Gjol (do pessoal de jornalismo da Federal da Bahia) que já tem site brasileiro falando só sobre o assunto.

Para quem reclamou que as pesquisas de Jakob Nielsen são todas em inglês, eis uma chance (quem sabe?). Mas aquele velho bordão persiste: o mundo é inglês, e normalmente sem legendas.

A usabilidade às vezes é chata, às vezes é muito técnica, é bastante teórica… Mas acredite: tem tudo a ver com edição. A usabilidade é a diagramação da web. Saber mais um pouco sobre isso não arranca pedaço, não… E tem mais, ajuda o jornalista a se livrar das cascatas do webmaster/designer.