Arquivo da tag: crise do jornalismo

Por uma vida digna, seja um ex-jornalista

Criaram, na Espanha, uma espécie de CVV do jornalismo. A mensagem da ONG Salvar un Periodista é clara: por uma vida digna, seja um ex-jornalista.

Segundo seu site, a entidade “trabalha na reinserção social dos jornalistas” e, “graças a uma ampla equipe de profissionais e voluntários”, detecta jornalistas em situação de risco (“físico e psicológico”) e os orienta rumo à luz do fim do túnel do inferno laboral.

“Nossos grupos de apoio o ajudarão a identificar quais são seus problemas e, na medida do possível, transformá-lo em ex-jornalista e te dar uma vida melhor”.

Uma evidente sátira (muitíssimo bem sacada) ao sucateamento da profissão. O videodepoimento de Julián Cepeda (com destaque para a trilha sonora) é antológico.

Porém, por via das dúvidas, anota o e-mail da galera aí: salvarunperiodista@gmail.com …

(A dica é do Francisco Madureira)

‘O negócio de mídia é um negócio de identidade. Você tem que ter algo a dizer, e com estilo único’

Paco Sánchez é um das poucas pessoas que realmente dá para chamar de mestre. E não apenas porque ele é professor de jornalismo (tive o prazer de ser seu aluno no Master em Jornalismo Digital Multimídia, no ano passado _sua disciplina, Planejamento de Conteúdos, valeria um semestre inteiro).

Paco também é diretor editorial do jornal espanhol La Voz de Galicia e tem bastante a dizer sobre a espécie de “crise de conteúdos” que estamos assistindo no jornalismo, em geral, e no on-line, especificamente, num momento em que todos os sites se parecem bastante entre si.

O diagnóstico de Paco é preciso. “O negócio de mídia é um negócio de identidade. Você tem que ser alguém com algo a dizer, e dizê-lo com um estilo único”. E como encontrar esse estilo? Leia a conversa que tivemos recentemente.

Paco, você defende que os portais de internet tiveram uma má influência sobre o menu dos sites jornalísticos em geral. Explicando isso melhor: você acredita que a competição por audiência leva sites menores ou “independentes” a, em alguma medida, apenas replicar o conteúdo alheio para não parecer desatualizado?
Eu acho que alguns jornais perderam, na internet, a identidade que têm no papel. Isto é grave. Claro que afeta principalmente os jornais com menos recursos, mas também alguns grandes. Se você se guiar apenas pelas páginas mais vistas, por estratégias de SEO, pode cometer erros absurdos. Por exemplo, é possível que as dez matérias mais acessadas de um jornal sejam superficiais, frequentemente frívolas, replicadas de agências internacionais ou capturadas em outro lugar.

Se quem gerencia o conteúdo se deixa levar por esses resultados e programa mais matérias parecidas, está cometendo dois erros simultâneos de percepção: seu público não chegou ao jornal por causa daquele conteúdo e o usa apenas como passagem (“vejo o noticiário do time de futebol local e aproveito para clicar nessa matéria da Britney Spears”). O que atrai o leitor é informação diferenciada. Se seu objetivo era ler sobre Britney Spears, provavelmente ele entraria em outro site, mais específico, com o qual não poderíamos competir. Se, apesar de tudo, o objetivo do usuário era Britney Spears, provavelmente caiu em nosso site através de um motor de busca. É, portanto, um leitor puramente aleatório, com o qual dificilmente podemos construir uma audiência estável. Então,se nós seguirmos este tipo de estratégia, só conseguiremos visitas hoje, e fome amanhã. E o pior: alguns periódicos de papel começaram a permitir que os resultados de acesso de sua edição on-line passassem a influenciar a agenda de conteúdos na edição impressa. A última gota.

Outro de seus mantras é que nós, jornalistas, não devemos procurar a audiência, mas ao contrário: pela qualidade e originalidade de nossos conteúdos, as pessoas virão até nós. Primeiro que eu adoraria tê-lo como chefe (risos). Sério, como se equilibra isso? Eu não posso manter um site que ninguém acessa. Isso significa que é importante saber o que os usuários querem, certo? Ou não, o jornalismo profissional deve saber quais são as notícias mais relevantes e não pode viver ao sabor da preferência do público?
Estava me referindo mais ao meio, como corporação, dos que aos jornalistas individualmente, ainda que de certa forma seja possível aplicar o conceito também. Em geral, a grande mídia nasceu de uma pessoa ou um grupo de pessoas que tinham algo a dizer e ecoou em uma audiência grande ou importante. Se o processo for ao contrário, raramente funciona.

Sempre lembro que Roberto Civita dizia que, primeiro, imaginava a revista que queria fazer, a que agradava a ele, e só depois começava a fazer pesquisas. O negócio de mídia é um negócio de identidade. Você tem que ser alguém com algo a dizer, e dizê-lo com um estilo único. O sucesso da The Economist é muito bem explicado a partir dessa perspectiva.

Há também exemplos no sentido oposto: no final do ano passado, houve alguma celeuma entre o público do jornal diário espanhol El Pais porque o diário criticou fortemente o governo socialista. Não era o que esperavam muitos leitores, embora o veículo estivesse certo, e alguns até mesmo chegaram a expressar o descontentamento emmento

público de uma forma muito significativa: “Este não é o meu ‘País'”. Com a identidade não se brinca.

Se estamos aguardando apenas o parecer volúvel que nos chega através de pesquisas de marketing, o destino mais provável é uma identidade confusa ou diluída e os termos se invertem: já não somos alguém que tem algo a dizer, e a audiência deixa de precisar da gente. A crise de tantas revistas noticiosas tradicionais tem a ver, em parte, com um processo dessa natureza.

Palavras suas: um jornal impresso tem valor por cerca de quatro horas. O que pode ser feito nas outras 20h para manter o público interessado? Você se lembra de exemplos de jornais que estão otimizando suas operações em grande parte através de intervenções nas suas edições digitais (editorial e produto)?
Com essas palavras o que eu quis dizer é que quase 100% dos exemplares diários impressos são vendidos quatro horas depois de publicados. O resto da venda é marginal. Isso não significa que as informações contidas no jornal expirem. Na verdade, minha proposta é encontrar maneiras de continuar lucrando com todo o volume de informação que continua a ser válida e útil em sua grande maioria.

A indústria do audiovisual entendeu isso muito bem desde o início, com alguma frequência amortiza investimento ou até mesmo começa a gerar lucros quando o filme estreia nos cinemas, mas ela passará anos tirando partido do produto, seja na TV paga, na TV aberta, no pay-per-view, no mercado de DVD etc.

Já existem muitos veículos que utilizam seu conteúdo impresso, aparentemente defasado, para agregar valor à edição eletrônica ou revendê-lo de outras maneiras: não só o The New York Times ou CNN, mas também meios pequenos já são capazes, por exemplo, de converter seu cartunista em uma marca ou vender as fotos do dia.

Equipe de revista extinta vai para o ‘exílio’ on-line e acredita em ressurreição

A equipe da Editor & Publisher, publicação de 125 anos que analisava o mercado editorial e fechou as portas no final do ano passado, ainda não desistiu: montou um blog e, trabalhando de casa, segue fazendo o que estava habituada a fazer.

O E&P In Exile, o blog, reúne nove jornalistas da finada revista. E eles estão esperançosos de que haverá uma boa alma para comprar o título e ressuscitá-lo.

Acho difícil. Melhor seria tentar viabilizar um modelo de negócios para o conteúdo que eles sempre fizeram tão bem _nos EUA, experiências de financiamento público são as mais promissoras.

Mas nossa tendência é temer a vida fora do guarda-chuva do patrão, sempre.

Governo francês põe dinheiro para manter sites noticiosos vivos

Um ano depois de oferecer benefícios fiscais e outras benesses, como a concessão, a todo jovem ao completar 18 anos, de uma assinatura de um jornal, o governo francês anunciou novo pacote de bondades para a mídia do país.

Agora são os sites “puro-sangue”, ou seja, web-only (casos do Slate.fr ou do Rue89), que vão meter a mão na grana. Serão 60 milhões de euros por três anos, 80% deles em subvenções e o restante em dinheiro vivo.

É a estatização pura e simples do jornalismo em países, como a França, em que ele está pra lá de moribundo.

Pelo menos, ao abraçar os sites, o governo de Nicolas Sarkozy dá um recado de isonomia, já que por ora apenas os jornalões tinham se beneficiado de dinheiro público para manter suas operações vivas por mais algum tempo.

Quanto tempo? Não se sabe.

Vende-se revistão lido por 5 milhões de pessoas

Há uma revista à venda. E uma revista de certa fama: A Business Week, que declara possuir quase 5 milhões de leitores em 140 países (e 30% menos de faturamento publicitário no segundo trimestre deste ano em relação ao anterior).

É drástico que nem mesmo um veículo que trabalha com informação econômica (a única pela qual o usuário de internet está realmente disposto a pagar) não tenha habilidade de equilibrar suas contas com uma carteira eficiente de clientes on-line, já que no papel as coisas vão tão mal.

Alguém se habilita?

(via Roy Greenslade)

Jornais gastam só 14% da receita em produção de conteúdo

Os jornais nunca gastaram tanto com impressão e distribuição de seu produto como agora. E é exatamente isso o que está fazendo balançar o secular modelo que garantiu seu domínio por séculos.

A conclusão é de um estudo da agência de classificação financeira Moody’s de autoria de John Puchalla.

Leia também as melhores do Webmanario:

Jornalistas são os profissionais que mais consomem álcool

Aeroportos querem banir revista Caras das salas de embarque

Público se mobiliza e obriga G1 a se ‘completar’

Opine: um jornal precisa de manchete todos os dias?

Segundo o documento, a combinação folha de pagamento, mais impressão, mais logística de distribuição consome 70% das receitas dos periódicos.

Triste, porque apenas 14% deste montante é convertido em produção efetiva de conteúdo. É muito pouco e, nas palavras de Puchalla, explica a “desconexão estrutural” pela qual passam os meios impressos hoje _não há dados no Brasil, mas estima-se que os gastos operacionais, incluindo salários, ultrapassem 50% da receita (há ainda a parcela investida em publicidade, que nos EUA é de 16%).

A Moody’s fala claramente que a saúde destas empresas está ameaçada citando que as companhias que abriram o capital na bolsa, caso do New York Times, estão abaixo do nível para atrair qualquer investimento.

O economista, entretanto, não acredita no fim do jornal impresso ou das revistas. Crê num modelo híbrido de valorização de conteúdos em papel e on-line, mas desde que a imprensa seja capaz de monetizar suas operações na web.

É um caminho árduo.

Em plena crise, jornais aumentam preço de capa

O New York Times reajustou em 33% seu preço de capa, num movimento que vai ao encontro do que fizeram boa parte dos jornais americanos. São os casos, por exemplo, de Washington Post, Tampa Tribune e Dallas Morning News _todos estes dobraram de preço nos últimos dois anos.

O mesmo aconteceu com a Newsweek, que tomou um banho de loja, reduziu o número de páginas e… ficou mais cara.

Não parece estranho subir o valor de compra de um produto que é cada vez menos cobiçado? Sim, de nada adianta a Associação Mundial de Jornais avisar que, em 2008, houve um acréscimo de 1,3% na circulação global de periódicos (que se deveu, é claro, aos países emergentes).

Já há números parciais que apontam, para 2009, uma redução considerável da venda dos jornais _o primeiro trimestre foi catastrófico, segundo apontam estudiosos e especialistas no assunto nos Estados Unidos.

O blog Newspaper Death Watch enxerga nessa alta de preços uma hipótese interessante: os jornalões estão se agarrando a seus leitores mais fiéis, que também são mais atrativos para os anunciantes, acelerando assim o processo de queda na circulação (amealhando alguns dólares a mais, porém).

Na prática, os jornais estariam desistindo do impresso para centrar esforços em inovação tecnológica que, finalmente, poderá fazê-los deixar a era paleozoica.

A se conferir.