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Passaralhos vitimam mais editores e redatores, não repórteres

Carlos d’Andrea destacou, em seu bom artigo “Collaboration, Editing, Transparency” [PDF, 155k] na última edição da Brazilian Journalism Review, uma matéria de Carl Stepp publicada em abril pelo American Journalism Review.

Stepp detectou que as principais vítimas dos passaralhos nas redações americanas são editores e redatores, não repórteres.

É falsa, portanto, a premissa de que a redução de custos na imprensa dos EUA teria relação direta com a diminuição do número de repórteres _que muita gente considera a peça mais importante da engrenagem jornalística_ na imprensa em geral.

Essa observação corrobora outra percepção, esta no jornalismo on-line, de que a cada dia diminuem as etapas entre a concepção do texto e o leitor. Na web, o repórter já possui hoje uma autonomia que o permite publicar, diretamente e sem filtros, um texto num site.

Ou melhor: atesta que repórteres estão assumindo funções cada vez mais relevantes no fechamento.

Como manter (ou subir, nosso desafio é subir) a qualidade assim?

A culpa é das agências de notícias?

Essa é, disparado, a justificativa mais original que já li para a crise dos jornais impressos nos Estados Unidos. Para Paul Farhi (que é repórter do Washington Post), a culpa é da Associated Press, a boa e velha AP, mais antiga agência de notícias do mundo.

O raciocínio, exibido na American Journalism Review, é simples: ao vender seu serviço para portais on-line, a AP matou os impressos. O autor chega a perguntar “porque comprar uma cópia do New York Times se a versão da AP para assuntos nacionais e internacionais já foi distribuída em toda parte” _como se um jornal se resumisse a textos pasteurizados de agências.

A conclusão é que a AP deveria “ter ficado com a família” e se mantido fiel a jornais, tvs e rádios parceiros de longa data.

O texto é longo, mas tem o mérito de analisar o modelo de negócio dos portais e também das agências noticiosas, que hoje distribuem de graça seu conteúdo em sites próprios mas incrivelmente conseguem ser remuneradas pelos veículos que usam seu material.

É um caso raro e que merecerá a nossa atenção em breve.