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Fake news e jornalismo colaborativo

De repente, o mundo descobriu que estamos todos em perigo de extinção por causa da disseminação de notícias falsas – apenas mais um dos efeitos colaterais do avanço tecnológico e da possibilidade de qualquer pessoa ser um publicador. Nossos filhos correm sério risco de vida e a própria democracia, como a conhecemos, será destruída.

Quer dizer então que nunca houve distribuição de informações inverídicas até o advento das redes sociais?

Faz-me rir. Isso aconteceu desde sempre, dos rabiscos nas cavernas à oralidade, chegando à imprensa propriamente dita (ofício aliás criado para defender interesses muitas vezes com base em argumentos tortuosos e pouco afeitos à verdade).

Seres humanos mentem o tempo todo, distorcendo a realidade de acordo com seuus interesses. No caso específico das fake news de nosso tempo, o chequinho em dólares por clique pago pelo Google basta – mas é óbvio que a manipulação pode atender a propósitos bem menos paroquiais e patrimonialistas. Como ocorreu desde sempre.

A notabilização desse furo no modelo ‘as notícias são para todos’, que provocou furor entre acadêmicos (entre eles, esse que vos fala) e popularizou o conceito de jornalismo colaborativo que Dan Gillmor e Jay Rosen tão bem descreveram há mais de dez anos, não significa que o jornalismo das pessoas está em xeque.

As noticias falsas surgiram muito antes, no âmbito do dito jornalismo profissional. Não é preciso percorrer muitos quilômetros, aliás, para encontrar expoentes dessa vertente em qualquer canto. O tal jornalismo profissional é bonito, mas infelizmente é para poucos.

A utopia do jornalismo colaborativo não se encerra com a epidemia de falsidades distribuídas via novas plataformas. Os seres humanos continuam tendo o direito de relatar/analisar/comentar/distribuir fatos, sejam jornalistas de ofício ou não. A questão é que estes, e já faz tempo, podem ter muito mais alcance do que os players do mercado – justamente os mesmos que, em seu momento, compartilharam suas próprias inverdades.

Aí mora uma outra questão interessante deste debate. Voltarei a ela.

Crowdsourcing e jornalismo de raiz em debate

Dan Gillmor aparece, num post de blog do Guardian, defendendo o crowdsourcing _outra novidade do jornalismo nos tempos da alta tecnologia.Para quem sabe, Gillmor é uma espécie de pai do “jornalismo de raiz”, ou seja, aquele que independe do jornalista profissional para acontecer.

O ponto do texto era debater dois aspectos do trabalho produzido pela ex-plateia, hoje também protagonista do processo de apuração/relato (e análise)/difusão de notícias: credibilidade do material e envolvimento do público DURANTE a confecção de uma reportagem, não depois, para que ele apenas bata palmas

“O mosaico será sempre verdadeiro, ainda que alguns pixels sejam falsos”, diz que Gillmor, que em 2004 preconizou o fenômeno do “uma imprensa para cada um” no livro “We, the Media“. Ele se refere, por exemplo, às inevitáveis fotos falsas que circulam durante episódios de grande comoção, como o terremoto do Haiti.

Paul Lewis, repórter do Guardian que envolve inteligentemente seus leitores em todas as suas matérias (conseguindo com isso dicas, ajuda e pistas importantes para incrementar suas reportagens), fala sobre o segundo ponto. Ele é um dos que ajudam a acabar com essa baboseira, que circula nas redações, que recorrer ao crowdsourcing é entregar o ouro para o bandido, ou seja, a concorrência.

“Pensa bem: quem é a concorrência? Você tem mais a ganhar do que a perder [recorrendo ao público e compartilhando informação com ele]”, diz. O custo para isso, porém, é bastante alto. É por isso que dá pena ver jornalistas profissionais adentrarem determinadas comunidades que jamais frequentaram, disparando perguntas que ajudem a resolver um problema (dele), normalmente a incapacidade em localizar possíveis entrevistados.

Isso é tão frequente como desastroso. O crowdsourcing terá mais qualidade e credibilidade em razão diretamente proporcional à maneira como o jornalista constrói sua rede de relacionamentos on-line.

É preciso trabalhar duro para ter uma comunidade de verdade e dedicada: oferecer bons serviços a ela, escutá-la, fazer reportagens que atendam seus interesses e provar que se está aberto à conversação é o mínimo. Sair pedindo ajuda a ilustres deconhecidos, em geral, só faz água.

É nesse ambiente que surge a boa colaboração entre público e jornalista.

Amador, jornalista cidadão está na mira do Fisco

O jornalista cidadão (aquela testemunha ocular que, por estar no lugar certo e na hora certa, registra alguma notícia relevante) terá de pagar imposto nos Estados Unidos. O entendimento é do Internal Revenue Service, a Receita Federal deles.

Justo o cidadão repórter, que normalmente não recebe nada ou muito pouco por sua colaboração.

Há uma controvérsia na decisão: juristas entendem que quem deveria pagar a taxa _prevista a partir do montante de US$ 12 mil_ são as empresas noticiosas que se beneficiam do conteúdo produzido pelo usuário.

Dan Gillmor, um dos pioneiros a detectar a incrível revolução que a era da publicação pessoal trouxe ao jornalismo tradicional, acha que a taxação pode representar um significativo atraso na evolução do fenômeno.

Agora, uma pitada: se há algum jornalista cidadão que ganhou mais de US$ 12 mil num ano com colaborações, sempre mal pagas e desconsideradas, ele é uma exceção. Talvez tenha conseguido o valor numa única tacada, ao flagar a enésima vez que Britney Spears mostrou a calcinha (ou a ausência dela).

Colaboração ganha revista digital

Num ano em que pelo menos três livros importantes abordaram o assunto (os autores, Charlie Leadbeater, Clay Shirky e Jeff Howe), a colaboração na Web ganha agora também uma revista digital, a We. E consolida-se como “o tema” a ser tratado nos próximos meses.

O assunto da publicação é o mesmo em que as três obras giram em torno: o poder mobilizador que as novas tecnologias deram ao cidadão comum, e o que pode acontecer daqui para frente.

Aplicado ao jornalismo, o “crowdsourcing” tem todas as condições de mudar radicalmente o exercício da profissão. Por ora, temos apenas espasmos aqui e ali _e nada no Brasil, claro. Aqui tudo chega depois.

No primeiro número da We, cujo manifesto de apresentação embarca em conceitos surrados como “inteligência coletiva”, destaca-se uma entrevista (em vídeo) de Dan Gillmor, que ajudou a conceituar o jornalismo cidadão com o livro-referência “We the midia”.

O detalhe: na vida off-line, Gillmor colecionou fracassos e não conseguiu levar adiante nenhuma proposta de jornalimo colaborativo que iniciou _foram algumas. Como pensador, como prova a entrevista, segue na ponta dos cascos.

A We é uma dica do solerte Luis Orihuela e de seu e-Cuaderno.

A morte lenta de um jornal

A edição é sacana _mas a motivação, nobre: o diagramador Martin Gee saiu fotografando a redação do San Jose Mercury News após o fechamento, o que aumenta ainda mais a sensação de terra arrasada.

Digo aumenta porque o jornal tem cortado sistematicamente empregos. No mês passado, o passaralho mandou 50 jornalistas para o olho da rua (mas proporcionou imagens belíssimas, como a da sala, hoje vazia, da ex-editora de Negócios Rebecca Salner).

Veja o ensaio completo de Gee. Completo não porque, como ele próprio diz, “mais demissões e fotos virão”.

Em tempo: o Mercury News é o jornal que abrigou como colunista de tecnologia, por 12 anos, Dan Gillmor, o homem que teorizou o avanço da ex-audiência e o jornalismo participativo _tudo bem, um ano depois de Chris Willis e Shayne Bowman, que não ficaram famosos…

 

Nós nunca seremos a mídia?

Mais uma experiência de jornalismo cidadão está fazendo água. Agora é o canadense Nowpublic que, três anos e US$ 10 milhões investidos depois, se depara com uma encruzilhada: seus colaboradores são muitos passivos, e a maioria dos textos basicamente reproduzem matérias publicadas pelo mainstream.

É o que eu comentei outro dia sobre o Ohmynews, trincheira da colaboração na qual até relato de jogo de futebol com ficha técnica (algo nada original e que ainda por cima concorre com a grande mídia) é publicado.

Outro dia foi o Assigment Zero quem encerrou suas atividades, após anunciar uma revolução no jornalismo colaborativo. Depois, alguns de seus maiores entusiastas analisaram que a experiência “foi boa enquanto durou“.

Some-se a isso os fracassos consecutivos de Dan Gillmor, considerado o cara que melhor definiu a nova ordem na mídia mundial com seu livro “We the Media“, de 2004 _apesar de Chris Willis e Shayne Bowman (com prefácio de Gillmor!!!) terem detectado exatamente o mesmo movimento um ano antes na obra “We Media“.

Os projetos participativos sob o comando de Gillmor foram todos um fiasco, a ponto de gente colocar em dúvida essa coisa de “nós, a mídia“. Hoje, Gillmor bate ponto no Center for Citizen Media, que ainda não disse exatamente ao que veio.

Ainda acho que falta, aos projetos de jornalismo colaborativo, pautar os colaboradores, roteirizar o trabalho deles.

No jornalismo participativo isso é menos premente _manda quem quer e o que quer, e publica quem tem juízo.

Pior ainda é o ambiente sem moderação jornalística, ou coexistência pro-am. Nele, ainda impera um quê de vale-tudo, como evidenciam os sites que trabalham com a plataforma wiki e são gerenciados pelos próprios usuários.

O caminho para que nós sejamos, definitivamente, a mídia ainda é longo e mal foi percorrido…