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O avião não era avião, e o jornalismo on-line coleciona mais um papelão

O jornalismo on-line protagonizou mais um papelão nesta terça-feira no episódio do avião que teria caído em Moema, na zona sul de São Paulo. No início das contas, era apenas um incêndio que nem sequer feridos graves deixou.

Coube aos portais Terra e IG, especialistas neste tipo de precipitação, o novo avanço de sinal ao cravarem, sem citar fonte alguma, que uma aeronave tinha despencado sobre prédios na maior cidade do país (veja as duas reproduções de tela que acompanham este post).

Tudo bem que a barriga de verdade partiu da Globonews, que anunciou o suposto acidente (e o registrou em gerador de caracteres, com todas as letras) usando a Infraero como fonte noticiosa _o que a empresa negou com veemência, conforme mostra ótima linha do tempo editada pelo site da Revista Imprensa.

Por que o jornalismo on-line, então, embarcou na barriga dos outros?

É característica desta mídia (com a qual concordo), inspirada no padrão médio de acesso de seus usuários (a maior parte deles em horário de expediente), ver TV, ouvir rádio e ler jornais e revistas para seu público, refletindo este conteúdo na rede. São, sim, tarefas importantes e necessárias.

Citar estes veículos como “fonte”, portanto, é altamente legítimo e, ao final das contas, uma prestação de serviço ao consumidor _o UOL, por exemplo, manchetou com “Avião da Pantanal cai na zona sul de SP, diz TV”, cuidado que seus concorrentes não tiveram.

Posso falar com conhecimento de causa sobre o Terra, onde trabalhei por quase três anos em três funções diferentes. A direção editorial da empresa construiu o site em cima de uma agilidade que não corresponde à necessidade ou expectativa do internauta. Ninguém fica atualizando portais para ver quem deu primeiro determinada notícia.

Esse fenômeno é comentado por Paulo Pinheiro (outro ex-Terra, aliás) no texto “A ditadura do ctrl c + ctrl v“, em que toca na ferida ao constatar, com absoluta correção, que os portais da Web se preocupam muito mais com a concorrência do que com seu público leitor.

No Terra, isso chega a níveis absurdos. Profissionais são pressionados a atualizarem capas mesmo sem disporem de material suficiente _a boa e velha apuração_ recorrendo, para isso, a simplesmente copiar outros veículos. Essa política já culminou com demissões sumárias e até abandono de emprego (sim, um jornalista se levantou e foi embora ao receber uma ordem absurda do gênero).

Não existisse essa urgência criada por uma velocidade em que as pessoas não estão (nem jamais estarão), neste momento trataríamos aqui apenas da gravíssima barriga da Globonews _essa sim notável por se tratar de um produto tão cuidadoso (e ao mesmo tempo ágil) na divulgação de notícias.

Em tempo: Folha Online e G1, ao chamarem por “Incêndio atinge prédio na zona sul de SP”, sem mais esclarecimentos, escaparam incólumes do papelão.

Em tempo II: o blog do Gjol conta que até no exterior a barriga dos sites brasileiros provocou estragos.