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O Spotlight britânico

‘Attacking the Devil’ (disponível na Netflix) é uma espécie de Spotlight britânico. O documentário reconstrói a primeira grande campanha de um jornal do Reino Unido, liderada pelo editor Harry Evans, que revelou a barbárie provocada pela prescrição de medicamentos a base de talidomida, outro triste legado do nazismo.

Evans colocou à disposição do assunto a equipe Insight, editoria de investigação do Sunday Times (ainda hoje o jornal mais vendido do país), para expor ao público os horrores da má-formação de crianças cujas mães se submeteram a tratamentos com o uso da talidomida – então prescrita como ‘milagrosa’ contra os enjoos das primeiras semanas de gravidez.

Disclaimer: Evans é, ele próprio, uma das vítimas (sua filha foi afetada pela substância).

O trabalho do grupo de jornalistas desafiou a justiça britânica, que havia colocado o tema em sigilo – o que impedia, na prática, sua divulgação pelos jornais – e evidentemente chocou a Grã-Bretanha, jogando luz nos procedimentos nada íntegros da indústria farmacêutica.

A propósito, a editoria Insight existe até hoje, colecionando outros grandes furos no currículo.

Redes sociais e descompromisso com a acuração

A história que nos conta meu duplo colega Alvaro Liuzzi é frequente nas redes sociais: “informação” distribuída sem critério algum e que acaba virando verdade.

No caso, uma foto (abaixo) de Jorge Mario Bergoglio dando a comunhão ao ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla. Há um detalhe que salta aos olhos logo de cara: a idade dos personagens. Nos anos 70, o agora Papa Francisco tinha por volta de 40 anos – claramente o padre que aparece na imagem é uma figura mais velha (outra coisa, dar a hóstia é uma obrigação clerical, não?).

A apuração, até a descoberta da verdade, rolou pelo Twitter num interessante exemplo de “apuração distribuída” que Liuzzi trouxe a público.
Former Argentine military dictator Jorge

Manual para checar informação no Twitter

Além do bom e velho telefone (métodos avançados de jornalismo investigativo…), há uma série de critérios para se checar a procedência e a veracidade de informações que circulam no Twitter.

Aqui há uma boa dúzia deles!

O massacre da escola e o fetiche da velocidade

O “jornalismo formal” costuma apontar o dedo para as redes sociais como um exemplo de falta de acuração e cuidado com a informação. Claro, acuração e cuidado com a informação são apanágios do “jornalismo formal”.

Daí um rapaz de 24 anos que teve toda a família assassinada pelo irmão mais novo (também morto) é apresentado pela mídia tradicional como sendo o assassino.

Definitivamente estamos caminhando com muita pressa. Esse fetiche da velocidade foi extraordinariamente dissecado na tese de mestrado que Sylvia Moretzsohn defendeu na UFF em 2000.

“Antes de mais nada a informação deve ser rápida para ser considerada eficiente. A velocidade, portanto, parece ganhar vida própria, e passa a ser o valor fundamental a ser consumido”, escreve a pesquisadora.

E isso agora é pra todo o sempre. Um ônus que o jornalismo em tempo real impôs aos nosso tempo. E que vale inclusive para a rede social.

Jornalista que entrevista jornalista

Ainda ontem falei sobre uma categoria de jornalista, aquele que não gosta de notícia, e acabei me lembrando de outra tão ruim quanto: o jornalista que entrevista jornalista.

De novo, tenho de citar o exemplo o esporte e as criativas intervenções travestidas de apuração exclusiva de um mesmo veículo que, em seu momento, coloca o jogador Neymar em clubes distintos.

Repare como surgem nomes de outros repórteres no meio de um dos textos, evidenciando que a “apuração”, na verdade, não passa de fofoca não fundamentada.

Ora, se a matéria-prima principal do jornalismo é a informação exclusiva, me diga você o que uma conversa com um jornalista irá acrescentar do ponto de vista do que já foi publicado. Pois é, nada.

Esqueça que existe gente como você. Jornalista não é fonte.

A revolução que o WikiLeaks não fez

Interessante o artigo de David Carr publicado originalmente no New York Times e reproduzido por jornais brasileiros ontem.

Não é verdadeira a percepção que de que a tática dos vazamentos empregado pelo site de Julian Assange seja uma revolução jornalística.

“Com o tempo, o fundador do site começou a compreender que o que norteia a cobertura dos eventos é a escassez e não a abundância”, escreveu Carr, um especialista em novas mídias e as mudanças que o avanço da tecnologia está trazendo ao jornalismo.

Há duas semana, num podcast, também falei um pouco sobre o modus operandi do WikiLeaks e saudei a união do que existe de melhor na nova mídia, justamente sua velocidade, com o melhor dos meios tradicionais, credibilidade e critério de edição.

Mas Carr agora põe os pingos nos is.

O enviesado conceito de off no jornalismo brasileiro

Tenho ouvido com bastante frequência, até por desempenhar, no momento, outras funções na redação, expressões como “a gente não consegue ninguém falando em off sobre o assunto?” ou “ninguém publicou nem mesmo uma confirmação em off”.

É aquela velha confusão do jornalismo brasileiro, que põe no mesmo balaio a publicação de informações sem atribuição de fonte (chamada por aqui equivocadamente de off) e informações para uso interno da redação (o conceito real de off).

O off nada é mais é do que um indicativo, uma pista que determinada fonte dá para que o jornalista avalie se uma investigação vale a pena _ou, ainda, que confirme ou complemente uma apuração em curso.

Ricardo A. Setti já falava sobre o tema em 2004, num excelente artigo para o Observatório da Imprensa.

No entanto, para nós, jornalistas brasileiros, off é tudo aquilo que publicamos sem identificar a procedência. Simples assim.