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Reiventar o jornalismo ou o jornalista?

Reiventar o jornalismo. Expressão que já virou clichê e sobre a qual poucos realmente se debruçam. É mesmo necessário? O termo correto é realmente “reiventar”? Só o jornalismo impresso precisa ser reiventado? O jornalismo on-line, então, já está posto, definido e bem criado?

Não é bem assim, mas muitas vezes a gente não percebe. Mas é notório que ainda existe um subtratamento (no papel e na web) às possibilidades trazidas pela tecnologia.

Londres vai discutir o tema em 10 de julho, no encontro News Innovation London. Segundo um dos organizadores, Martin Moore, é a chance de debater possibilidades concretas, não conjecturas.

Falando ainda mais claro: o que se propõe aqui é juntar jornalistas e programadores (mas pode chamar de nerds) que tenham ideias legais e úteis. Às vezes, quando jornalista e nerd são a mesma pessoa, as coisas ficam mais fáceis.

Sim, trata-se também da boa e velha reportagem assistida por computador (RAC ou CAR, na sigla em inglês). Uma série de programas e mashups que, bem alimentados, apresentam a informação em formato e perspectiva diferentes.

Curioso que, há poucos dias, a revista Time se perguntava se os nerds poderiam fazer alguma coisa pelo jornalismo. Já estão fazendo, falta aos jornalistas perceberem o quão prático e proveitoso para o leitor/usuário pode ser essa faceta da interpretação e apresentação de dados.

Mas é claro que não é só isso.

Os caminhos do jornalismo passam também pela gestão da produção colaborativa de informação. Os exemplos a serem debatidos em Londres são o projeto My Football Writer (basicamente uma rede de correspondentes amadores em pequenos clubes em East Anglia, uma região da Inglaterra) e rede investigativa “Ajude-me a apurar”, do Channel 4, bastante aberto à conversação, essa dádiva da era da publicação pessoal e da troca instantânea de informação.

Há ainda a necessária administração de mídias sociais (que é, hoje, onde o povo está na internet).

Todo o resto, os preceitos, todas as receitas que conhecemos como exemplos de bom jornalismo, estão preservados.

Falta reportagem? Sim. Falta investigação? É claro. Faltam clareza e acuidade na redação de textos? Quem acha que sim levante a mão. Tantas coisas faltam hoje ao jornalismo impresso.

Mas será que elas já não vinham faltando quando a internet nem sequer existia?

Pensar o jornalismo como um processo, não como uma plataforma, é tão difícil assim?

Leia também: O jornal vai dormir internet, e a internet acorda jornal

Opine: um jornal precisa de manchete todos os dias?

(este post teve as colaborações de @leogodoy e @rsbarai)

Wall Street Journal restringe diálogo entre redação e leitores

Os jornais ainda não fazem questão de monitorar o que diz (e interagir com) sua audiência on-line, mas já estão bem interessados no que fazem seus jornalistas nestes canais.

O Wall Street Journal inclusive lançou um manual de conduta on-line para seus profissionais. E, por ele, é proibido compartilhar informação com o público.

Nada mais equivocado.

As normas do jornalão para regular a atividade dos funcionários nas redes sociais é digna de reprodução. Uma lição de como não fazer.

* Deixe nossa cobertura falar por si, não detalhe como uma matéria foi apurada, escrita ou editada;
* Não discuta artigos que não tenham sido publicados, as reuniões que você assistiu ou o planejamento de coberturas ou entrevistas que você fez ou fará;
* Negócios e prazer não devem ser misturado em serviços como o Twitter. O bom senso deve prevalecer, mas se você está em dúvida sobre a conveniência de postar uma mensagem, converse com seu editor antes do envio;

Estas recomendações simplesmente excluem a possibilidade de diálogo com pessoas que acompanham seu trabalho e, com frequência, dão sugestões ou simplesmente insights sobre coisas que poderão virar matéria.

Ao mesmo tempo, tenho ouvido opiniões que me desanimam. Como gente experiente em redação recomendar que “o leitor jamais deve ser respondido” porque “não tem nada a acrescentar e só enche o saco”.

Incrível porque várias dessas pessoas reclamam que, ao tentar um conversação via, digamos, microblog, não são respondidas. “Mas pera lá”, costumo interpelar, “e você por um acaso respondeu quando foi perguntado?”. Não, né?

A qualidade da conversação com a audiência depende de uma relação recíproca e de confiança. Se você for útil a um determinado grupo, receberá como recompensa o esforço dessas pessoas em lhe remunerar de alguma forma _normalmente, oferecendo informação.

Mas nossos jornais, ainda por cima, preferem evitar ou mesmo restringir esse contato. Outra desconexão com a vida real, que aponta claramente a tendência de pessoas serem mais importantes que instituições.

Inominável.