Arquivo do mês: março 2012

Os melhores do jornalismo digital versão 2011-2012

Saíram os prêmios da American Society of Magazine Editors (ASME) para os melhores do período 2011-2012 em mídia digital.

Palmas para a New York, produto do NYTimes ganhador dos prêmios mais cobiçados (excelência geral e website).

A NatGeo levou o prêmio de melhor versão para tablet – uma moeda em alta no negócio informação em tempo real.

Mas agora atenção: “The Qaddafi Files: An FP Special Report”, de Susan B. Glasser para a Foreign Policy, é o trabalho a ser notado. Ganhou a distinção de melhor cobertura multimídia.

Ótimas inspirações.

Facebook no controle

Às vésperas de abrir seu capital, o Facebook é ainda mais minucioso no que diz respeito à prospecção de novos negócios.

Controla sua plataforma a ponto de muitas vezes negar algum pleito dos usuários com um oracular “nós não queremos que você faça isso”. A desejada introdução do botão “não curti” não passa de ilusão pelo simples fato que Mark Zuckerberg não quer você negativando ninguém.

Com pouco mais de 42 milhões de usuários no Brasil (é praticamente a metade do grupo de brasileiros que tem acesso à internet), o Facebook novamente imporá a seus clientes uma mudança – a adoção definitiva da timeline como padrão do site, prometida para 1º de abril (será verdade?).

Hubs de tráfego (como celebridades e grandes empresas) interessam especialmente à companhia. São espécies de modelos das timelines que Zuckerberg considera ideais – e importante chamariz para destorcer o nariz dos usuários.

Num universo em que só 13% de seus amigos leem cada atualização publicada por você (a estimativa é do próprio Facebook), há uma verdadeira Transamazônica para ser explorada.

Kony 2012: lições de uma manipulação grosseira

Não é possível que mais uma mobilização que tem a desinformação como mola-mestra na internet passe incólume. Sem deixar lições? Não pode.

Estou falando do viral Kony 2012, vídeo visto 100 milhões de vezes que reorganiza aleatoriamente e sem contextualização fatos ocorridos há mais de uma década em Uganda para fazer uma denúncia ainda válida: um criminoso está livre.

A ONG Crianças Invisíveis pretendia mostrar ao público as atrocidades de Joseph Kony, líder de um tal Exército de Resistência do Senhor – que cooptava crianças para sua guerra santa nas décadas de 80 e 90 e hoje está reduzido a um grupo de párias que não passa de 400 e não tem qualquer importância política ( as crianças que não morreram em combate já são adultos).

A trajetória de Kony mobilizou o mundo, e a ONG conseguiu arrecadar muito dinheiro com o buzz todo.

Tirando a desonestidade intelectual de se distorcer fatos, a entidade é muito séria e está na linha de frente de uma série de ações em prol das crianças africanas. Mas seu principal papel, de fato, é produzir vídeos que chamem a atenção para o problema, jamais resolvê-lo.

Ninguém deveria se sentir lesado pela campanha Kony, mas certamente é preciso parar para pensar de que forma nos engajamos em qualquer coisa que apareça on-line, sem o menor critério ou informação. Isso sim é gravíssimo e aponta para a existência de uma gigantesca massa de manobra altamente manipulável.

Pense nisso.

ATUALIZAÇÃO: Na Folha de S.Paulo de hoje, Nizan Guanaes fala do fenômeno Kony 2012 sob o ponto de vista da publicidade – um evidente case de sucesso.

Só bom conteúdo salva


Você conhece o projeto Beyond the Fold, desenvolvido pelo pesquisador português Sebastian Rodriguez Kennedy Bettencourt?

Bem, se trata de mais uma tentativa de mostrar como será o jornal num futuro sem o uso de papel (por questões econômicas sim, mas também ambientais).

Baseado numa navegação sem ícones e botões, o suporte imaginado por Bettencourt poderá mostrar infográficos em 3D e já é capaz de transmitir a sensação de tinta nos dedos – alguém sentiria saudade disso?

Em 2008, ridicularizei uma aproximação menos ousada e mais marqueteira do “futuro do jornal” e ganhei um inimigo para todo o sempre – o excelente profissional que representa no Brasil a consultoria por trás daquela mirabolância – aliás devidamente depositada na lata de lixo da história.

Já naquele texto, e como corroborou agora Bernardo Gutiérrez, eu dizia que a tecnologia não iria salvar o jornalismo. Só bom conteúdo é capaz disso.

Ainda assim, pesquisar e testar novos formatos sempre terá alguma serventia (ainda que sejam apenas boas risadas).

História da mídia ganha publicação científica

Está no ar a primeira edição da Revista Brasileira de História da Mídia, uma antiga aspiração da Alcar (Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia), que reúne cerca de 200 pesquisadores pelo Brasil.

Da edição de estreia, destaco o artigo “A emancipação dos escravos no Ceará em um jornal católico”, excelente trabalho de resgate histórico de Alceste Pinheiro.

Parabéns aos colegas da Alcar e vida longa à revista!

Os últimos dias de um correspondente de guerra na Síria

Incrível o relato do fotógrafo Tyler Hicks, que conta como viu o jornalista Anthony Shaddid morrer diante de seus olhos quando tentavam deixar a Síria, onde trabalharam para o The New York Times.

Publicidade nos jornais americanos despenca em 2011

Números divulgados pela Newspaper Association of America mostram que a publicidade nos jornais impressos dos Estados Unidos recuou 7,3% em 2011.

Por outro lado, os anúncios em produtos jornalísticos digitais (muito mais baratos, diga-se) foram quase 7% maiores no ano passado.

Toda a indústria do jornalismo faturou US$ 34 bilhões no ano passado – sozinho, o Google arrecadou US$ 37,9 bilhões.

Jornalismo no Pinterest

Sete usos jornalísticos para o Pinterest segundo Margaret Looney. Cuidado com a dica “encontrar fotos para ilustrar artigos” – o jornalismo ainda se esquece do direito autoral, que não foi suprimido pela internet.

Tudo o que você queria saber sobre a tipografia

Menos humano do que os outros

A filósofa Hannah Arendt, autora de meu livro predileto (As Origens do Totalitarismo, de 1951), estabeleceu anos depois, em A Condição Humana (de 1958), uma definição lapidar sobre privacidade e vida pública na Antiguidade – um debate que tem tudo a ver com os nossos tempos.

“A man who lived only a private life, who like the slave was not permitted to enter the public realm, or like the barbarian had chosen not to establish such a realm, was not fully human”.

Resumindo, não ser visível aos outros humanos nos tornava menos humanos. Quanto mais privacidade, menos humanidade.

É uma questão e tanto quando nos perguntamos se Facebook ou Google são muito invasivos e colocamos como meta a proteção inegociável de nossa privacidade.

Pelo raciocínio de Hannah, estamos querendo apenas nos proteger de ser alguém.