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O manual de redação do Estadão para seus leitores-comentaristas

No instante em que o jornalismo on-line rediscute o que fazer com os comentários dos leitores (e há quem sugira simplesmente limar toda opinião que não seja identificada por nome completo e RG), reparo nas regras do Estadão on-line para admitir a participação dos leitores no noticiário.

Mais que regras rígidas, constituem verdadeiro seguro contra comentaristas aloprados que, por motivos óbvios, sejam moderados ou mesmo excluídos das instâncias de discussão num site _nessas ocasiões, os delinquentes da palavra costumam recorrer a bandeiras como ‘liberdade de expressão’ para denunciar o que consideram ‘censura’.

Com regras claras, essa bobagem não cola.

Os 20 Mandamentos do jornal para seus leitores-articulistas:

Será considerada infração, a publicação de conteúdo:

1. Ilegal

2. Abusivo

3. Ameaçador

4. Nocivo

5. Obsceno

6. Profano

7. Difamatório de qualquer pessoa ou instituição

8. Discriminatório de credo, raça, condição social ou orientação sexual

9. De Incitação a atos ilícitos

10. De Incitação à violência e/ou ao crime contra pessoas, instituições, países ou a patrimônio público e privado

11. Capaz de ferir a reputação de pessoas ou organizações

12. Que configure Plágio

13. Produzido por terceiros, sem a reprodução autorizada

14. Considerado Spam ou correntes de mensagens

15. Transmissão de ou que leve a locais com material de potencial destrutivo como vírus, worms, cavalos de tróia

16. Propaganda de produto ou serviço

17. Campanha política

18. Falso ou fraudulento

19. Violação do direito de propriedade de uma pessoa ou empresa

20. Que fingem ser de autoria de outra pessoa, famosa ou não

Três análises sobre comentários em notícias on-line

Coincidência ou não, saíram quase juntos do forno três análises bacanas sobre o comportamento de jornalistas e consumidores de jornalismo diante da possibilidade de comentar e administrar comentários de notícias on-line.

O mais importante, o do professor Jeff Jarvis, que exorta os jornalistas a definitivamente dividirem com o público anseios e insights, inserindo as pessoas no processo antes e durante a confecção de uma reportagem, e não depois, como costuma acontecer.

Da Espanha vem um estudo com conclusões interessantes: não há diálogo entre os internautas, pelo menos aqueles que comentam notícias nas versões on-line dos jornais impressos. É pequeno o número de usuários que intervêm mais de uma vez, assim como os que corroboram os argumentos dos outros. A presença de insultos é pequena (isso difere da realidade brasileira), mas a desqualificação _de outros leitores, do autor da notícia, dos protagonistas do fato ou do próprio meio de comunicação_ é altíssima.

Por fim, Robert Niles e uma máxima: “se você não consegue administrar os comentários, simplesmente não os ofereça”.

A insanidade dos trolls ativistas políticos

A polêmica atuação do delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz no Caso Satiagraha deu mais uma demonstração exemplar de que um estudante francês, Nicolas Kayser-Bril, foi muito lúcido ao cunhar o texto “A economia dos comentários“. Neste caso me refiro às reações desproporcionais a postagem de Fernando Rodrigues sobre o tema.

Em resumo, para Kayser-Bril, quanto maior o número de respostas a determinado artigo na Internet, maior a chance de haver ruído, mediocridade e a nefasta aparição de trolls, esse personagem estúpido da Web que veio ao mundo apenas para ofender e desestabilizar qualquer tentativa de conversação.

Neste caso específico, é o ativismo político que está por trás dessa proliferação de trolls. Mesmo ativismo, por sinal, que vitimou outro jornalista, Vinicius Torres Freire, quando ele “ousou” tecer críticas a Lula. Nessa hora, um pelotão de maria-vai-com-as-outras emerge na caixa de comentários com a ofensa como único, digamos, argumento. São eles que dão embasamento a teses como a espiral do silêncio, de Elisabeth Noelle-Neumann, pela qual os detentores de opiniões minoritárias se calam por receio de represálias da horda dominante.

Por isso tenho demonstrado aqui tanta preocupação com a necessidade de um gerenciamento de discussão nos portais noticiosos para, além de encaminhar e manter o debate dentro do limite do racional, poder filtrar e eliminar do convívio on-line os intoleráveis inimigos da liberdade de expressão. Essa gente guia o pensamento de quem vem em seguida, e o resultado é este aí que está posto: estrume em forma de comentário.

Faz muito tempo que a popularidade e relevância de um site (ou blog, ainda que seja blog apenas na nomenclatura _os blogueiros de botique são inúmeros, inclusive o próprio Protógenes) deixaram de ser medidos pelo número de comentários na página. Afinal, como pontuou corretamente nosso estudante francês, tudo o que essa avalanche de palavras produz é ruído e mais ruído, com direito a um lugar automático na lata de lixo do ciberespaço.

A incapacidade dos trolls ativistas de fazer sinapses é latente. Para eles, quando um repórter negocia com suas fontes a publicação de reportagens, é sinal de que ele está comprado (para citar dois exemplos, fiquemos com as repórteres Andréia Michael e Lilian Christofoletti, da Folha de S.Paulo, outras vítimas de toda sorte de insanidade verborrágica dos comentaristas profissionais da Internet).

São esses mesmos trolls políticos (supostamente politizados) que notabilizam outros trolls, estes ainda mais perigosos, pois são os que tomam a iniciativa de tornar públicas suas opiniões destrutivas e via de regra forjadas apenas para fomentar mais ódio e debate vazio.

Comentário sobre os comentários

“As pessoas precisam ser detidas”, me disseram certo dia. E eu, conversando informalmente com um amigo que toca blog corporativo, aparentei estupor pelo fato de no site dele os comentários serem publicados sem moderação. Como assim, sem moderação?

As pessoas precisam ser detidas, sim. E o comentário é livre até onde vai a compreensão de liberdade do dono espaço.

Ótimo debate capitaneado por António Granado _lembrando que, como sempre, é na caixa comentários que a discussão ocorre de verdade.

Falta um gerenciador de discussão

Praticamente seis meses depois que constatamos o despreparo (e o desinteresse) dos sites jornalísticos brasileiros em abrigar a opinião de seus usuários, a discussão sobre os comentários segue viva no jornalismo on-line.

Desta vez foi o jornal argentino La Capital, de Rosario, que decidiu suprimir a caixa de comentários que tinha sido disponibilizada em todas as notícias. O motivo, segundo nota publicada no próprio site, é que “amparados no anonimato, [usuários] utilizaram esta valiosa ferramenta de participação para a ofensa gratuita, o insulto e a falta de respeito”.

Ou seja, o jornal jogou o sofá fora.

No Brasil, vimos que não há a opção de comentar toda e qualquer matéria porque os portais simplesmente não têm gente suficiente para moderar as opiniões de seu público e excluir os insultos que tanto incomodaram o periódico argentino. Neste caso, optaram por interditar o sofá: ele está lá, mas nunca 100% disponível.

Não precisamos ir muito longe para decretar que, pelo que se vê nos sites de todo o mundo, a palavra do leitor está longe de ser uma “valiosa ferramenta de participação”. Sheila McClear chegou a defender abertamente, no Gawker, que os jornais não devem permitir interferência dos leitores. “Jornal não é blog”, decreta ela, para quem o produto não é lugar de conversação.

Polêmico, para não dizer anacrônico.

A argumentação gira em torno de bobagens que leitores perpetraram jornais afora e toca num ponto em que é difícil discordar: em sua maioria, as pessoas simplesmente não têm o que dizer (isso vai ao encontro do que prega o enfant terrible Andrew Keen em seu Cult of the Amateur).

“Moderar comentários não é uma solução, é perda de tempo”, afirma Sheila.

Minimalista, Mike Masnich dá aquela que eu considero a palavra definitiva sobre o tema num brevíssimo post do Techdirt: “Não existe nenhum indicativo de que alguém, nor jornais, lê os comentários. Os próprios autores dos textos raramente, se o fazem, respondem aos leitores. Não há engajamento algum nas discussões”.

Talvez o ponto seguinte, diante desse impasse, é pensar a figura do moderador no jornalismo on-line não apenas como um filtro para deletar imbecilidades, mas como um gerenciador de discussão, mobilizando a conversa para um, para outro ou para todos os lados.

A função eliminaria essa incômoda sensação de que a opinião do público não é levada em consideração, além de, efetivamente, estabelecer o diálogo tão necessário entre veículo e seu leitor.

Comentários sobre os comentários

A caixa de comentários, canal fundamental de diálogo na Web2, está na berlinda. Artigo da revista Time aborda o problema de forma frontal: vítimas de sua audiências, blogueiros e sites perderam o controle sobre o que dizem as pessoas que visitam suas páginas.

O texto de Lev Grossman dá exemplos de idiotices comentadas em redes sociais como Flickr e You Tube, cita o problema do anonimato na rede (já abordado neste Webmanário) e fala, com todas as letras, o que ninguém gostaria de ouvir: que hoje os comentários existem apenas porque significam tráfego (ou seja, audiência), não necessariamente para estabelecer uma via de conversação.

Ao mesmo tempo, o portal do “Estado de S.Paulo” anunciou uma correção de rota em sua política para ceitação de comentários (que demonstramos, em sala de aula, ser inexistente). Agora, todos deverão passar pelo crivo de um editor antes de ir ao ar.

Daí, é o tal círculo vicioso: quanto mais participação dos usuários, menos tempo hábil para habilitar as opiniões. É por essas e por outras que praticamente todos os portais noticiosos restringem a participação de seu público: por falta de tempo e pessoal para apertar o botão.

Comentários sem moderação e moderação nos comentários

Vimos na aula de hoje que em sites como G1 e Folha Online a opção “comente esta notícia” não está disponível de forma clara e em todo o noticiário simplesmente porque os sites NÃO TÊM GENTE suficiente para ler os comentários e aprová-los.
No Estadão, em que a opção aparece em TODAS as notícias, descobrimos hoje que não há qualquer tipo de moderação. Curiosamente, apesar de alguns comentários terem demorado a ir para o ar, mesmo palavras chulas ou referências desairosas ao próprio site acabaram publicadas. É o que nos revela a caixa de comentários da notícia PF prende líder de esquema de venda de diplomas pela internet.É o eterno desequilíbrio. Enquanto uns têm cuidado demais e impedem o acesso e a participação do leitor, outros têm cuidado de menos _sob a aparente capa de uma democrática participação da audiência. Portanto, cuidado com o que escrevemos num fórum público…
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