Arquivo do mês: abril 2010

A questão da audiência no jornalismo on-line

O pesadelo de qualquer site jornalístico (ou de qualquer produto na web) é verificar uma estagnação no número de leitores. É claro, a cada dia há mais gente nova na internet, e teoricamente estamos aqui para fisgá-las rumo ao nosso conteúdo.

Se todo dia há mais gente surfando, é natural que minha audiência cresça dia a dia. Essa é a lógica. De quanto será o crescimento, aí sim, é a diferença entre sucesso e fracasso.

Alguns números na Espanha, entretanto, são impressionantes: El Pais (seu jornal mais influente e importante) e 20 Minutos (jornal gratuito de grande tiragem), entre outros, simplesmente não tiveram mudanças na base de usuários em 12 meses. Isso significa dizer que, passado um ano, são lidos exatamente pelas mesmas pessoas _uma tragédia quando se fala no suporte on-line.

Quando o acesso de leitores a um site jornalístico fica um ano no mesmo patamar é sinal claro de que são necessárias mudanças.

Professores que se recusam a ensinar defendem o diploma

Poucas coisas são mais anacrônicas que o Fórum Nacional de Professores de Jornalismo.

Anacrônica porque a instituição vive num planeta que não existe mais: aquele em que um diplominha de jornalismo é fundamental para se trabalhar na profissão. Cobrem de desculpas esfarradas qualquer debate sobre o tema, sob o lema dane-se a formação, viva o papel.

Nosso compromisso (sim, o meu, como professor de jornalismo, profissão que desempenho há 20 anos) é com a melhoria da qualidade de ensino. Se pedaços de papel serão ou não necessários (e, se forem, é uma imbecilidade completa) é outro problema. Não quero garantir meu empreguinho. Quero, sim, ajudar pessoas a ingressar no jornalismo pela porta da frente, com embasamento.

A valorização do ensino universitário independe da exigência do diploma, isso fica para o empregador. Quem trabalha em redação sabe: jornalista se faz jornalista trabalhando. O ensino acadêmico, complementar e importantíssimo, não pode requerer condição de obrigatoriedade. Até porque é insuficiente para forjar um jornalista de verdade.

Educadores que deseducam, parem de ser corporativos e de olhar para o próprio umbigo. Vergonha de vocês.

Uma saída multimídia para complementar o jornal impresso

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, em sabatina da Folha registrada pelo Garapa

A linguagem de vídeo na web foi tema de uma conversa nesta semana com a nova turma de trainees da Folha. Antes, é preciso entender de que tipo de site falamos: a versão eletrônica de um jornal impresso, ou seja, que deve produzir uma boa dose de conteúdo complementar _além, é claro, de muitíssimos voos solo.

Complementar no sentido estrito do termo, ou seja, agregador, não replicador.

Por isso eu não me canso de mostrar os vídeos do coletivo de fotógrafos Garapa, no caso uma cobertura específica dos bastidores de sabatinas da Folha com candidatos à prefeitura de São Paulo em 2008 (como a de Gilberto Kassab).

Mistura de slideshow com vídeos, mínima intervenção de texto e muito som ambiente. Fórmula ideal para acompanhar o que o veículo impresso traria efetivamente (a transcrição editada da entrevista).

A única imitação de TV que considero válida no caso dos jornais de papel com edição on-line são as já famosas (e bem antigas no formato) entrevistas de estúdio. Ainda assim, o pior que pode acontecer é nossos bravos repórteres do impresso caírem na armadilha de imitar os coleguinhas da telinha _e é o que vemos por aí. Vídeo, na web, virou fazer TV.

Vamos aprender um pouco mais com o Garapa.

Uma imagem para resumir como nossa profissão mudou


Eu gosto muito dessa foto. Para mim, representa como poucas como mudou, para nós jornalistas, essa profissão maravilhosa.

Hoje temos a companhia de pessoas _de todas as pessoas, a rigor_ que estão lá, como a gente, testemunhando e difundindo fatos. Isso é muito saudável, oxigenou nosso ofício.

O lado ruim dessa história: não tenho informação alguma sobre a imagem acima, que suponho ter sido tirada em 11 de setembro de 2001.

Alguém tem?

ATUALIZAÇÃO: O Thiago Araújo resolveu o mistério, trata-se da cobertura cidadão da explosão de um gasoduto em Manhattan, em 2007

Para manter seu emprego, você aceita redução de salário?

Os trabalhadores da EFE rejeitaram o que parece ser uma tendência no jornalismo _ao menos na Europa e nos Estados Unidos, onde não há restrições legais para a prática: a redução de salário em troca da manutenção do emprego.

No Brasil, os protegidos pela CLT não podem ter rebaixamento salarial. Porém é real o arrocho nas redações, com a troca de profissionais por outros mais baratos ou promoções de cargo não acompanhadas da respectiva remuneração.

Isso sim é uma face preocupante da crise pela qual passamos.

Beatificado, jornalista está perto de virar santo, diz Vaticano

O Vaticano informou ontem que um jornalista, o espanhol Manuel Lozano Garrido (que nasceu nos anos 20), será beatificado em 12 de junho.

Com a beatificação, o coleguinha se transforma numa espécie de “santo da segunda divisão“, ou seja, pode ser cultuado publicamente na diocese onde viveu, mas não por toda a Igreja.

Sua atuação na profissão sempre se restringiu à imprensa católica, da qual era fervoroso defensor.

Quando ele virar santo, a gente comemora.

‘Se um dia você duvidar do valor dos editores de jornais, olhe para a blogosfera’

“Há uma arte no que vocês fazem. E se um dia vocês duvidarem do valor dos editores de jornais, olhem para a blogosfera. É tudo o que vocês precisam ver.”

A frase é de Eric Schmidt, CEO do Google, em mais um dos inúmeros encontros com editores de jornais. E foi encarada como uma pitada de ironia.

A questão é: contra blogueiros ou contra jornalistas?

O preço do 1º Pulitzer do jornalismo on-line: US$ 400 mil

Bastante (e justamente) comemorado, o primeiro Pulitzer da história do jornalismo esconde por trás de seu feito um número impressionante: seu custo.

A história do precário atendimento médico (e a opção pela eutanásia) às vítimas do furacão Katrina, a cargo de Sheri Fink, Barbara Laker e Wendy Ruderman exigiu vários deslocamentos e, numa estimativa grosseira, teria saído por pelo menos US$ 400 mil se tivesse sido bancado desde o início por um único veículo.

O valor foi rachado entre o ProPublica (projeto jornalístico sem fins lucrativos que vive de doações dos leitores para concretizar as matérias), the Kaiser Foundation, The New York Times Magazine e a própria Fink, que desde 2007 trabalhava na pauta, publicada em agosto do ano passado.

O jornalismo investigativo é ótimo, mas é muito, muito caro.

Há mais homens que mulheres falando no noticiário?

Alicia Shepard, ombudsman (ou ombudsqvina?) da NPR (a emissora estatal de rádio dos EUA) fez um levantamento que resultou numa constatação interessante _e sobre a qual nunca havia percebido: há poucas fontes femininas no jornalismo praticado pela companhia.

Provavelmente, transposto à nossa realidade, o estudo chegaria à mesma conclusão. Mas isso é perceptível? Você nota que há menos mulheres do que homens falando com frequência no noticiário?

Taí um ótimo objeto de pesquisa.

Os sites estão menos importantes?

À provocação de Sérgio Lüdtke eu respondo de cara: não, os sites não estão menos importantes. Mas o que está ocorrendo nas redes sociais é tão relevante que, merecidamente, invade o espaço onde estávamos habituados a ver meramente chamadas para o próprio umbigo.

A revolução das pessoas, fruto da capacidade de publicar instantaneamente e com as mesmas armas da mídia formal (ou quase, tirando a legitimação), fez voltar definitivamente a atenção do mainstream para a mobilização pública em sites como Facebook e Twitter.

Exatamente como Lüdtke aponta: a Associated Press manda uma notícia do Twitter para o Facebook, sem passar por suas páginas. O Estadão chama da home para o microblog, longe de seus domínios, sem pudores.

Será que começamos a entender para que serve a internet?