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A jurássica Associated Press

Volta e meia eu falo deste tema, mas a reação de algumas empresas jurássicas como a Associated Press (uma cooperativa de produção de notícias mantida há 163 anos por tradicionais jornais, rádios e emissoras de tv dos Estados Unidos) me impede de esquecê-lo.

A AP voltou à carga agora contra a própria essência da web: está perseguindo sites que simplesmente linkam para suas matérias. Tenebroso, anacrônico e ignorante.

O Columbia Journalism Review reúne opiniões sensatas sobre mais essa ofensiva desprovida de inteligência.

Armados com lei de 1918, tubarões caçam amadores

A Associated Press levou, há 91 anos, um concorrente que cozinhava seu conteúdo aos tribunais nos EUA.

Cooperativa mantida por jornais, tvs e rádios do país, a AP se sentiu ameaçada em 1918 pela INS (International News Service), agência de notícias rival de propriedade do magnata William Randolph Hearst _quem inspirou o clássico Cidadão Kane.

A I Guerra Mundial se desenrolava na Europa, e a AP tinha a primazia sobre a informação (não era permitido à INS, que não possuía o carimbo de agência “confiável”, o acesso ao teatro de operações do conflito).

Fato é que a rival da AP conseguia cobrir a guerra por meio de uma sistemática que nunca foi devidamente explicada _aparentemente, emissários de Hearst obtiam simultaneamente, por meio de suborno, as reportagens da AP e, via telégrafo, as transmitiam para seus assinantes, devidamente reescritas.

A estratégia garantiu aos jornais que assinavam os serviços da INS vários furos, notadamente os da costa oeste dos Estados Unidos, quatro horas de fuso atrás de Nova York _e onde a adesão à AP era menor.

A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos criou a “doutrina da notícia quente”, pela qual grandes grupos, como a AP, detinham o direito de legal de exclusividade sobre as coberturas em que seus concorrentes não conseguissem “apuração independente e checagem”.

Isso em 1918.

Agora, e pelo mesmo motivo, a NBA foi atrás de um site que exibia resultados de jogos da liga de basquete dos EUA em tempo real (sem credencial para acompanhar as partidas in loco), e agências de notícias como a mesma AP caçam agregadores de conteúdos e feeds.

Ainda em há, em alguns Estados americanos (a lei deixou de ser federal), a “doutrina da notícia quente”. É por meio dela que alguns grupos do mainstream têm caçado profissionais e, sobretudo, amadores.

Porém eles não fazem como a INS, que não citava a AP como fonte (despacho do juiz há 91 anos considerava que, houvesse a referência, o delito seria atenuado).

O que é um agregador de feeds senão uma vitrine explícita para o conteúdo ali exibido (uma coleção de links)?

Em tempo: até onde sei, a mais recente demanda judicial de empresonas contra bagrinhos é esta. Patético.

Finado em papel, jornal morre também na internet

Lembram do Rocky Mountain News, o jornal cujo fim acompanhamos praticamente ao vivo aqui, em 26 de fevereiro?

Pois ele morreu uma segunda vez, agora na web.

É assim: um grupo de 30 ex-funcionários do diário da cidade norte-americana de Denver se reuniu em torno de veículo on-line criado para manter vivo o espírito do jornal, que ontem completou 150 anos.

A proposta do InDenverTimes era cobrar US$ 5 mensais de uma carteira de clientes estimada em 50 mil pessoas para tornar o negócio viável.

Como todo mundo que aposta em conteúdo noticioso generalista pago na internet, o InDenverTimes fracassou: reuniu só 3 mil assinantes, número insuficiente para bancar parte do espólio funcional do finado Rocky em papel.

A culpa é das agências de notícias?

Essa é, disparado, a justificativa mais original que já li para a crise dos jornais impressos nos Estados Unidos. Para Paul Farhi (que é repórter do Washington Post), a culpa é da Associated Press, a boa e velha AP, mais antiga agência de notícias do mundo.

O raciocínio, exibido na American Journalism Review, é simples: ao vender seu serviço para portais on-line, a AP matou os impressos. O autor chega a perguntar “porque comprar uma cópia do New York Times se a versão da AP para assuntos nacionais e internacionais já foi distribuída em toda parte” _como se um jornal se resumisse a textos pasteurizados de agências.

A conclusão é que a AP deveria “ter ficado com a família” e se mantido fiel a jornais, tvs e rádios parceiros de longa data.

O texto é longo, mas tem o mérito de analisar o modelo de negócio dos portais e também das agências noticiosas, que hoje distribuem de graça seu conteúdo em sites próprios mas incrivelmente conseguem ser remuneradas pelos veículos que usam seu material.

É um caso raro e que merecerá a nossa atenção em breve.

Por economia, jornal abre mão de agência de notícias

O uso do conteúdo de agência de notícias sempre foi uma forma de jornais pequenos garantirem o fechamento de suas páginas, ainda que com material pasteurizado, não personalizado, produzido em série.

Há milhares de publicações no mundo que simplesmente não ficariam prontas diariamente não fossem os despachos de Associated Press, Reuters, France Presse e EFE, apenas para citar as quatro mais importantes.

Agora, estes mesmos jornais estão simplesmente cancelando seus contratos com as agências. É um novo sintoma da crise no jornalismo impresso nos Estados Unidos.

Foi o caso do gratuito Metro, que nos EUA publica edições em Nova York, Boston e Filadélfia e abriu mão do acordo com AP, que manda neste mercado no país. Na lógica da operação, o futuro da publicação está diretamente ligado a sua capacidade de produzir conteúdo original _ainda que a redação, minúscula (no ano passado, com queda de 30% no faturamento publicitário, 27 pessoas foram demitidas).

O Metro americano seguirá utilizando matérias de mais de 100 edições da empresa pelo mundo (inclusive o Brasil), além de conteúdo de Reuters e Bloomberg.

A crise econômica chega ao jornalismo

A crise econômica bateu à porta da indústria jornalística, como era de se esperar. No exterior, num cenário em que cortes de pessoal (os famosos passaralhos) já vinham acontecendo nos Estados Unidos, a agência de notícias Associated Press, a mais antiga do mundo (tem 162 anos), anunciou um corte de 10% em suas redações.

A AP abriga mais de 4 mil jornalistas (entre editores, repórteres e fotógrafos). A medida de contenção de despesas, portanto, deverá atingir pelo menos 400 deles. Em 2008, a empresa já tinha adotado a estratégia de congelar vagas. Não resolveu.

O problema de uma agência deste porte balançar é que suas matérias ajudar a encher páginas e mais páginas de pequenos jornais espalhados pelo mundo. Com menos material sendo produzido via agências, naturalmente o caminho destes veículos é diminuir de tamanho _e dispensar mais gente, num trágico efeito dominó.

No Brasil, os principais meios de comunicação ainda não partiram para as demissões coletivas como forma de encarar a provável redução de faturamento. Por ora, o que tem acontecido é um recrudescimento da fiscalização rigorosa sobre os gastos da redação, como viagens ou uso de veículos. Espera-se mais.

A antropologia disseca o interesse por notícias

Um estudo antropológico é o último grito no jornalismo, papel ou on-line. Financiado pela agência de notícias AP, detectou algumas características do consumidor típico de notícias de hoje em dia.

Questiono apenas o pequeno universo (18 homens e mulheres) e a nítida sensação de que todos são geeks _um deles, inclusive, diagrama o andamento dos acontecimentos numa lousa em seu escritório.

O relatório divide o noticiário em quatro fatias: Fatos, Atualizações, Entenda o Caso (“Back Story”) e Conseqüências (ou “Future Story”). E decreta: há que se entregar as notícias nos canais usados pelo público.

No caso da Internet, basicamente e-mail e redes sociais. “As notícias são moeda corrente”, afirma categoricamente o documento. Resumindo: notícias que possam ser usadas pelas pessoas fazem mais sucesso, e esse uso varia do compartilhamento puro e simples de “coisas legais” a divagações ou investigações sobre o noticiário.

Outra observação bacana dessa pesquisa é o indício de uma “fadiga noticiosa”. Os usuários têm sido tão bombardeados com informação que programas que ironizam o acontecimentos (humorísticos com viés jornalístico) viraram uma válvula de escape.

O estudo sugere ainda que o modus operandi de editorias como Esportes e Variedades deveriam servir de modelo para todas as outras. Histórias com começo, meio e fim (enfim, quem ganhou jogo, ou se esse filme é bom), previsões, contextualização.

Fotos que mudaram o mundo

O Horror da Guerra 1

Rolou na quarta, mas só fiquei sabendo hoje: morreu Philip Jones Griffiths, aos 72 anos, de câncer. Lambe-lambes de luto.

Também, o cara foi “o” fotógrafo. Sua cobertura da Guerra do Vietnã para a agência Magnum ajudou a mudar os rumos do conflito quando expôs na cara dos americanos as atrocidades que estavam sendo cometidas do outro lado do mundo.

Mas a minha imagem predileta do conflito vietnamita no qual os EUA meteram indevidamente o bedelho é essa aí de baixo, feita por Eddie Adams para a AP. Há um documentário em que ele conta o horror da execução (com direito à cena completa, que também foi filmada) a sangue frio perpetrada pelo chefe da Polícia Nacional do Vietnã do Sul, Nguyen Ngoc Loan.

O Horror da Guerra 2