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Quando o CQC atrapalha o jornalismo

Aconteceu em 2012: mais um desrespeito do CQC com o nosso trabalho. E a galera chegou a partir pras vias de fato, como define o direito.

Foi o sexto texto mais lido do ano no Webmanario neste ano.

Quando o humorismo atrapalha o jornalismo

Falo com alguma frequência, em sala de aula e rodas de amigos, sobre o CQC, mas aqui no Webmanario a atração da Band foi tratada de forma quase tangencial. Até mais uma polêmica envolvendo coleguinhas e um personagem do programa.

Antes de tudo, você precisa saber o que eu acho de programas televisivos tipo CQC: não se trata de jornalismo, é humorismo mimetizando a linguagem jornalística, o que pode, com sorte, até virar jornalismo.

Não estamos diante de repórteres, mas de personagens brifados para a zombaria. Pior, eles confundem consumidores de notícias, que volta e meia se perguntam por que os jornalistas “tradicionais”  não são tão despojados e combativos nas entrevistas do dia a dia.

Simplesmente porque não são humoristas, cara-pálida.

Fazendo-se essa separação entre as duas profissões, não vejo grandes problemas na liberação do acesso do CQC ao ambiente profissional jornalístico (é o último privilégio da imprensa tradicional: a legitimidade de ter acesso aos protagonistas do noticiário, como o vestiário após os jogos).

O que não é legal é o humorismo atrapalhar o bom desenvolvimento do jornalismo. Aí a coexistência deixa de ser pacífica – e chamar os caras pra porrada, como no caso citado lá no começo do texto, é compreensível.

E, a julgar pelos números de audiência, a fórmula está pra lá de desgastada…

ATUALIZAÇÃO: Nos comentários, nosso colega Sergio Leo (que testemunhou a confusão com o CQC em Brasília) dá um importante depoimento.

O jornalismo que não tem graça nenhuma

Existe “jornalismo humorístico”?

O professor José Luis Orihuela crê que sim. Tanto que há uma peça do gênero entre os trabalhos finais de seus alunos neste semestre em Navarra.

Nada contra o humor (aliás, o jornalismo precisa de doses dele), mas discordo. No máximo admito formatos humorísticos com linguagem jornalística _caso do bobagento CQC, várias vezes confundido com jornalismo.

Aliás, sobre o CQC: algumas vezes já me perguntaram se eu teria coragem de fazer as perguntas que alguns dos “repórteres” do programa perpetram. Claro que não, né gente, afinal de contas eu sou jornalista, não humorista. São funções bem diferentes. Se vivesse de piada, certamente eu seria ainda mais inconveniente.

Fazer graça com as notícias, via de regra, não tem a menor graça.

Olha o caso do The Onion, considerado o principal exemplo de esculhambação do noticiário: “Desastre da Air France foi causado por queda de avião“.

Nossa, estou rolando de tanto rir.

O jornalismo não tira sarro

Ainda no Uruguai, então mais sobre a Argentina. Primeiro que vi esse 0 a 0 aqui em Montevidéu, lugar mais neutro do mundo para acompanhar esse jogo. O Uruguai tem uma afinidade racial e cultural enorme com nosso país, ao mesmo tempo que nutre pela Argentina admiração e dependência muito grandes. O coração dos caras sempre fica dividido nessa hora.

Pois bem: aqui, fora do Brasil, fica nítida a nossa brusca redução de relevância global no quesito bola. O tempo todo, as pessoas que vêem o jogo falam só sobre nosso rival. Não se perguntam quem é Daniel Alves ou por que Ronaldinho está falando ao celular numa tribuna em vez de estar lá embaixo, jogando. Um comentarista da TV argentina acaba de dizer que o gaúcho “amarrado é muito melhor Diego”. Tendo a concordar.

Discordo, porém, do pseudojornalismo. Teve alguma repercussão a lição que o argentino Zanetti deu num “repórter” do CQC Brasil _por sinal, um formato televisivo do país vizinho. A pergunta, grosseira: “Se a Argentina perder, há chance de mais um panelaço?”

“Primeiro, não pensamos em perder. Com este assunto não se brinca, é algo que prejudica muita gente. Nós, os argentinos, merecemos coisas melhores”.

Correta, a reação do jogador reforça a necessidade de o jornalismo ter compartimentos para desovar bom-humor _indispensável e fundamental para qualquer mídia. Não se mistura notícia e risada. Formatos como o CQC, por favor, se assemelham a Casseta e Planeta, nada além desse patamar. Jornalismo exige (pouco) mais decoro.

E agora que eu tô todo papel (dois meses pesquisando jornais de 50 anos atrás dá nisso), lembro do melhor exemplo de irrupção de humor num jornal: a charge, o “editorial desenhado”. Falaremos dela em breve.