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O cara que errou todas as previsões sobre a internet

Descobri um ancestral de Andrew Keen, ex-enfant terrible da web e seu maior crítico da atualidade (mas que cansou e, em boa medida, aderiu ao que criticava).

Trata-se do astrônomo Clifford Stoll, autor do livro Silicon Snake Oil, que em 1995 destruía a web com observações do tipo “o e-commerce é uma bobagem e jamais vai funcionar” ou “nenhuma base de dados on-line vai substituir o jornal diário”.

É simplesmente imperdível o artigo que publicou no mesmo ano na Newsweek apresentando suas ideias. Uma coleção de coisas que se concretizariam mediante os olhos do cético Stoll.

“Agora Nicholas Negroponte, diretor do laboratório de mídia do MIT, prevê que logo compraremos livros e jornais diretamente na internet. Uh, claro”, hahahhahha, sensacional.

E na vida real, para que servem as redes sociais?

Até que ponto uma manifestação nascida na web, mais especificamente em redes sociais, tem o poder de alterar a vida real?

É uma questão crucial para gente, como eu, que aposta todas as fichas na capacidade da internet de interligar pessoas e provocar transformações de verdade.

Hoje incorporo, mais uma vez, Andrew Keen (claro, sempre ele) para lançar uma provocação sobre essa pretensão. Keen lembra da avalanche de protestos virtuais _notadamente via microblog e sites de relacionamento como o Facebook_ após a polêmica reeleição de Mahmoud Ahmadinejad para mais um mandato presidencial no Irã.

O que sobrou daquele barulho todo? “O patético simbolismo de avatares tingidos de verde no Twitter e um grupo de oposicionistas ocidentais que insiste em manter ‘Teerã’ como sua localização no perfil do site”, ataca.

Eu acrescento ainda a mobilização virtual por conta do golpe em Honduras. Enquanto no microblog as discussões pegam fogo claramente com a premissa de que se está denunciando a ilegalidade ao mundo, o movimento que apeou Manuel Zelaya do poder completa, em dias, dois meses. Impávido como Muhammad Ali.

Evidente que a pequena reflexão de Keen, como lhe é hábito, exclui do campo de visão o extraordinário incremento que as redes sociais, e a era da publicação pessoal, deram à difusão e a interpretação da informação. Sem contar que a web é, sob qualquer métrica, o meio de comunicação mais eficiente da história da humanidade para mobilizar e organizar pessoas.

Enquanto isso, nós aqui achando que colocar o #forasarney no Trending Topics do Twitter nos dará alguma reputação e notoriedade. E Sarney inaugurando site pago com dinheiro público para se defender.

Só a constatação, para diminuir um pouco nossa empolgação, de que não se pode chamar de revolucionário quem, efetivamente, ainda não fez uma revolução de carne e osso.

“Não é possível dar um google em tudo e achar que assim se está informado”, diz Gay Talese

Em entrevista a Sylvia Colombo publicada neste sábado pela Folha de S.Paulo (só para assinantes), Gay Talese, 77 anos admite que fala “como um velho da profissão”.

Expoente do new journalism (movimento que empurrou a não ficção em direção à literatura), Talese diz que os jornais ajudaram o valor-noticia a despencar para zero ao liberarem seus conteúdos on-line. “É preciso cobrar pelo que se publica. Porque se trata de uma tentativa de encontrar a verdade necessária para a sociedade, e que tem um preço”.

O escritor se esquece que o conteúdo, agora, não é distribuído apenas por quem o produz. Ele é compartilhado na rede. Pelo seu próprio público. A cada dia mais rápido e por mais canais. É uma situação que não se pode mais deter. Se você não o disponibiliza sem ônus, alguém o fará.

Mas Talese (autor de célebres reportagens travestidas de obras literárias) mostrou conhecer muito bem a noção de filtragem, fundamental nestes tempos de informação tão abundante. “Não é possível dar um google em tudo e achar que assim se está informado. A internet está cheia de lixo”, afirma, com razão, ainda que a frase pareça da lavra de Andrew Keen, o ex-crítico número um da web.

Mas como, então, evitar o gradual desinteresse do público pelas publicações impressas? “Não sei”, encerra Talese.

Depois dos amadores, Andrew Keen investe contra o Google

Andrew Keen, uma das poucas vozes contrárias à colaboração, à inteligência coletiva e à livre troca de arquivos na Web, deu uma pista sobre seu novo livro.

O primeiro, “The Cult of the Amateur“, se transformou num clássico da contracorrente (e também do mau humor), criticado até as últimas consequências pelos entusiastas do livre conhecimento.

Agora, se levar adiante o que propôs (que pode, logicamente, ser uma grande brincadeira ou jamais vingar), Keen vai tocar numa ferida tão grande quanto: depois da produção da Internet, seu maior expoente, o Google.

Sua tese é “quanto mais o Google mata a indústria editorial tradicional com o conteúdo gratuito que vem de sua máquina de busca, mais livros serão escritos sobre o papel central do Google em nossa nova economia digital”.

Diz ele que ideia surgir após dois recentes lançamentos que têm o gigante da Web como protagonista. “What Would Google Do?“, de Jeff Jarvis, considera a empresa a única que mostrou competência para sobreviver na era digital _e tenta transportar seu modelo de negócios para todas as atividades profissionais.´

Elsewhere USA“, de Dalton Conley, mostra uma imagem quase religiosa do Google, um lugar onde os funcionários “comem, dormem, se socializam e se divertem”.

Agora, diz Keen, só falta achar um editor que o pague para escrever um obituário de 65 mil caracteres sobre o próprio negócio deles…

A diferença entre negócio na Internet e o negócio Internet

Você já conhece o roteiro: um negócio tradicional dominado por grandes grupos que, diante da diminuição de sua relevância em virtude das novos hábitos de consumo, precisa de um defensor público. A quem ele recorre?

Andrew Keen, claro. O enfant terrible da Internet sempre terá uma palavra de conforto para velhos e refratários empresários que insistem em morrer abraçados a antigas estratégias.

Pois Keen foi a estrela de um debate promovido pela The Book Seller, entidade patronal que reúne editores da Grã-Bretanha. Sua missão: descascar o conteúdo gratuito (tendência irreversível da Internet) e conclamar os publishers a “lutar contra a tirania do grátis na Web”.

O bacana: Keen admitiu que “o negócio do conteúdo está em crise”, traçando um paralelo com os jornais impressos e com a indústria fonográfica. Porém ele enxerga um panorama apenas temporário, garantindo que “na próxima encarnação” o conteúdo pago voltará com força total porque, afinal, “o futuro é dos experts”.

Todos vocês sabem que tenho profunda admiração por Keen desde o ótimo “The Cult of the Amateur” (com tradução prometida em breve para o português), mas esse tipo de comentário é uma pisada na bola monstruosa.

Primeiro que pagar não significa necessariamente um triunfo do expert. Pelo contrário, há toneladas de conteúdo gratuito na Internet (vide, só para começar a conversa, material licenciado sob a chancela do Creative Commons) de qualidade.

Toda a questão gira em torno da seguinte indagação: pagar para quê?

Entendo que o grosso do conteúdo na Web será absolutamente de graça. Pagaremos, e com prazer, àqueles que, em seu rol de serviços sem ônus, oferecem um plus que, justificadamente, mereça o investimento de algumas moedas.

Paralelamente (e para que os editores fiquem ainda mais aliviados), empresas como a Amazon seguirão vendendo (isso mesmo, entregando a troco de dinheiro) livros físicos para os milhões (oxalá bilhões) de pessoas deste mundo.

A questão é não confundir um negócio na Internet com o negócio Internet.

Só tem lixo na Internet

O Brasil já tem o seu Andrew Keen: é Diogo Mainardi, colaborador da revista Veja, que em sua coluna desta semana teceu comentários bastante críticos à Web.

Keen é o único cara que teve coragem suficiente para escrever um livro desencando a festejada ascensão do amador na rede. Para ele, o compartilhamento (seja de fotos, vídeos, textos etc) é uma faceta grotesca da falta de qualidade da produção do ser humano.

Para Keen, ou reserva-se a tarefa de fazer música, jornalismo, fotografia, vídeo, enfim, seja lá o que for, a profissionais, ou o mundo vai encarar uma crise de valores séria e sem volta.

O texto de Mainardi é bacana porque passeia justamente sobre a inépcia dos amadores. Não quando produz, mas também quando consome conteúdo.

“A internet é isso: um monte de maus leitores dotados de más idéias que cismam em interagir com maus autores. É o território dos opinionistas que opinam sobre a opinionice de outros opinionistas”, escreve ele.

O ponto de partida de sua revolta foram duas das notícias mais lidas da semana passada na Internet: que Sabrina Sato desistiu de tirar sua pintinha da testa e que Débora Secco chorou num programa de auditório. 

Ponto final

O The New York Times relata o fim da edição impressa do The Capital Times, de Madison (Wisconsin), após 90 anos.

O periódico seguirá on-line. E bem pobremente, pelo que se supõe olhando sua confusa home page.

E segue a vigília da morte dos jornais que a Advertising Age está “cobrindo”.

Andrew Keen analisa hoje, no The Guardian, a “espiral de morte” dos jornais, como definiu. E diz que a culpa é nossa, inclusive da própria imprensa.

A Wikipedia, quem diria, será impressa

Repito: a Wikipedia, quem diria, será impressa.

O projeto que popularizou a plataforma wiki ganhará, na Alemanha, uma versão em papel. Quem está por trás disso é a gigante Bertelsmann (dona, por exemplo, da gravadora Sony BMG).

Problema número um: os 740 mil artigos que hoje a Wikipedia alemã abriga caberiam não em uma, mas em centenas de versões em papel. “Não seria um projeto adequado levando-se em conta o mercado do livro na Alemanha”, reconheceu Beate Varnhorn, editora-chefe da Bertelsmann.

A opção foi por uma espécie de “livro do ano” com os 50 mil verbetes mais acessados on-line _mesmo assim, consumiu 992 páginas.

Problema número dois: isso significou a inclusão de termos como “Carla Bruni” e “Nintendo Wii“, entre outras irrelevâncias (por sorte, num limite de 10 linhas).

Todo mundo sabe que Jimmy Wales toca sua Wikipedia com base em crowdsourcing e doações, muito mais o primeiro. O acordo com a editora alemã lhe renderá US$ 1,59 por cópia vendida (a US$ 31,80 cada).

Problemas número três, quatro, cinco, seis…: ao ser congelada numa edição em papel, a Wikipedia deixa de ser wiki. Wiki é mais do que o produto de Wales, é um conceito de colaboração cuja plataforma permite a edição constante de textos, e por várias pessoas, e por todo o sempre.

Sim, existem termos congelados já na web, mas são casos específicos como os de George W. Bush (note o cadeado no canto superior direito), vítima preferencial de ativistas, vândalos ou desocupados _já incluíram em seu verbete na enciclopédia on-line até uma foto do Cramulhão.

Andrew Keen, o defensor-mor das grandes corporações (“da excelência das grandes corporações”, certamente me corrigiria ele), viu vantagens no acordo: entregaram um produto amador _em breve falarei sobre episódios de analfabetismo, censura e privilégios perpetrados pelos voluntários que administram as Wikipedia pelo mundo_ nas mãos de profissionais.

Sim, os verbetes escritos pela “ex-audiência“, por mais desimportantes que sejam, passarão pelo crivo de editores da Bertelsmann (vernáculo e veracidade das informações são checados e corrigidos).

Daí que a participação da “ex-audiência” será lembrada apenas como responsável por ter colocado Carla Bruni numa enciclopédia em papel.

Os malfadados blogs

Tenho profunda ojeriza à palavra blog. Não exatamente à palavra, mas ao que ela foi reduzida pelas instituições e pessoas que enxergam ali apenas um palco para exibir e expressar seu brilhante pensamento vivo, deixando de lado todos os preceitos que norteiam a plataforma (a não ser, por impedimento técnico, a ordem cronológica inversa de publicação, item que por si só não basta para que se ganhe o carimbo).

Uma pesquisa divulgada ontem vai exatamente ao encontro do que eu estou falando. A Ball State University rastreou as patacoadas autodenominadas blogs de 360 jornais norte-americanos. E o resultado, pífio, revela que a presença na Internet por meio desse modelo se deu basicamente por causa de modismo.

É aquele fenômeno sobre o qual já discorri outro dia (“ei, alguém falou que isso é bacana, precisamos ter isso urgente!”).

Além de ignorância sobre suas potencialidades, os jornalistas que assumiram blogs nos veículos analisados também demonstraram desprezo à participação do usuário (80% jamais responderam a indagações de seus leitores _que mesmo assim, em 60% dos casos, reincidiram em seus comentários).

O levantamento apontou ainda que nada menos do que um quarto dos blogs foram atualizados de forma deficiente ou simplesmente seus responsáveis nunca mais foram vistos on-line.

Não duvido que os dados da pesquisa de Ball State com jornalistas políticos inseridos no mainstream se enquadrem perfeitamente numa fatia bem considerável de toda a blogosfera.

O Technorati, maior ferramenta rastreadora de posts, diz que existem hoje 113 milhões de blogs no mundo (120 mil são criados por dia, ou 1,4 por minuto). Porém cerca de 50% são logo abandonados (e olha que, nesse critério, o Technorati é bem benevolente: considera “ativo” um blog que tenha sido atualizado pelo menos uma vez em 90 dias, o que é uma catástrofe sob qualquer ponto de vista).

Não por acaso essa avalanche de descaso deleita o polêmico Andrew Keen, autor do irascível “The Cult of the Amateur” (livro-referência sobre a participação da “ex-audiência” na sociedade atual).