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Jornalistas ou filhinhos de papai?

Grande texto do espanhol El Mundo, que já tem mais de mês, sobre o momento em que jornalistas foram expulsos do aeroporto de Porto Príncipe pós-terremoto. E revelaram seus medos sem a tutela norte-americana no cenário de putrefação e catástrofe.

¿Puede un periodista ponerse a llorar cagado de miedo nada más poner un pie en Puerto Príncipe al verse rodeado de negros? Sí.

O correspondente Jacobo G. García fala mais: diz que “muitos jornalistas preferem viver debaixo da asa de uma organização qualquer do que enfrentar sozinhos uma cidade destroçada e desconhecida”.

E termina com um grande texto de Arturo Pérez Reverte, ele próprio correspondente de conflito/catástrofe, contando sobre a vez em que foi dado como desaparecido por sua redação na fronteira entre Sudão e Etiópia.

“En realidad fueron mi redactor jefe, Paco Cercadillo, y mis compañeros del diario ‘Pueblo’ los que me dieron como tal; pues yo sabía perfectamente dónde estaba: con la guerrilla eritrea.”

Esse entendimento do jornalismo como uma tarefa a destemidos vem de longa data.

A cobertura de guerra dissecada

Talvez nosso correspondente de guerra mais conhecido (estampou a capa da revista Realidade quando perdeu a perna na explosão de uma mina no conflito do Vietnã), José Hamilton Ribeiro analisa hoje, na Folha de S.Paulo, a cobertura jornalística em zonas de enfrentamento bélico.

É um belo retrato de nosso tempos, onde prevalece a sobredose de informação, o excesso de opções noticiosas.

E com direito a uma belíssima frase que nos leva a refletir. “Há um componente que o leva [o jornalista] a ficar sempre do lado do mais fraco (ou do que parece mais fraco). Jornalista que se preze acha que estar ao lado do poder _seja político, econômico, militar, corporativo_ é deixar de ser jornalista e virar puxa-saco.”

Eu acho que é exatamente isso. Jornalismo é oposição. Ponto.

A morte do escudeiro maltrapilho

Falamos deles outro dia, quando abordamos a representação do jornalista no cinema, e ontem morreu Dith Pran, fotógrafo cambojano que era o protótipo do escudeiro leal, maltrapilho e disposto a morrer para ajudar seu parceiro jornalista. Um personagem que virou clichê nos filmes dos anos 80, mas que neste caso era verdadeiro.

Pran foi tradutor e faz-tudo do jornalista do The New York Times Sydney Schamberg, enviado ao Cambodja em 1975 para cobrir o golpe que colocou no poder o marxista sanguinário Pol Pot. Como conhecia os atalhos, Pran levou o repórter americano a locais onde se acumulavam caveiras e corpos (como mostra este documentário).

Impedido de deixar o país (só Schamberg pôde sair do Cambodja, e lamentou para o resto da vida ter deixado o amigo para trás), Pran foi preso e torturado por quatro anos, até que se conseguiu passar por um iletrado camponês (o regime de Pol Pot matava as pessoas que pareciam esclarecidas) e fugiu para os EUA, onde acabou contratado pelo NYT e criou uma fundação para ajudar as famílias das vítimas do genocídio.

Da cama do hospital, onde lutava contra o câncer, Pran deu uma entrevista ao NYT poucos dias antes de morrer.

É uma coincidência, já que na quarta passada, e também de câncer, morria Philip Jones Griffiths, fotógrafo que teve papel importante na Guerra do Vietnã.