Arquivo do mês: janeiro 2011

Espanha discute ‘tornar normal’ o horário de trabalho dos jornalistas

Não sabia que a Espanha tinha uma “Comissão Nacional para a Racionalização dos Horários”, aliás, que eu saiba nenhum país tem uma repartição pública dessas.

Ignacio Buqueras y Bach, presidente do órgão, diz que sua tarefa é “sensibilizar a sociedade espanhola sobre a necessidade de usar melhor o tempo e racionalizar a agenda diária de maneira que sejam mais flexíveis e humanos e favoreçam a conciliação da vida pessoal, familiar e profissional”.

Buqueras assina texto em que inclui os jornalistas como beneficiários dos objetivos de sua pasta.

Diz que marcar entrevistas coletivas para depois das 18h implica “esforço adicional” para as Redações, cita casos de profissionais que foram rechaçados pelos filhos em detrimento das babás (quem, afinal, fica com eles) e replica citações de coleguinhas sobre a insalubridade de se jantar às 23h todos os dias, entre outras barbaridades incompatíveis com o exercício da profissão.

E a gente aqui, se perguntando por que o jornalismo parece ter piorado de uns tempos pra cá.

Santa burocra, Batman.

Canibalismo nos Andes: o furo do El Mercurio em 1972

Há uma dica interessantíssima de que havia algo perturbador na história dos 16 sobreviventes dos Andes _os uruguaios que passaram 72 dias perdidos no meio da neve e tiveram de redefinir seus padrões após um acidente com o avião que os levaria de Montevidéu a Santiago.

Os dois primeiros resgatados, Roberto Canessa e Fernando Parrado, gaguejaram na primeira entrevista quando o repórter da TV chilena pergunta como foi possível sobreviver tanto tempo sem comida. Parrado diz claramente “disso não se fala”, com o que Canessa assentiu _e deu uma resposta genérica. Era o dia 20 de dezembro de 1972.

Seis dias depois, o jornal chileno El Mercurio deu o furaço: os sobreviventes dos Andes não eram tão dignos assim, eles tinham se alimentado de restos dos mortos no acidente.

No dia 28, numa entrevista coletiva, houve a admissão de canibalismo. Entre o choque e o aplauso.

A revista Galaxia já está no ar

Já está no ar a 10ª edição da revista Galaxia, publicada pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-RS.

Bons temas e textos, entre os quais destaco “Ciberespaço cubano: uma forma de resistência ao poder e à censura”, de Lia Luz.

Boa leitura.

Nem deciframos a web, vêm os aplicativos…

Falava em sala de aula na semana passada que nós, jornalistas, nem sequer aprendemos a exibir nossa produção na web e já aparece outra coisa, o aplicativo para dispositivo móvel, mais um lugar em que definitivamente o jornalismo precisa estar.

No mesmo dia, Alan Mutter (nosso velho conhecido) escrevia sobre o tema com uma detecção que me parece real: os jornais começaram ocupando muito mal essa nova fronteira, repetindo soberba e noviciato demonstrados quando da chegada deles à web.

A certeza nessa história toda é que começou outra guerra, como novas armas e estratégias que desconhecemos. E que o avanço tecnológico é interminável.

Detectado há seis anos, erro se perpetua em sites noticiosos

É impressionante, mas quanto mais fuço textos antigos sobre o jornalismo na internet, percebo o quanto os problemas persistem.

É assim com o clássico “A fundamental way newspaper sites need to change”, de Adrian Holovaty, redigido em setembro de 2006 e que apontava um erro crasso nas versões eletrônicas dos jornais impressos na web: ela, a mera transposição do conteúdo (o modo de contar as coisas levando-se em conta a unidimensão do meio papel, ou em português mais claro, a dificuldade de se libertar da ditadura do texto).

Desconte-se aí a longa folha de serviços prestados de Holovaty ao data journalism, ou uso de dados na profissão, que ele exacerba no texto.

Meu ponto coincide com o dele ao analisar a monocordia generalizada, que sempre desconsidera a melhor maneira de se contar uma história em detrimento do texto pura e simplesmente.

Evidente que o mashup de dados não é o único caminho, mas um deles. Assim como explorar melhor as potencialidades do meio em que, hoje, rastejamos.

Está tudo dentro da nossa cabeça: enquanto não pensarmos outras formas de contar histórias, ficaremos presos ao formato texto-lide.

A tecnologia de ponta em 1995

“O Windows 95 chega para revolucionar. Adeus à tradicional espera para acessar os programas. Você pode trabalhar na mesma tela com quatro programas de uma só vez”.

É Cesar Tralli, num Jornal Nacional de 1995, falando sobre as maravilhas da tecnologia de ponta da época.

Portugal quer atrelar noticiário político a resultado de eleição

A discussão sobre regulamentação do conteúdo da mídia, que está na ordem do dia no Brasil, atingiu as raias do absurdo em Portugal.

A ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social), agência que cuida do assunto no país, definiu com base nos resultados eleitorais de 2005 uma “cota de notícias” para os partidos com representação no Parlamento.

Isso mesmo: o noticiário político teria de ser partilhado de acordo com os resultados eleitorais de há quase 6 anos. Uma loucura completa que, com razão, já está sendo duramente criticada.

E se o papel abandonasse qualquer tentativa de convergência com o on-line?

O decano Janio de Freitas, em sua coluna nesta semana na Folha de S.Paulo, prossegue a discussão sobre os valores do jornalismo impresso em confrontação com os do on-line usando, para isso, o caso dos vazamentos do WikiLeaks.

Janio lembra que, para ter repercussão, o site de Julian Assange precisou recorrer ao jornalismo tradicional _basicamente o que escrevemos por aqui há algumas semanas.

Só que ele vai além, dando a entender que o papel deveria prescindir de qualquer tentativa de convergência com a plataforma mais rápida e de menor limitação física (caminho cuja trilha, inevitável, já começou).

“Você já reparou em uns pequeninos registros, colocados ao pé de textos, com os dizeres ‘Se quiser ler mais sobre este assunto, veja’ (segue-se o endereço do jornal na internet)? Quase nenhum espaço ocupado com isso. Mas diz muito. É o jornalismo impresso abrindo mão da sua função e transferindo-a à internet que tanto o atemoriza, e que nada lhe pediu. O leitor, que pagou pelo jornal, deve se virar como puder, para ter o complemento de informação pela qual entregou seu dinheirinho. A sonegação de tantas partes em variados assuntos, claro, não terá a correspondência de corte algum no preço do exemplar.”

Isso sim dá pano para uma longa discussão…

Revista ‘Estudos da Comunicação’ já está disponível

O novo número da revista Estudos em Comunicação, da Universidade da Beira Interior (Portugal), já está disponível.

O destaque é a diversidade de autores e línguas, apesar de ter me interessado especialmente pelo texto “Ativismo em Redes Sociais Digitais: Os fluxos de comunicação no caso #forasarney”, de pesquisadores brasileiros.

Boa leitura.

Um portfolio de infografia

Um portfolio de infografia que pode servir como referência visual.