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Cadê o jornalismo preventivo?

Jeff Jarvis, professor de jornalismo da Universidade de Nova York, presenciou em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial, um sinistro embate entre cabeças coroadas dos jornalões globais e figurões da economia. O tema: por que não fomos (jornalistas e economistas) capazes de prever o dilúvio?

Há licenças poéticas: o assunto subprime (grosso modo, a hipoteca da hipoteca) está presente há anos no vocabulário da imprensa mundial, e previsões pessimistas já pululavam bem antes de água bater na… bem, você sabe onde [essa eu empresto descaradamente de Ancelmo Gois].

Houve coisas interessantes na conversa na Suíça. Como a lembrança que a discussão de verdade era “como algumas empresas valem tanto?” ou “como desempregados conseguem empréstimos?” Ver o tamanho do rombo do descaminho é muito mais fácil que questionar seu avanço antes, degrau a degrau.

Ao definir a profissão, Jarvis manda um “Nosso trabalho é descobrir o que as pessoas não querem nos contar”, tão bom quanto “A gente é a mosca na sopa”, a que tantas vezes eu recorro no exercício do jornalismo.

Nunca no horário das refeições

Lembra que, por decreto, o senado da Romênia aprovou uma porcentagem de “notícias positivas” que deveria ser obedecido pelas TVs e rádios do país? Pois bem, a sandice agora chegou ao Brasil.

Foi apresentado na terça-feira, em Brasília, o Projeto de Lei 4220/2008, de autoria do deputado Clodovil Hernandes (PR-SP) _quarto mais votado da atual legislatura, com 493.951 votos no pleito de 2006_ que versa sobre “restrições à exibição de imagens e notícias violentas pelas emissoras de televisão durante os horários das refeições”.

O furo é da coluna de Ancelmo Gois em O Globo.

A justificativa do nobre deputado: “O horário das refeições é um momento especial das famílias, quando pais se encontram com seus filhos, as experiências diárias são compartilhadas e a estrutura social é solidificada. Esse importante evento familiar, para que seja pleno e contribua para a emancipação do instituto familiar, deve ocorrer em um ambiente de paz e tranqüilidade, preferencialmente isento de intervenientes externos que possam comprometer sua qualidade.”

O projeto determina, inclusive, quais são os tais “horários de refeições”: entre 7h e 8h30; das 12h às 14h e das 18h às 20h. Eu, que almoço às 15h e janto às 21h, portanto, estou liberado para assistir a imagens e notícias “violentas”.

Segundo Clodovil, “Em sua busca desenfreada por lucros e audiência, esses veículos de comunicação social optam por transmitir em horários que coincidem com as refeições – horários de maior audiência – programas noticiosos que, freqüentemente, vêm carregados de cenas, imagens e notícias de conteúdo extremamente violento”.

É mais uma tentativa de regulamentar, por decreto, uma atividade que naturalmente deve ser controlada pelo usuário, do outro lado do balcão. Não gostou, mude de canal ou desligue a TV e vá ler um livro. Ah, esqueci: ler durante a refeição faz mal, já dizia minha vó…