Arquivo da tag: cidadão kane

Armados com lei de 1918, tubarões caçam amadores

A Associated Press levou, há 91 anos, um concorrente que cozinhava seu conteúdo aos tribunais nos EUA.

Cooperativa mantida por jornais, tvs e rádios do país, a AP se sentiu ameaçada em 1918 pela INS (International News Service), agência de notícias rival de propriedade do magnata William Randolph Hearst _quem inspirou o clássico Cidadão Kane.

A I Guerra Mundial se desenrolava na Europa, e a AP tinha a primazia sobre a informação (não era permitido à INS, que não possuía o carimbo de agência “confiável”, o acesso ao teatro de operações do conflito).

Fato é que a rival da AP conseguia cobrir a guerra por meio de uma sistemática que nunca foi devidamente explicada _aparentemente, emissários de Hearst obtiam simultaneamente, por meio de suborno, as reportagens da AP e, via telégrafo, as transmitiam para seus assinantes, devidamente reescritas.

A estratégia garantiu aos jornais que assinavam os serviços da INS vários furos, notadamente os da costa oeste dos Estados Unidos, quatro horas de fuso atrás de Nova York _e onde a adesão à AP era menor.

A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos criou a “doutrina da notícia quente”, pela qual grandes grupos, como a AP, detinham o direito de legal de exclusividade sobre as coberturas em que seus concorrentes não conseguissem “apuração independente e checagem”.

Isso em 1918.

Agora, e pelo mesmo motivo, a NBA foi atrás de um site que exibia resultados de jogos da liga de basquete dos EUA em tempo real (sem credencial para acompanhar as partidas in loco), e agências de notícias como a mesma AP caçam agregadores de conteúdos e feeds.

Ainda em há, em alguns Estados americanos (a lei deixou de ser federal), a “doutrina da notícia quente”. É por meio dela que alguns grupos do mainstream têm caçado profissionais e, sobretudo, amadores.

Porém eles não fazem como a INS, que não citava a AP como fonte (despacho do juiz há 91 anos considerava que, houvesse a referência, o delito seria atenuado).

O que é um agregador de feeds senão uma vitrine explícita para o conteúdo ali exibido (uma coleção de links)?

Em tempo: até onde sei, a mais recente demanda judicial de empresonas contra bagrinhos é esta. Patético.

Muito além do Cidadão Kane

Lembrei desse documentário porque hoje me pediram o link. Pediram não, cobraram. “Cadê, não está na sua bitácora?”

Agora passa a estar. É de 1993, conta a história da Rede Globo e foi produzido pela BBC. É forrado de devaneios. Infantil, até. Chico Buarque dizendo, logo no começo, que Roberto Marinho tem mais poder que o Cidadão Kane é, pra dizer o mínimo, patético. Leonel Brizola compara Marinho a Stalin. Constrangedor.

A exibição pública da reportagem estaria proibida até hoje no Brasil, o que duvido _checarei e voltarei ao assunto.

De toda forma, é um retrato ingênuo de um tempo em que a esquerda via na telinha uma justificativa crível para seu fiasco eleitoral. Hoje, quando o fiasco é administrativo, a TV passou a ser aliada.

Edição II – Quinta aula

Nesta sexta (4/4) vamos conversar mais um pouco sobre os exemplos que nosso amigo Charles Foster Kane nos deixou para o exercício do jornalismo.E, para não ficar só com o lado B, vamos relembrar um pouco mais a heróica resistência de editores brasileiros à ditadura militar contando, entre outras coisas, sobre as receitas de bolo e poemas que ocupavam as matérias censuradas pelo regime em “O Estado de S.Paulo”.

Depois falaremos sobre essa obsessão minha em tentar nos livrar da monocultura do Google (a conclusão vocês já sabem, é quase impossível), sobre como foi, no mundo, o “Dia sem Google” e porque, afinal, uma máquina de busca tem tanto a ver com jornalismo _até já comentei aqui: além da óbvia ferramenta de pesquisa para os jornalistas, estudos apontam que a cada dia que passa são os serviços de busca que levam os usuários às nossas matérias, não uma home page bonita e empolada.

Aproveitando que o papo foi para a web, conversaremos também sobre Jakob Nielsen, o papa da usabilidade (mas há bispos e cardeais bons também). Nielsen defende que nosso texto siga as regras da pirâmide invertida (mas ressalta a importância dos hiperlinks).

Não vejo choque, portanto, com o conceito da pirâmide deitada (proposta por Ramón Salaverría em 1999 e consolidada por João Canavilhas no texto que, enfim, discutiremos em sala de aula).

E as tarefas do segundo tempo, não rolam? Rolam sim:

1) Pesquise sobre o uso do Twitter, especialmente no jornalismo. Cadastre-se no site e tente enviar uma seqüência de três mensagens.
2) Já escreveu textos no Wikinotícias? Corra, senão a surpresa na prova no dia 18/4 será bem chatinha…
3) E os canais de jornalismo participativo nos sites brasileiros? Vimos, testamos, nos cadastramos? Não? Então vamos lá? 

Cidadão Kane no Unifai

Nesta sexta (28/3), no período da aula de Edição II, vamos exibir Citizen Kane (com legendas em português). Além de, provavelmente, tratar-se do maior filme já concebido e rodado, é o maior filme sobre jornalismo jamais realizado.

É a história de Charles Forster Kane, fictício magnata da imprensa idealizado por Orson Welles _que negou até a morte ter se inspirado no verdadeiro William Randolph Hearst, este sim magnata de carne e osso.

Difícil dissociar Kane e Hearst: “Rosebud“, por exemplo (nome que permeia a trama), seria o apelido que o ricaço deu à periquita da segunda mulher…