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Fora de pacote de desonerações do governo Dilma, indústria jornalística é incluída aos 45 do segundo tempo

Num primeiro momento, a presidente Dilma Rousseff deixou as empresas jornalísticas de fora da desoneração da folha de pagamento, que reduzirá de 20% da folha de pagamento para até 1% do faturamento a contribuição ao INSS para 15 setores, teoricamente incrementando sua capacidade de investimento.

Na sexta-feira, ampliou as benesses da medida para outros 14 setores, entre eles a indústria jornalística – para os retardatários, porém, só a partir do ano que vem.

A justificativa oficial para o veto inicial menciona que a indústria jornalística (assim como outros 18 setores então barrados) não apresentou “as estimativas de impacto e as devidas compensações financeiras”.

Na prática, isso significa que o governo duvida da potencial das companhias jornalísticas em fazer novos investimentos.

Como já tratamos aqui, a presidente conhece bastante bem a realidade desse mercado. A ajuda, nesse caso, poderá vir de outra forma.

E agora, Buffet?

Depois de comprar 28 jornais nos últimos 15 meses nos Estados Unidos, o multimilionário Warren Buffet, em carta aos acionistas de sua empresa, diz que continuará a fazê-lo mesmo admitindo que “a circulação, faturamento publicitário e lucro do setor jornalístico como um todo estão destinados a cair”.

À parte o romântico “eu amo jornais” no texto, Buffet apresenta os reais motivos de seu investimento: a aposta na mídia regional, o bom e velho conceito hiperlocal que, dizemos há anos, parece ser de fato a saída mais interessante para um produto que perdeu a primazia de ser o arauto do noticiário.

“Se você deseja saber o que está acontecendo em sua cidade – notícias sobre o prefeito, impostos locais ou o resultado do time de futebol americano da escola secundária -, não há substituto para um jornal local que esteja fazendo bem o seu trabalho. Um leitor pode facilmente se entediar depois de ler dois parágrafos sobre as tarifas canadenses ou os desdobramentos políticos no Paquistão, mas uma reportagem que fale sobre ele e seus vizinhos será lida até o fim”, pontua a carta.

Porém Buffet não menciona um aspecto crucial (e óbvio) para se fazer “bem o seu trabalho” em jornalismo hiperlocal: é preciso jornalistas. Não há agências de notícias ou sites na internet cobrindo o time de várzea de seu bairro e oferecendo material pronto para republicação a respeito da quitanda da esquina.

Portanto, diferentemente do mau jornalismo de caráter nacional (onde cabeças são cortadas impiedosamente, e as redações se desidratam dia após dia), para apostar no hiperlocal é preciso contratar repórteres e editores.

Buffet irá na contramão do mercado?

 

O furo de Argo

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Pelo menos um “outsider” sabia desde o início do drama de seis diplomatas americanos que, por estarem num prédio anexo ao da embaixada em Teerã, conseguiram escapar do cerco e invasão da representação por estudantes iranianos, em 4 de novembro de 1979, e se abrigar na casa do principal diplomata canadense no país.

A história, colateral ao dramático sítio e consequente sequestro e cárcere de 52 pessoas e 444 dias, é retratada no filme Argo, ganhador do Oscar 2013.

O jornalista Jean Pelletier, então correspondente do periódico La Presse em Washington, soube já no dia seguinte que o embaixador Ken Taylor havia abrigado os cidadãos dos EUA.

Teve de segurar a informação por quase três meses – o furaço só foi publicado em 29 de janeiro de 1980, um dia depois que os seis, camuflados como canadenses, chegaram em segurança em casa graças ao trabalho de dois agentes da CIA (sim, Tony Mendez/Benn Affleck não agiu sozinho e tinha um parceiro) e especialmente de Taylor, que se magoou ao ser mostrado no filme quase como um figurante.

O detalhe é que Pelletier, por motivos óbvios, tinha a informação básica, mas não a mais saborosa: o filme falso que permitiu a entrada dos agentes no Irã como supostos produtores cinematográficos. Essa história só acabou sendo contada muito tempo depois.

Um Proer da mídia?

Na sexta-feira, revelei aqui que o governo brasileiro tem procurado a indústria editorial extremamente preocupado com a saúde financeira do setor – e que, na outra mão, empresas importantes “em estado pré-falimentar” (segundo emissário do próprio governo) acenaram pedindo socorro.

Num momento em que (ainda) se discute o controle social da mídia, bandeira do partido que governa o país há uma década, imaginar que o governo, e não a sociedade, ponha a mão no bolso para garantir a atividade jornalística não deixa de ser um paradoxo.

O Brasil já usou dinheiro público (e muito, quase R$ 38 bilhões em valores da época) para capitalizar mais de 70 instituições financeiras nos anos FHC, no programa que ficou mais conhecido pela sigla, Proer.

O BNDES (de onde sairia o eventual crédito agora) esteve metido no complicado processo de negociação da dívida que quase levou NET, Globo.com e Editora Globo à falência no início da década.

A grita foi grande, mas o banco público fez mais do que emprestar dinheiro à holding da família Marinho: tornou-se sócio de uma das empresas, o que se mostrou, anos depois, um péssimo negócio. A Editora Abril, para se livrar com vida da aventura da TVA, também foi assídua frequentadora dos corredores do banco.

Naquele momento, a mídia nacional já havia cortado 17 mil empregos e acumulava dívidas de R$ 10 bilhões. Consequência da farra do dólar e a desvalorização do real, que transformou compromissos contraídos na moeda americana em contas impossíveis de se pagar.

O debate de 2004 – ir ou não ir ao BNDES – pode estar se repetindo nove anos depois, e sem a desculpa do câmbio. O que é, certamente, muito mais grave.

Imperícia jornalística alimenta corporativismo

Uma “reportagem” da revista feminina popular Viva Mais está provocando algum barulho em redes sociais por esses dias.

Em resumo, o texto incentiva as leitoras a se transformarem em fotógrafas “em um dia”, amealhando um salário inicial que pode chegar a R$ 4 mil.

Uma fonte mencionada na matéria foi à web para manifestar seu repúdio à forma como suas informações foram utilizadas pela revista. Bravo.

Porém, erra a mão ao acusar “desrespeito aos fotógrafos”, em vez de simplesmente provar (e ele prova, publicando a íntegra da troca de mensagens com o autor do texto) uma sacrossanta imperícia jornalística.

Qualquer coisa além disso é mero corporativismo. As pessoas nãoprecisam da Viva Mais para decidir fotografar – aliás, se é que você não reparou ainda, há montes de gente por aí registrando seu cotidiano, profissional ou amadorísticamente.

Agora só faltava acharmos que, para fotografar, é preciso pertencer a uma classe especial de pessoas. Bobagem.

O texto da revista é apenas mais uma lápide para o jornalismo. Fiquemos por aí.

 

Alerta vermelho

O governo brasileiro despachou um emissário a algumas das mais importantes redações do país. Nelas, estão ocorrendo reuniões que, a princípio, surpreenderam os interlocutores.

Na pauta, a preocupação com a saúde financeira da indústria editorial no país. Até aí, legítimo interesse no desenvolvimento do Brasil num momento em que o crescimento de 0,9% do PIB no ano passado traz em si toda uma carga de preocupação.

O emissário, porém, traz uma informação nada agradável: que grupos atuantes na área “em estado pré-falimentar” têm procurado a presidente Dilma Rousseff à guisa de uma solução, quiçá uma mão salvadora – que poderia vir por meio de linhas de crédito especial do BNDES.

Se isso é verdade, teremos pela frente um caminho ainda mais turbulento na profissão. Aperte os cintos.

Desempregado, ganhador de prêmio vende equipamento para sobreviver

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É a cara da nossa profissão: o fotógrafo português Daniel Rodrigues, ganhador de uma das categorias do World Press Photo este ano (é a imagem que você acima), está desempregado e, pior, sem máquina fotográfica – ele teve de vender seu equipamento para pagar as despesas.

É duro, mas é o jornalismo.

EUA discutem ‘Ley de Medios’ ao contrário

Enquanto na Argentina a presidente Cristina Kirchner compra briga com os principais grupos de mídia e faz passar a Ley de Medios que, na prática, obriga essas empresas a se desfazerem de negócios, os EUA estudam relaxar norma de 30 anos atrás que previa a mesma coisa.

Evidente que, num cenário de fechamento de veículos e demissões em massa de jornalistas, restringir as operações em nome de uma suposta “diversidade de vozes” não parece ser um bom negócio – ao menos para os profissionais deste combalido ofício.

Não vou entrar no debate sobre o controle social da mídia porque você já conhece meu ponto – em nosso país, por exemplo, quem acena com esse tipo de dispositivo o faz com um único objetivo: domesticar a mídia e torná-la compulsoriamente um veículo oficial. Aí acaba a profissão como a conhecemos.

Os muros vazios de Barcelona

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Adrian Melis nos relembra para que serve a fotografia: na série Replacement Points, apresenta o contraste dos muros de Barcelona cujas mensagens anticrise foram recém-apagadas. Grande sacada.

Publicidade nos jornais americanos despenca em 2011

Números divulgados pela Newspaper Association of America mostram que a publicidade nos jornais impressos dos Estados Unidos recuou 7,3% em 2011.

Por outro lado, os anúncios em produtos jornalísticos digitais (muito mais baratos, diga-se) foram quase 7% maiores no ano passado.

Toda a indústria do jornalismo faturou US$ 34 bilhões no ano passado – sozinho, o Google arrecadou US$ 37,9 bilhões.