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O crime da assessoria de imprensa

O que acontece quando a assessoria de imprensa veste a camisa além da conta? Crime.

Esse texto também foi um dos mais lidos em 2012.

Jornalista é acusada de fraude na bolsa de valores de SP

Vejam os sinais: em julho de 2011 a CVM (que regula o mercado de ações no Brasil) já observava movimentações atípicas com as negociações em bolsa da Mundial, modesta fabricante de alicates e talheres do sul do Brasil.

Agora, a revista Exame diz que investigação da Polícia Federal concluída em maio revelou do que se tratava: um plano para bombar artificialmente os papéis da companhia que incluía a participação de uma assessora de imprensa (só para assinantes da revista).

O papel da jornalista, segundo a PF, era essencial: a assessoria divulgava fatos não confirmados e promovia encontros da mídia com diretores da Mundial para propagandear a suposta ‘nova governança’ da empresa.

O trabalho de divulgação – além de outros macetes mais, digamos, de mercado – deu resultado. Agora, descoberta a fraude, é muito provável que a ação deixe de ser negociada.

Seu negócio vai mal? Contrata uma assessoria!

Quando o seu negócio vai mal, o que você faz? Muda procedimentos, busca ideias novas, troca pessoas?

Não! Você contrata uma empresa de relações públicas (as populares assessorias)!

Foi isso que a Associated Press (AP), a mais antiga agência de notícias em funcionamento, decidiu fazer.

Agora, sua marca será trabalhada pela Speed Communications, que tentará mostrar ao mundo a importância da velha escola de jornalismo.

É a saída fácil para qualquer crise. Resolve? Veremos.

Releasemania II, o ataque aos infográficos

Caiu do céu uma suíte para a discussão sobre “Releasemania”, que tivemos ontem: agora, as relações públicas (que alguns insistem em chamar de assessoria de imprensa) descobriram a infografia.

Já tem até quem mostre a maneira mais fácil de expor a sua mensagem usando pra isso a linguagem visual…

Etiquetando o jornalismo


Curti essa provocação de Tom Scott: e se a gente pusesse adesivos nas matérias publicadas pelos jornais (sugiro uma versão eletrônica pra aplicar nos on-lines) com advertências do tipo “a pesquisa apresentada neste texto foi fornecida por uma assessoria de imprensa” ou “o jornalista não entende do assunto que está escrevendo”, entre outros?

Scott chama a etiquetagem de “tornar mais segura a leitura dos jornais”.

Todos os dias estamos fortemente expostos a receber essas etiquetas e, pelas circunstâncias em que produzimos nossos produtos, que atire a primeira pedra quem nunca passou por isso.

Atirou?

O que as assessorias de imprensa querem com a gente?

O que as agências (nome contemporâneo para os escritórios que gerenciam marcas, produtos e carreiras) querem com a gente, os jornalistas?

Fundamentalmente, duas coisas: nossa agenda e rede de relacionamentos e a habilidade de escrever coisas o mais parecidas possível com um texto jornalístico.

A combinação dos dois elementos é explosiva: sim, as assessorias de imprensa estão cada vez mais emplacando textos ipsis litteris, em boa medida com a colaboração do jornalismo on-line _este ente enfermo, sucateado e desprezado, que por falta de mão de obra acaba, deliberadamente ou por ineficiência, refém dos releases nossos de cada dia.

Até nos Estados Unidos, onde o trabalho nas agências sempre foi coisa de relações públicas (e eu repito: pra mim, assessoria de imprensa é coisa de relações públicas mesmo), cresceu a quantidade de coleguinhas empregados no negócio.

Entre 1980 e agora, subiu em 60% o número de jornalistas que trabalham em assessorias de imprensa (ao mesmo tempo em que as redações enxugaram em 40% seus quadros).

A leitura clara é que os negócios, não as notícias, estão pautando o jornalismo.

A insuportável indignidade de ser repórter

John Carlin escreve um texto bastante forte (e direto) sobre o que ele chama de “a insuportável indignidade de ser jornalista”.

Basicamente é o desabafo de um repórter esportivo obrigado a conviver com milionários (os personagens das notícias, ou seja, jovens jogadores alçados de repente ao estrelato) e as dificuldades de entrevistá-los.

“A primeira exigência para ser um repórter é a persistência, virtude admirável condenada sempre a beirar a humilhação”.

Carlin descreve como nós, em busca de um entrevista, somos obrigados a esperar e suplicar (às vezes, rastejar). No caso de esportes, e ele detalha isso bem, é clara a distância entre jornalista e fonte _de fato, muitas vezes é mais difícil conversar com a nova estrelinha do futebol do que com o próprio presidente da República.

E há saída? “Vingar-se da profissão e virar assessor de imprensa de um clube ou encontrar a salvação na pré-aposentadoria jornalística do escritor de colunas opinativas”, receita.

Hilário, ao mesmo tempo triste, mas absolutamente verdadeiro.

O avião, um urubu e fragmentos de conversação com o público

A lacônica nota da Gol, que se recusou a prestar mais esclarecimentos

A lacônica nota da Gol, que se recusou a prestar mais esclarecimentos

O incidente do urubu tragado pela turbina esquerda do Boeing 737 que operava no dia 10 de março de 2009 o voo Gol 1244, entre Congonhas e Porto Alegre, voltou a bater em minha porta.

Agora porque a crônica na qual relatei a quase tragédia foi parar num fórum de discussão de pilotos, aeronautas, aeroportuários e simpatizantes (atenção: só para cadastrados, mas se você gosta do assunto e quer monitorar ou trocar informações com insiders, vale bem a pena).

Foi uma terça-feira (esta, como aquela) bem agitada por conta disso, quando mais uma vez vivenciei de forma prática e presencial que esse papo de era da conversação sobre o qual tanto tenho conversado com colegas e alunos está longe de ser algo a longo prazo _pelo contrário, já é real e transcorre diariamente diante de nossos olhos.

Recapitulando: notei uma afluência grande de tráfego ao Webmanário vinda do tal fórum. Lá, encontrei duas mensagens que diziam respeito diretamente a mim.

QUOTE(pilot81 @ Mar 16 2009, 09:31 AM) * Semana passada(terça feira) eu estava de extra para POA e tivemos um bird strike na dep. em CGH. Após varias orbitas o cmte. optou por prosseguir ao destino. O avião passou o dia inteiro em manutenção em POA. Vibration em 3,8 na subida… Deu até na Zero Hora no outro dia.

QUOTE(Rafaelguimaraes @ Mar 16 2009, 10:31 PM) * Olá, teve até um jornalista que estava a bordo e que decidiu publicar em seu blog. https://webmanario.wordpress.com/2009/03/11…ia-do-voo-1244/

Bird strike, vibration… enfim, era o público (sim, o público também apura/relata/analisa/difunde notícias) complementando uma informação que eu tinha dado aqui dias antes _mas porque estava dentro desse avião que, agora, era objeto de comentários. Óbvio que fiquei louco para saber o que significava uma vibration 3,8…

Entrei no fórum para dialogar com esse povo. É tudo o que eu sugiro para um jornalista: que corra atrás de sua audiência, tente entendê-la, seja próximo dela e, principalmente, leve suas observações em conta.

Descobri que o limite recomendado pelo fabricante da turbina do Boeing 737 é vibration 4,0 _ou seja, estivemos de fato à beira de um colapso (vibration é isso mesmo, a trepidação da peça). Mais: que o choque contra pássaros em aeroportos, que há tempos é assunto antigo, está ultrapassando a barreira do “eventualmente acontece” (de novo, área restrita aos cadastrados do fórum).

Segui pesquisando e encontrei a informação (devidamente compartilhada com o público) de que o aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, já estava usando aves predadoras _no caso, gaviões_ para espantar famílias de pássaros nos arredores. “Apesar de terem começado em aeroporto errado, é um avanço”, foi uma das respostas.

Soube ainda que grandes aeroportos no mundo têm departamento de biologia, que estuda o ecossistema e intervenções possíveis em casos concretos de ameaça à segurança aérea.

Daí o caldo da conversação engrossou.

QUOTE(Boeing737 @ Mar 17 2009, 05:44 PM) * Olá Alec, li seu relato e como profissional do meio achei um pouco sensacionalista como de costume, mas até entendo por se tratar de uma pessoa leiga no assunto.

Ponderei que “de leigo certamente, sensacionalista não. Eu estava dentro do avião. Não estou dizendo o que me contaram, mas o que vivenciei”. Logo, outro usuário voltaria à carga.

QUOTE(Lear_60 @ Mar 17 2009, 07:08 PM) * Desculpe, mas a sua afirmação não condiz em nada com o seu texto. A começar pelo título: “Jornalista até na hora da morte: a quase tragédia do voo 1244” No texto várias vezes o tom de drama não condiz com a sua afirmação de não ser sensacionalista, muito pelo contrário. É bastante compreensível que por não entender o que estava se passando, o medo e apreensão se fizessem presentes mas ao relatar os fatos, as palavras utilizadas e o tom em que o texto foi escrito é possível notar uma bela dose de sensacionalismo, pra Datena nenhum botar defeito.

Até de Datena (ou ainda melhor que ele) fui chamado!!! É nessa hora que há um conflito quase insuperável entre jornalista e cidadão. Afinal, se estava claro que o repórter era leigo, ficou nítido que o público, especialista em aeronaves, não sabia nada de jornalismo.

Confundiu-se uma crônica publicada num blog com uma notícia de jornal. Ou seja: para essa audiência, o simples fato de ser jornalista significava que um texto seu, qualquer texto seu, tinha o mesmo valor de uma notícia.

É um ruído tremendo, mas a interação que rolou antes disso paga qualquer prenda. Porém fica escancarado o abismo. E cabe a nós nos aproximarmos.

Por ora, a conversa a parou no comentário “Acho louvável a atitude de vir até um fórum como esse e pedir informações para entender o que se passou, mas escrever um texto como esse, só reforça a imagem que todos temos de que os profissionais do jornalismo adoram aumentar absurdamente os fatos envolvendo aviação.”

PS – Procurei a assessoria de imprensa da Gol que, burocrática, limitou-se a reenviar nota produzida sob demanda e se negou a prestar outros esclarecimentos sobre o voo 1244. É a imagem que se vê no início deste post.

Agora me diz: assessoria de imprensa é jornalismo?

Os planos da Secretaria de Comunicação da Presidência da República para a agência CDN, ganhadora de licitação da conta de assessoria de comunicação do órgão, evidenciam claramente como o trabalho tem tudo a ver com relações públicas _e quase nada de afinidade com jornalismo.

É uma discussão que venho travando aqui (e em outras frentes) há tempos, não para menosprezar o trabalho das assessorias, mas sim para colocá-las em seu devido lugar. É trabalho de relações públicas e acabou.

No caso da Secom, as palavras de seu subchefe-executivo, Ottoni Fernandes Júnior, não dão margem a dúvida. O que a secretaria pretende é que a CDN mostre ao mundo “um Brasil verdadeiro, “um país com economia forte, com as contas em ordem, um país continental, democrático, institucionalizado e preocupado com a inclusão social”.

“Vamos mostrar que neste momento o Brasil está bem preparado para enfrentar uma crise externa, porque tomou medidas corretivas que também deverão ser tomadas por países desenvolvidos. O Brasil está com a casa em ordem. Enquanto os outros têm que tomar medidas conjunturais, nós já o fizemos. É isso que queremos mostrar, que já fizemos a lição de casa”, diz Ottoni.

Alguma dúvida sobre a natureza do trabalho? É jornalismo?

ATUALIZAÇÃO: A Carol Rocha mandou, aí na caixa de comentários, um link com um texto bem bacana que fala precisamente sobre o assunto. Vale a pena ler. No Escrevinhamentos, Victor Barone dialoga com Ricardo Kotscho e chega a conclusões parecidas com as minhas.

A culpa é da assessoria

A inclemência da indústria jornalística empurrou milhares de coleguinhas rumo às assessorias de imprensa, onde _costuma-se dizer nos bastidores da profissão_, é bem mais fácil trabalhar. Há os momentos de pressão e hora extra, claro. Mas, no geral, navega-se por um mar de rosas.

Muitas vezes me perguntam o que eu acho. É, sobre o trabalho em assessoria de imprensa. Eu acho que, se tivesse de contratar um profissional para exercer tarefa do tipo, escolheria um relações públicas com alguma noção em jornalismo. É esse o perfil básico, creio.

O Comunique-se mostrou um blog que tenta desvendar um pouco esse mundo. E o Novo em Folha também debate o assunto.