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Panair do Brasil

A mais importante companhia aérea brasileira voou de 1930 a 1965, quando foi abatida por uma canetada do regime militar que decretou sua falência – e abriu as portas para Varig, gaúcha como vários dos generais que davam as cartas.

O documentário Pan Air do Brasil, de Marco Altman, é outra referência de sobre como funcionavam as coisas nos tempos dos milicos – nessa época de tanto (e injustificado) saudosismo.

Nas asas da Panair

Clique e veja mais fotos do Museu da Aviação, mantido pela TAM em São Carlos (SP)

Quem conhece bem o Webmanario (daqui a pouco vamos para quatro anos no ar, acredita?) sabe que aviação é o único off-topic tolerado aqui. Nem Corinthians eu consegui transformar num tema eventual de meu próprio site.

Aviões apareceram certo dia nesta página por causa da Vasp e de suas agruras _e aqui permaneceram, para sempre, porque uma legião de fãs e ex-colaboradores da companhia de alguma forma transformou essa esquina onde se discute jornalismo num ponto de encontro para falar da empresa, de memórias, de bons tempos.

Esta semana tirei mais poeira da minha memória da aviação brasileira: fiz uma visita ao espetacular museu mantido pela TAM em São Carlos (a 250 km de São Paulo), onde um Lockheed L-049 Constellation domina o cenário.

Fabricada em 1946, a aeronave estava há mais de 30 anos “congelada” no Paraguai por conta de um imbróglio tributário.

Nas mãos da TAM, foi meticulosamente restaurada e, como homenagem, ganhou as cores da Panair, primeira grande companhia aérea do Brasil, que operou entre 1929 e 1965 e introduziu o maravilhoso Constellation no país _teve 14 equipamentos do tipo na frota.

A Panair é do tempo em que voar significava ser servido com copos de cristal, talheres de prata e pratos de porcelana (o museu tem tímido acervo disso, exibido aos pés do Constellation _não é o caso de se juntar mais coisa para um digno registro de um marco do aviação nacional?).

A trajetória da empresa também foi muito mal contada pelo jornalismo. O episódio da abrupta interrupção de seus serviços, há 46 anos, jamais foi explorado como deveria (ATUALIZAÇÃO: o livro “Pouso Forçado”, de Daniel Leb Sasaki, foi lançado em 2005 e reconstitui os fatos).

A falência da companhia foi decretada pelo governo Castelo Branco sem sustentação judicial que justificasse a extrema medida. Forjada nos Anos JK, perseguido pelo regime militar, a Panair pagou uma conta pesada demais.

Só o documentário “Panair do Brasil” (2008), de Marco Altberg, tentou pôr os pingos nos iis.

E, num trabalho arqueológico de pesquisa, resgatou imagens sensacionais de, por exemplo, os Lockheed L-049 Constellation da aérea em pleno voo – o avião foi idealizado pelo visionário Howard Hughes, que o grande público conhece pela atuação de Leonardo DiCaprio em “O Aviador“.

A Panair merece um museu só pra ela.

Aeroportos querem banir revista Caras da sala de embarque

A coleção de artigos proibidos em voos ofertada por Caras a seus leitores

A coleção de artigos proibidos em voos ofertada por Caras a seus leitores

Censura? Não, o problema é o arsenal que você vê na imagem acima. Arsenal? É, do ponto de vista do código de segurança aeronáutico pós 11 de Setembro, utensílios domésticos como facas, garfos e tesouras não podem viajar com o passageiro na cabine do avião. Têm de ser despachados na bagagem. E a Caras, já há algumas semanas, tem oferecido este tipo de brinde a seus leitores.

O problema é que a maioria das salas de embarque dos aeroportos brasileiros _localizadas após a habitual revista no raio-x_ tem bancas de jornal. Daí, tornou-se frequente nos últimos dias a ocorrência, dentro das aeronaves, de portadores de armas capazes de facilitar um sequestro aéreo. Sim, é o brinde de Caras quebrando todas as regras de etiqueta no ar.

Anteontem, em Teresina, um avião da TAM prestes a decolar teve de voltar ao portão de embarque porque uma aeromoça percebeu que havia uma faca a bordo _inocente, o passageiro nem imaginava que tinha se transformado num risco para a sociedade apenas por ter comprado um exemplar da revista que esmiúça a vida de celebridades. O voo atrasou 40 minutos, até que a faca fosse levada por um funcionário da companhia aérea.

Alguns aeroportos, como o da capital piauiense, já recomendaram aos jornaleiros em áreas avançadas do terminal que não exponham a publicação _ou, se for o caso, dissociem a revista do faqueiro e expliquem aos clientes que ali dentro, antesala do ingresso num avião, é impossível contar com o cobiçado presente.

Oficialmente, a Infraero diz que não há uma resolução proibindo a venda da revista Caras nas salas de embarque. Fala-se muito nisso entre pilotos, tripulação e aeroportuários (já há até lenda dando conta da proibição, inexistente). Para a autarquia, segue valendo a norma da Anac que proíbe o acesso ao avião dos portadores deste tipo de utensílio. Como se fosse possível controlar seu porte a metros da poltrona da aeronave, sem revista acurada.

Enquanto isso, os aeroportos se mexem por conta própria para evitar novos problemas.

Interessante caso de um anabolizante (esses brindes que ajudam a vender publicações impressas) que mexe com toda a logística de distribuição de um produto. Ninguém tinha pensado nisso até a vida real dizer “presente” e escancarar um problemão.

O avião, um urubu e fragmentos de conversação com o público

A lacônica nota da Gol, que se recusou a prestar mais esclarecimentos

A lacônica nota da Gol, que se recusou a prestar mais esclarecimentos

O incidente do urubu tragado pela turbina esquerda do Boeing 737 que operava no dia 10 de março de 2009 o voo Gol 1244, entre Congonhas e Porto Alegre, voltou a bater em minha porta.

Agora porque a crônica na qual relatei a quase tragédia foi parar num fórum de discussão de pilotos, aeronautas, aeroportuários e simpatizantes (atenção: só para cadastrados, mas se você gosta do assunto e quer monitorar ou trocar informações com insiders, vale bem a pena).

Foi uma terça-feira (esta, como aquela) bem agitada por conta disso, quando mais uma vez vivenciei de forma prática e presencial que esse papo de era da conversação sobre o qual tanto tenho conversado com colegas e alunos está longe de ser algo a longo prazo _pelo contrário, já é real e transcorre diariamente diante de nossos olhos.

Recapitulando: notei uma afluência grande de tráfego ao Webmanário vinda do tal fórum. Lá, encontrei duas mensagens que diziam respeito diretamente a mim.

QUOTE(pilot81 @ Mar 16 2009, 09:31 AM) * Semana passada(terça feira) eu estava de extra para POA e tivemos um bird strike na dep. em CGH. Após varias orbitas o cmte. optou por prosseguir ao destino. O avião passou o dia inteiro em manutenção em POA. Vibration em 3,8 na subida… Deu até na Zero Hora no outro dia.

QUOTE(Rafaelguimaraes @ Mar 16 2009, 10:31 PM) * Olá, teve até um jornalista que estava a bordo e que decidiu publicar em seu blog. https://webmanario.wordpress.com/2009/03/11…ia-do-voo-1244/

Bird strike, vibration… enfim, era o público (sim, o público também apura/relata/analisa/difunde notícias) complementando uma informação que eu tinha dado aqui dias antes _mas porque estava dentro desse avião que, agora, era objeto de comentários. Óbvio que fiquei louco para saber o que significava uma vibration 3,8…

Entrei no fórum para dialogar com esse povo. É tudo o que eu sugiro para um jornalista: que corra atrás de sua audiência, tente entendê-la, seja próximo dela e, principalmente, leve suas observações em conta.

Descobri que o limite recomendado pelo fabricante da turbina do Boeing 737 é vibration 4,0 _ou seja, estivemos de fato à beira de um colapso (vibration é isso mesmo, a trepidação da peça). Mais: que o choque contra pássaros em aeroportos, que há tempos é assunto antigo, está ultrapassando a barreira do “eventualmente acontece” (de novo, área restrita aos cadastrados do fórum).

Segui pesquisando e encontrei a informação (devidamente compartilhada com o público) de que o aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, já estava usando aves predadoras _no caso, gaviões_ para espantar famílias de pássaros nos arredores. “Apesar de terem começado em aeroporto errado, é um avanço”, foi uma das respostas.

Soube ainda que grandes aeroportos no mundo têm departamento de biologia, que estuda o ecossistema e intervenções possíveis em casos concretos de ameaça à segurança aérea.

Daí o caldo da conversação engrossou.

QUOTE(Boeing737 @ Mar 17 2009, 05:44 PM) * Olá Alec, li seu relato e como profissional do meio achei um pouco sensacionalista como de costume, mas até entendo por se tratar de uma pessoa leiga no assunto.

Ponderei que “de leigo certamente, sensacionalista não. Eu estava dentro do avião. Não estou dizendo o que me contaram, mas o que vivenciei”. Logo, outro usuário voltaria à carga.

QUOTE(Lear_60 @ Mar 17 2009, 07:08 PM) * Desculpe, mas a sua afirmação não condiz em nada com o seu texto. A começar pelo título: “Jornalista até na hora da morte: a quase tragédia do voo 1244” No texto várias vezes o tom de drama não condiz com a sua afirmação de não ser sensacionalista, muito pelo contrário. É bastante compreensível que por não entender o que estava se passando, o medo e apreensão se fizessem presentes mas ao relatar os fatos, as palavras utilizadas e o tom em que o texto foi escrito é possível notar uma bela dose de sensacionalismo, pra Datena nenhum botar defeito.

Até de Datena (ou ainda melhor que ele) fui chamado!!! É nessa hora que há um conflito quase insuperável entre jornalista e cidadão. Afinal, se estava claro que o repórter era leigo, ficou nítido que o público, especialista em aeronaves, não sabia nada de jornalismo.

Confundiu-se uma crônica publicada num blog com uma notícia de jornal. Ou seja: para essa audiência, o simples fato de ser jornalista significava que um texto seu, qualquer texto seu, tinha o mesmo valor de uma notícia.

É um ruído tremendo, mas a interação que rolou antes disso paga qualquer prenda. Porém fica escancarado o abismo. E cabe a nós nos aproximarmos.

Por ora, a conversa a parou no comentário “Acho louvável a atitude de vir até um fórum como esse e pedir informações para entender o que se passou, mas escrever um texto como esse, só reforça a imagem que todos temos de que os profissionais do jornalismo adoram aumentar absurdamente os fatos envolvendo aviação.”

PS – Procurei a assessoria de imprensa da Gol que, burocrática, limitou-se a reenviar nota produzida sob demanda e se negou a prestar outros esclarecimentos sobre o voo 1244. É a imagem que se vê no início deste post.