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Mejor no hablar de ciertas cosas

Ignacio Chehade, diretor do blog jornalístico chileno Cuarto Poder, escreve ao Webmanário para contestar o post “O marasmo político chileno e a blogosfera deles“, publicado neste espaço no sábado. Curiosamente, ele se dirige em inglês _revelador do ponto de vista do abismo que separa o Brasil da América Latina (podemos conversar em espanhol-português sem problemas, não?)

Diz Chehade que não é “exatamente assim” minha análise sobre o momento político chileno (ontem foi o aniversário de 20 anos do plebiscito que sacou o general Augusto Pinochet do poder). Porém ele toca exatamente no ponto que observei: fala que, “para as novas gerações”, acostumadas a viver num país democrático, tudo o que diz respeito ao passado serve apenas para provocar “divisão social e raiva”. “É por isso que, para tratar de um tema irracional como a raiva, optamos por deixar o passado pra trás”, ele diz.

É bem por aí. Se pudessem, os chilenos apagariam os anos entre 1973 e 1988 da história.

Os jornais em papel seguem essa toada: o diário El Mercurio, o principal do país, relatou hoje a comemoração (que reuniu cerca de 80 mil pessoas no estádio Nacional, de triste memória _na ocasião do golpe, o recinto foi usado como campo de concentração, prisão e tortura) com uma foto no meio da primeira página e um texto interno discreto que destaca o chamamento da presidente Michelle Bachelet à manutenção da Concertación (a aliança de centro-esquerda que sacou Pinochet do poder).

É que por ora há um candidato independente, Sebastián Piñera, da RN (Renovación Nacional). Ele sim, atira para todos os lados e toca numa ferida nítida para um visitante temporário, como eu: a escalada da violência (a criminalidade é real hoje no Chile) e também da inflação (só no mês passado, o principal índice de preços ao consumidor subiu 1,1%).

Hoje, passeando pelo Palacio de la Moneda, foi possível perceber ainda as grades que, ontem, protegeram o prédio presidencial (bombardeado no golpe de 11 de setembro de 1973 e onde Salvador Allende, o presidente legal, se suicidou) de eventuais protestos.

Não, eles não ocorreram. Pior: o que deveria ser a celebração da vitória do “não” na votação de há 20 anos virou ato de campanha de milhares de postulantes às vagas de alcalde (prefeito) e concejales (vereadores) das 34 comunas (municípios) que formam a capital chilena.

O passado, efetivamente, ficou para trás.

O marasmo político chileno e a blogosfera deles

O dia 5 de outubro também tem, a exemplo do Brasil, uma importância histórica para os chilenos (país onde estou desde hoje, e até o dia 9, antes de seguir viagem a Buenos Aires). Prometi que ia falar um pouco mais de jornalismo e comunicação nos tempos de Internet nestes países, né? Então lá vamos nós.

Amanhã completam-se 20 anos que o povo do Chile deu um rotundo não à ditadura do general Augusto Pinochet, que governava o país com mãos de ferro desde 1973 à custa de muito sangue e da morte do presidente legalmente constituído, Salvador Allende _para nós, a data marca os 20 anos da promulgação da atual Constituição (motivo de orgulho ou de muxoxo? Sei não…)

Pois bem: a política ainda é um tema tabu no Chile. Basta virar os olhos para a blogosfera. O maior diretório de blogs do país apertado entre o Pacífico e os Andes não aponta uma única bitácora sobre o tema (nem o blog jornalístico mais engajado, o Cuarto Poder, parece se ocupar como deveria do tema). Estranho, não? Nem tanto, ainda mais se levarmos em conta que, desde Pinochet, política é um assunto resolvido para os chilenos.

Resolvido graças à Concertación, aliança de centro-esquerda criada para enfrentar a ditadura e que, desde o citado  plebiscito de 1988 (que negou a Pinochet a possibilidade de permanecer no poder, propiciando eleições livres), ganhou absolutamente todas as disputas eleitorais (dos concejales _os vereadores deles_ à presidência).

Até hoje, escreve o diário local La Tercera neste sábado, o plebiscito influencia o comportamento do eleitor chileno. Aqui, a questão segue sendo dizer apenas “sim ou não”. E os candidatos da Concertación têm recebido o polegar afirmativo há duas décadas, numa letargia de discussão de propostas que desemboca na mais modorrenta previsibilidade eleitoral.

Mais triste para a oposição (e este blog, que parece saído da década de 70, revela bem esse sentimento) é a
constatação de que os sucessores de Pinochet seguiram ipsis litteris sua cartilha na condução da economia, para alguns estudiosos um ponto fundamental no salto qualitativo que deve levar a nação ao Primeiro Mundo em mais uma década, quando o plebiscito que sacou o general completará 30 anos e, provavelmente, a dominação da Concertación também.