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A mídia e os donos da mídia

Mestre Elio Gaspari publicou de maneira discreta.

“O altíssimo comissariado tem duas esperanças e uma expectativa. A primeira esperança é de que algum grande órgão de imprensa vá para o mercado. A segunda é de que se consiga reunir um grupo de empresários-companheiros com verdadeiro peso, associados a nomes de prestígio. A expectativa é de que se possam organizar operações triangulares de crédito de bancos oficiais capazes de equilibrar a conta e dar a devida compensação ao prestígio. A ideia não é nova. Num caso exemplar, pôs a pique o “Correio da Manhã”.”

Trata-se de uma evolução das conversas que revelei aqui no ano passado.

E o pior: o tal “grande órgão de imprensa” está praticamente batendo na porta.

Um Proer da mídia?

Na sexta-feira, revelei aqui que o governo brasileiro tem procurado a indústria editorial extremamente preocupado com a saúde financeira do setor – e que, na outra mão, empresas importantes “em estado pré-falimentar” (segundo emissário do próprio governo) acenaram pedindo socorro.

Num momento em que (ainda) se discute o controle social da mídia, bandeira do partido que governa o país há uma década, imaginar que o governo, e não a sociedade, ponha a mão no bolso para garantir a atividade jornalística não deixa de ser um paradoxo.

O Brasil já usou dinheiro público (e muito, quase R$ 38 bilhões em valores da época) para capitalizar mais de 70 instituições financeiras nos anos FHC, no programa que ficou mais conhecido pela sigla, Proer.

O BNDES (de onde sairia o eventual crédito agora) esteve metido no complicado processo de negociação da dívida que quase levou NET, Globo.com e Editora Globo à falência no início da década.

A grita foi grande, mas o banco público fez mais do que emprestar dinheiro à holding da família Marinho: tornou-se sócio de uma das empresas, o que se mostrou, anos depois, um péssimo negócio. A Editora Abril, para se livrar com vida da aventura da TVA, também foi assídua frequentadora dos corredores do banco.

Naquele momento, a mídia nacional já havia cortado 17 mil empregos e acumulava dívidas de R$ 10 bilhões. Consequência da farra do dólar e a desvalorização do real, que transformou compromissos contraídos na moeda americana em contas impossíveis de se pagar.

O debate de 2004 – ir ou não ir ao BNDES – pode estar se repetindo nove anos depois, e sem a desculpa do câmbio. O que é, certamente, muito mais grave.

Alerta vermelho

O governo brasileiro despachou um emissário a algumas das mais importantes redações do país. Nelas, estão ocorrendo reuniões que, a princípio, surpreenderam os interlocutores.

Na pauta, a preocupação com a saúde financeira da indústria editorial no país. Até aí, legítimo interesse no desenvolvimento do Brasil num momento em que o crescimento de 0,9% do PIB no ano passado traz em si toda uma carga de preocupação.

O emissário, porém, traz uma informação nada agradável: que grupos atuantes na área “em estado pré-falimentar” têm procurado a presidente Dilma Rousseff à guisa de uma solução, quiçá uma mão salvadora – que poderia vir por meio de linhas de crédito especial do BNDES.

Se isso é verdade, teremos pela frente um caminho ainda mais turbulento na profissão. Aperte os cintos.