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Nostalgia da modernidade

O jornalismo deveria estar preocupado com a escalada do marketing de conteúdo (ou narrativa de marketing)? É o que tenta responder este artigo da Columbia Journalism Review.

Erros de informação em redes sociais: apagar ou não apagar?

Já tive de deletar dois tweets corporativos com informação comprovadamente equivocada, por ordem superior, sendo vencido em meu pleito de que o que já tinha sido difundido precisava ser corrigido, não varrido para debaixo do tapete.

Nem falar sobre a quantidade de feeds que acompanham suas atualizações em redes sociais (e os aplicativos móveis estão cada vez mais abundantes) tornando uma reformulação em sua timeline quase inócua _a informação não pertence mais a você, já foi distribuída por outros meios.

Craig Silverman concorda e propõe medidas para amenizar os equívocos sem a necessidade de recorrer à síndrome do avestruz _como apelidei o ímpeto de borrar . Como um botão de comunicação direta com quem redistribuiu uma barriga, alertando sobre a necessidade de repassar o mea-culpa reparador.

Com atalho ou não, é isso aí: quando erramos num meio em que a informação corre muito rápido, o melhor a fazer é incentivar os mesmos hubs da notícia falsa a transmitir a correção.

Alterar a cena do delito, como bem sabemos, é crime.

Será mesmo o fim da exatidão dos jornais?

Craig Silverman, no Columbia Journalism Review, toca na ferida da exatidão (ou precisão, como queiram) dos jornais. Parte da declaração do empreendedor Ben Elowitz, que diz ter ficado mais tempo ao telefone com checadores do que com repórteres da “velha mídia” para quem deu entrevistas.

A verdade é que a checagem de fatos é (ou era) uma instituição muito mais americana que brasileira. Silverman detecta que o investimento nessa tarefa praticamente acabou por lá _por aqui, algumas poucas revistas (como lá) ainda se dedicam ao trabalho.

A nova ombudsman da Folha de S.Paulo, Suzana Singer, anunciou a disposição de investigar reportagens (o que não é a mesma coisa, já que a investigação se dará após a publicação das matérias e, consequentemente, dos erros).

Ainda assim, é um passo adiante na transparência.

Em tempo: Silverman constata que o erro na grafia de nomes próprios é o maior gargalo da imprensa (e isso desde a década de 30, de quando data o primeiro estudo conhecido sobre a exatidão dos jornais).

Ele encerra o texto com um erramos ótimo do NY Times, na linha “diferentemente do que Anjelica Houston disse em entrevistada à gente, Sophia Loren está viva”.

A jurássica Associated Press

Volta e meia eu falo deste tema, mas a reação de algumas empresas jurássicas como a Associated Press (uma cooperativa de produção de notícias mantida há 163 anos por tradicionais jornais, rádios e emissoras de tv dos Estados Unidos) me impede de esquecê-lo.

A AP voltou à carga agora contra a própria essência da web: está perseguindo sites que simplesmente linkam para suas matérias. Tenebroso, anacrônico e ignorante.

O Columbia Journalism Review reúne opiniões sensatas sobre mais essa ofensiva desprovida de inteligência.

O dever de proteger a fonte

Esse é um dado bacana que o Columbia Journalism Review revelou: desde 2001, na gestão de Robert Muller, o FBI já investigou (sem processar ninguém) 85 casos nos quais a acusação era “crime report”, ou seja, a revelação de dados confidenciais para veículos de imprensa _nesta conta entrou apenas a mídia formal, e em geral os “infratores” eram funcionários públicos.

Há ainda outros 21 casos em andamento.

Na maior parte das vezes, há pressões sobre os jornais para que divulguem suas fontes (quem teria, sob a luz da lei americana, cometido algum tipo de delito). É um dever nosso proteger essas pessoas.

Por ora, a imprensa resiste. Veremos até quando.

Leitores ajudam jornal a fotografar cadáveres

O jornal popular equatoriano Extra está utilizando uma extensa rede de colaboradores não remunerados (leia-se: seus próprios leitores) para driblar uma proibição que quase põe fim ao próprio jornal.

Desde 2008, uma lei federal proíbe que a polícia ou o IML permitam o acesso de fotógrafos de veículos jornalísticos aos cadáveres.

Para o Extra, que sempre exibiu cenas de crimes na sua primeira página (indefectivelmente ao lado de modelos desnudas), foi o princípio do fim.

A publicação, porém, segue publicando defuntos com protagonismo em suas páginas. Como? Graças aos leitores, que avisam a redação, via internet e telefone, quando se deparam com um presunto fresco.

Desta forma, jornalistas do periódico estão conseguindo chegar às cenas dos crimes antes dos policiais _flagrando o morto.

É sensacionalismo, mas de resultados: o Extra, com uma tiragem estimada em 210 mil exemplares, é o jornal mais vendido do Equador.

Penúria dos jornais é tema de audiência no Senado dos EUA

A crise da imprensa americana foi tema ontem de uma audiência no Senado comandada por John Kerry (o senador que esteve a 60 mil votos de ser presidente dos EUA).

A conversa teve muita gente boa, que deu depoimentos iniciais importantes e que fazem refletir (leia em detalhes, são muito boas).

Gente como Arianna Huffington, que comanda o site que leva seu nome e é um dos maiores exemplos de jornalismo eletrônico bem-sucedido fora do mainstream, James Moroney (editor-chefe do The Dallas Morning) e Steve Coll (ex-diretor-administrativo do The Washington Post).

A turma do Columbia Journalism Review blogou a audiência ao vivo. No microblog, a hashtag #futurej também traz apontamentos sobre as discussões.

Foi uma conversação nostálgica, que teve Bernstein e Woodward (do caso Watergate), comentários sobre o hábito de folhear o jornal no café da manhã (houve senadores dizendo temer a mudança forçada de hábito) e piadinhas sobre entrevistas célebres de Ronald Reagan.

A conclusão é que a situação dos jornais tem de ser discutida no âmbito dos jornais. Senão, o ruído é grande demais.

Quando notícias velhas voltam a ser notícia

Leitores do New York Times têm sido surpreendidos, nos últimos dias, por correções de reportagens antigas publicadas pelo diário, o mais importante e influente do mundo. Algumas delas, bem antigas (vá ao item “The Arts”). Caso de um texto estampado em 1906 pelo diário.

A história completa quem conta é Craig Silverman, na Columbia Journalism Review. Um resuminho: em matéria publicada há 103 anos, o relojoeiro Jonathan Dillon contou ao jornal qual era o teor da inscrição que colocou na parte de dentro de um relógio depois ofertado ao presidente Abraham Lincoln. Só agora descobriu-se o conteúdo real da mensagem.

O caso é uma demonstração clara de mudança no exercício do jornalismo provocada pelo avanço tecnológico, minha principal linha de pesquisa acadêmica há dois anos. Claramente, a conexão 1906-2009 só foi possível por meio de mecanismos de busca na web.

Sou de um tempo em que pesquisar significava passar horas num lugar bolorento, empoeirado e sem ventilação. Por obra do especial da Copa de 1958 da Folha de S.Paulo, que coordenei no ano passado, revivi um pouco esses tempos com horas em arquivos de jornais de São Paulo, Rio e Montevidéu.

A reação que essas correções retrô provocaram é outro exemplo de interferência da tecnologia na prática da profissão: leitores que vasculharam referências a seus nomes no jornalão passaram a exigir retratação do periódico. Hoje, consta que são ao menos 12 pedidos por dia. Da simples correção de grafias à supressão total de notas sociais sobre casamentos que, tempos depois, acabaram.

Se o jornal impresso é um registro histórico do dia que passou, nada parece ser mais adequado do que esse revisionismo. No New York Times (e em quem mais se atreva a adotá-lo), porém, ele terá limites. Não há quadro para corrigir tudo o que o produto publicou de equivocado em sua história.

Além disso, seria uma impropriedade. É um documento histórico, não? Pois não comporta atualizações, muito menos a mais prosaicas, como a demanda do leitorado por atualizar o status de um casamento fracassado.

De toda forma, é mais um exemplo muitíssimo bem acabado de como a tecnologia transforma diariamente o fazer jornalístico.

Saturado de notícias, povo precisa de bons jornalistas

As pessoas estão saturadas de notícias. A psicologia explica esse distúrbio como uma ramificação do déficit de atenção. Com tanta oferta, o que comprar? É neste cenário que o trabalho do jornalista profissional, e sua tarefa de editar e filtrar o noticiário, ganhou ainda mais importância com o avanço tecnológico na era da publicação pessoal.

É mais ou menos isso que Bree Nordenson defende num artigo para a Columbia Journalism Review. Nordenson usou como ponto de partida estudo encomendado pela Associated Press (sobre o qual falei aqui em julho) que analisou o comportamento do consumidor de informação.

O ponto importante da análise é que hoje, mesmo diante de tantas opções informativas, o público não está mais por dentro do noticiário como há dez anos _um levantamento do Pew Research Center for the People & the Press dá um indício disso ao constatar que hoje 69% dos norte-americanos sabem quem é o vice-presidente do país, contra 74% que sabiam isso em 1989.

A conclusão é que falta uma “orientação” para o consumidor de notícias. Em resumo, hierarquização e contextualização do noticiário. Ou seja: o trabalho do bom e velho jornalista.

Esse ponto de vista, numa época em que o trabalho jornalístico é contestado e relativizado pode lançar uma nova luz no debate sobre o futuro da profissão. Fazer as pessoas assimilarem e entenderem o noticiário, defende Nordenson, é o papel a adotar.

Papel que, segundo ele, a revista norte-americana The Week já assumiu há tempos, optando por priorizar a análise e a síntese da informação.

Enfim, são observações auspiciosas para o jornalismo. Vamos acompanhar.