Jornalismo cidadão, colaborativo e participativo são diferentes?

Qual a diferença entre os jornalismos ditos cidadão, colaborativo e participativo?

Há tempos a tendência é jogá-los todos numa mesma cumbuca, como se fossem sinônimos. Ainda que, em 2005, Axel Bruns já tenha ensaiado uma diferenciação em seu instigante Gatewatching.

Numa classificação própria dos termos _que, em breve, será ampliada num trabalho em formato acadêmico (como se as ideias não bastassem…) _, modestamente sugiro debater o assunto.

O que é a participação ou a colaboração senão a inserção num processo já existente? Bem por isso considero que o jornalismo participativo e o jornalismo colaborativo são, realmente, sinônimos.

É quando o público, seja numa ação independente de crowdsourcing ou num site do mainstream que solicita envio de material específico, interfere claramente num processo que está de pé, atualizado e editado sob as regras da edição jornalística, não importa de onde venha o conteúdo, para construir uma narrativa lógica a descrever ou analisar um acontecimento.

O jornalismo cidadão não tem essa ordenação: caótico, representa o que pessoas publicam, seja em que instância on-line for (blog, Flickr, Twitter, Facebook etc), num movimento absolutamente disperso e dissociado pela rede, sem a preocupação de cooperar com uma cobertura formal _ainda que ela se aproveite desse despojamento.

A ideia é essa, em resumo.

Gostaria de debater mais sobre o tema com vocês.

16 Respostas para “Jornalismo cidadão, colaborativo e participativo são diferentes?

  1. Acho que pode valer a pena ler este artigo que o mestre Philip Meyer escreveu em 1995, sobre outra vertente chamada “jornalismo cidadão”, “jornalismo cívico” ou “jornalismo público”: http://www.unc.edu/~pmeyer/ire95pj.htm

    Não era focado na tecnologia, mas tinha tudo a ver com colaboração. De repente pode te abrir alguns insights interessantes.

  2. bem. essa é uma discussão que de fato considero bastante relevante. e sem querer derrubar a proposta, queria só colocar uma pergunta (meio besta até) mas que me ocorreu agora:

    comentar em um blog, que não seja de um meio de massa, por exemplo, é colaborar com um processo já em andamento, mesmo que nem blogueiro nem visitante tenham objetivo de realizar uma cobertura formal. ou seja – e não creio que seu texto exlua isso – o que o blogueiro faz é jornalismo cidadão. e a atividade do visitante que comenta, participa de um processo já iniciado (porque não foi iniciado por veículos de comunicação formais) não é participação/colaboração?

    • Rodrigo,

      Exatamente. Comentar num blog é participar de um processo já existente. Publicar um comentário qualquer, digamos, via Twitter, não. Se no primeiro momento o blogueiro faz jornalismo cidadão, é justo se imaginar que seus comentaristas, nos instantes posteriores, façam jornalismo colaborativo. Muito bem colocado. São filigranas, mas que serão importantes para, futuramente, defininirmos claramente esses conceitos tão difusos.

      abs

  3. Creio que a falta de ordenação no jornalismo cidadão é tão ligado ao fato de ser produzido em meio digitais onde a linguagem é hipertextual e não-linear do que por ser fruto da instrução (ou a falta dela) de quem o produz.

    Tal como o rádio e a televisão foram construindo suas linguagens a partir do nada quando eram mídias recém criadas, através das tentativas e erros, na internet isso também vai acontecendo. Com a vantagem que graças a velocidade com que a comunicação acontece hoje o processo demandou (ou ainda demanda?) muito menos tempo.

  4. Eu considero que a participação, ou colaboração, do público em grandes sites ainda é uma falácia. O diálogo propriamente dito não existe. As pessoas fazem sugestões, críticas, elogios, etc, mas isso não é levado em conta. Essa comunicação de mão única contribui para a perda de interesse do público em participar efetivamente. Estou falando do mainstream, que fique claro.

    Por outro lado temos aí as redes sociais, com a sua anarquia, onde as pessoas conversam, trocam informações e, de uma maneira ou de outra, sentem que são parte do processo. Mas acho que o jornalismo, pelo menos aqui no Brasil, ainda não aprendeu muito bem como utilizar isso a seu favor.

    Vixe, ficou grande o comentário 🙂

    • Tati,

      Absoluta verdade: a colaboração nos grandes portais é segregada, ou seja, há guetos para se depositar a colaboração do cidadão e pouca disposição para mesclá-la ao noticiário.

      bjs

  5. Essa administração do conteúdo colaborativo ficaria a cargo de quem? Pelo fluxo que o jornalismo colaborativo impõe (pelo número de sugestões das pessoas), me parece que é algo que exija uma dedicação full time.

    Aqueles cargos que grandes redações estão criando de “editor de mídias sociais” poderia agregar essa função?

    E como ficaria o reconhecimento de quem colabora? Imagino que seja injusto não creditar a quem teve a ideia se uma reportagem só ocorreu por causa desta ideia.

    • Márcio,

      Depende muito do editor de mídias sociais. Há uma diferença bastante grande entre presença e atuação. Presença da marca on-line é muito fácil: é só sair criando perfis loucamente por aí em centenas de sites de redes sociais. A questão é o que se faz lá dentro: sim, os grandes jornais que estão formando suas comunidades na web o fazem com base numa relação de troca. Oferecem serviço e escutam as pessoas, ou seja, são úteis. Ao mesmo tempo, esse leitor especial passa a dedicar parte de seu dia ajudando o jornal (seja numa apuração ou simples relato do que aconteceu na esquina).

      Nesse modelo, a mediação é do jornalismo profissional, que afinal de contas transforma em pautas aquilo que de melhor se está conversando em suas instâncias on-line.

      Quanto ao reconhecimento, pense na Wikipedia, o maior projeto colaborativo da história. Sem nomes. A produção colaborativa é exatamente aquilo, e seu reconhecimento é saber que fez parte daquele projeto.

      abs

    • O importante do cargo de editor de mídias sociais
      é que ele seja mesmo uma porta de entrada das informações que chegam por estas ferramentas na redação, não apenas uma porta de saída como “atualizadores de Twitter”. É a tal da diferença entre presença e atuação que o Alec falou.

      • Micael,

        e que converse e traga as pessoas para dentro do debate dos assuntos que compõem o cardápio da publicação.
        abs

      • Micael,

        e que converse e traga as pessoas para dentro do debate dos assuntos que compõem o cardápio da publicação.
        abs

  6. Márcio levantou uma boa questão: como administrar este conteúdo colaborativo?

    Outra coisa: será que existe mesmo esta relação de troca nas comunidades da web dos grandes jornais? O Twitter, por exemplo, parece ser usado muito mais como um feed RSS do que como um outro espaço da publicação na internet. (se bem que tem gente que acha que o Twitter “rouba audiência”).

    • Tatiana,

      por grandes jornais eu me referi globalmente, não quis dizer só Brasil _aliás, acho que no país isso ainda é feito de forma tímida. O uso do microblog como um feed não pode ser totalmente encarado como um erro (afinal, há o público que de fato utiliza a ferramenta como feed), mas certamente pode-se cravar de que se trata de um uso incompleto de um suporte que oferece tantas facilidades para a conversação.

  7. Oi Alec
    Deixo um link de um artigo meu, que toca neste assunto – http://jornalistasdesofa.blogspot.com/2010/04/indagacoes-sobre-o-jornalismo-e-seus.html

    Um beijo
    Vanessa

  8. Pingback: colaborativo, participativo, open-source, cidadão… « Valores-Notícia

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