Arquivo da tag: corporativismo

Imperícia jornalística alimenta corporativismo

Uma “reportagem” da revista feminina popular Viva Mais está provocando algum barulho em redes sociais por esses dias.

Em resumo, o texto incentiva as leitoras a se transformarem em fotógrafas “em um dia”, amealhando um salário inicial que pode chegar a R$ 4 mil.

Uma fonte mencionada na matéria foi à web para manifestar seu repúdio à forma como suas informações foram utilizadas pela revista. Bravo.

Porém, erra a mão ao acusar “desrespeito aos fotógrafos”, em vez de simplesmente provar (e ele prova, publicando a íntegra da troca de mensagens com o autor do texto) uma sacrossanta imperícia jornalística.

Qualquer coisa além disso é mero corporativismo. As pessoas nãoprecisam da Viva Mais para decidir fotografar – aliás, se é que você não reparou ainda, há montes de gente por aí registrando seu cotidiano, profissional ou amadorísticamente.

Agora só faltava acharmos que, para fotografar, é preciso pertencer a uma classe especial de pessoas. Bobagem.

O texto da revista é apenas mais uma lápide para o jornalismo. Fiquemos por aí.

 

O corporativismo e o diploma de jornalismo

Escreve Hélio Schwartsman, na Folha de S.Paulo (e reproduzo por assinar embaixo).

“Foi só o STF declarar a inconstitucionalidade da exigência de diploma de jornalista para o exercício da profissão que políticos de todos os naipes se articularam para reintroduzi-la, dessa vez via emenda constitucional. Se a proposta que tramita no Senado for em frente, o mais provável é que volte a ser analisada pela corte, com boa chance de ser derrubada outra vez.

A insistência com que se volta ao tema, porém, é reveladora de um dos grandes problemas do Brasil: assombrados por um espírito levemente fascista, não nos vemos como cidadãos de uma República, mas como representantes de uma determinada categoria profissional ou segmento social que seria detentor de “direitos naturais”. Nesse esquema, a ação política consiste em inscrever em lei as reivindicações oriundas desses “direitos” e esperar que o Estado as implemente. Viramos o país das corporações.

A dificuldade é que, como todo mundo faz o mesmo, o arcabouço legislativo se torna uma barafunda de reivindicações sindicais promovidas a norma geral. Elas são tantas que fatalmente se chocam. É nesse contexto que se inscrevem as guerras entre médicos e enfermeiros em torno das casas de parto ou entre psiquiatras e psicólogos pelo direito de diagnosticar. Pior para os pacientes e para a sociedade.

Para provar que não exagero, uma rápida consulta às bases de dados do Congresso revela dezenas de projetos de regulamentação de ofícios.

Apesar de a Constituição afirmar que a regra geral é a do livre exercício de profissões, legisladores buscam regular (e, portanto, restringir) as carreiras de modelo de passarela, filósofo, detetive, babá, escritor, cerimonialista, depilador etc. Já resvalando no reino da fantasia, busca-se também disciplinar a ocupação de astrólogo e terapeuta naturista.

Pergunto-me como nossos parlamentares puderam esquecer de Papai Noel e das indispensáveis fadas.”

Quando somos personagens dignos de nota

Quem não conhece o feed Periodistas, no Twitter, está perdendo. Basicamente, ele rastreia a rede procurando referências, em espanhol, a “jornalismo” e suas derivações.

É, muitas vezes, inútil. Pelo menos, nessas ocasiões costuma ser divertido.

A lista de “notícias” do feed não deixa de ser um retrato do que jornalistas (profissionais e amadores) falam e publicam sobre si. E morte é uma coisa que faz o maior sucesso, rapaz.

Foi constatando isso que decidi escrever sobre: há muito mais (o dobro) incidências no Google para a combinação “morre o jornalista” comparada a “morre o músico“. Pensei aleatoriamente em músico imaginando ser uma profissão que implica algum tipo de exposição pública.

Tentei “morre a atriz”. Nova vitória dos cadáveres da notícia. Finalmente, “morre o ator” resgatou minha dignidade e colocou os jornalistas em seu devido lugar.

Não é difícil entender porque isso acontece. Corporativismo puro, claro. Há séculos colegas noticiam a morte de colegas até que chegue o dia de também figurar no obituário. Muitas vezes, apenas por ter pertencido à mesma profissão, um jornalista é alçado automaticamente à condição de personagem digno de nota.

Não, não é.

momentos (raros, insisto) em que, sim, nós protagonizamos um fato e merecemos “cobertura”. Que seja especialmente na hora da morte, porém, tenho lá minhas dúvidas.

Ou será que morre mais jornalista do que servente de pedreiro?