Arquivo do mês: fevereiro 2010

Mais um obituário do jornalismo impresso

Quando as pessoas falam sobre determinada coisa com viés choroso e nostálgico, está claro que aquilo está fadado a desaparecer.

É o que fez o escritor espanhol Gustavo Martín Gazo, em artigo publicado esta semana pelo jornal El Pais. Ele falava sobre o jornal impresso.

“É difícil imaginar como seria nossa vida sem jornais impressos. Como teriam sido, por exemplo, as épocas obscuras de nossa história recente sem a ajuda a imprensa escrita. Sem o auxílio, acima de tudo, dos que mantiveram a crença em sua razão, na liberdade pessoal e nos valores democráticos. Pois exatamente isso devem ser os jornais: companheiros leais, discretos e sensatos a quem recorrer a cada manhã não apenas para encontrar justificativa para nossas ideias ou alimentar nossos rancores”, escreve Gazo num artigo, digamos, mimoso.

“Falar com as fontes, os rios e os animais. E assim brotar essas chamas que nos consolam de nossos pecados, nos acompanhem e nos ajudem a viver”, prossegue ele, que faz uma interessante relação entre a capacidade de narrar (inclusive com texto “literário”) e o apelo que os periódicos exercem hoje .

Um artigo que é quase um obituário do jornal impresso, um ode, um lamento em formato de chorumela. Vale a pena ler.

EFE vai à Justiça para garantir integração de redações

A agência estatal de notícias espanhola EFE precisou recorrer à Justiça para concretizar, em sua futura redação em Madri (que deve ser inaugurada em 2012), algo que é realidade: uma integração de redações na qual os jornalistas editam informação em qualquer formato.

O sindicato de trabalhadores da empresa recorreu aos tribunais contra a integração, mas o próprio estatuto da agência, reformado há alguns anos, prevê que seus profissionais “apurem, elaborem, editem selecionem e classifiquem, sob critérios jornalísticos, informação de todo tipo e em qualquer suporte que possa ser comercializado”. Ainda cabe recurso à decisão.

A EFE deu lucro pela primeira vez em sua história de mais de 70 anos em 2006, 2007 e 2008. No ano passado, voltou para o vermelho (menos 1,6 milhões de euros).

Jornal misterioso mobiliza investigação colaborativa

O The London Weekly, lançado com estardalhaço há 15 dias em meio ao vácuo provocado pelo fechamentos de dois outros diários gratuitos londrinos (The London Paper e London Lite), já está provocando tamanha polêmica que virou motivo de trabalho colaborativo na web: o que você sabe sobre o London Weekly?, pergunta Paul Bradshaw, que comanda um projeto investigativo de apuração distribuída para saber qual é a do jornal.

Explica-se: lançado como um negócio de 10 milhões de libras (R$ 29 milhões) e 50 jornalistas, não tem gente conhecida do meio no expediente e sua presença na web, com atualizações esporádicas e em geral assinadas por duas pessoas, revela a precariedade.

O simples fato de jornalistas não saberem o que se passa numa redação alheia (porque deveriam ter pelo menos alguns conhecidos) já é altamente suspeito.

O The London Weekly é distribuído, em papel, às sextas e sábados no metrô da capital inglesa.

BBC exige jornalistas engajados nas redes sociais

Para refletir durante o Carnaval: a BBC quer que seus jornalistas estejam cada vez mais presentes (e atuantes, não basta ter perfis atualizados de vez em nunca) nas redes sociais como Facebook e Twitter.

A empresa entende essas ferramentas como essenciais para o profissional, que precisa estar sintonizado com a inovação tecnológica _que, afinal, tem mexido na própria forma como a gente trabalha.

Um alerta para quem ainda não percebeu isso.

Repórter entrevista gato e reconstitui acidente de trânsito no Chile

Imagine cobrir um acidente de trânsito e ser capaz de resgatar, passo a passo, o comportamento e a percepção do gato causador da capotagem _que deixou quatro feridos, dois deles em estado grave.

Foi o que fez um repórter do Diario de Aysén, de Coyhaique, na Patagônia chilena. A matéria dele deixa claro: o cara sabia exatamente o que fazia e “pensava” o felino ao atravessar inocentemente uma avenida e cruzar o caminho de um Jeep Cherokee.

“O gato escutou o motor do carro, à distância, rompendo o silêncio, chegando cada vez mais rápido. Então, assustado, decidiu daquilo que parecia ameaçá-lo. O motorista do carro mal viu a negra silhueta que cruzava o seu caminho”, diz a reportagem, que informa em primeira mão: “O gato, do outro lado da rua, girou a cabeça e observou por um segundo o jardim da praça destruído, com as flores espalhadas pelo chão, e desapareceu”.

Senhores, esse repórter entrevistou o gato. É um fenômeno.

PS: Capaz de os defensores do jornalismo literário (essas duas palavras que não se bicam) acharem legal. O webfanzine Disorder já decretou o autor da pérola “o pior jornalista do Chile“.

Curso de jornalismo à distância em 28 semanas

No meu tempo, curso à distância era sinônimo de picaretagem. Tinha, óbvio, picaretas, mas podia ter também gente séria que, simplesmente pelo fato de oferecer conhecimento sem presença física, era jogada no mesmo balaio.

Hoje, ainda que haja resistência daqueles que veneram o passado e gostam de sofrer, é cada vez menor a necessidade do presenteísmo. Todos podemos desempenhar quaisquer funções intelectuais _característica principal do jornalismo_ do sofá da sala, via celular, por exemplo.

O EAD (ensino à distância) não só foi adotado pelas universidades como é hoje uma exigência curricular do MEC. Saber trocar informações remotamente por meio do uso de dispositivos tecnológicos não é mais uma opção _é obrigação profissional.

Em 1968, claro, não era assim. Mas o bom e velho Correio levava pra lá e pra cá apostilas com um sem-fim de conhecimento (legítimo, plagiado ou equivocado, enfim). Eram os cursos por correspondência, entre os quais se destacava a marca do Instituto Universal Brasileiro, que investia fortemente em publicidade em revistas e jornais.

Aliás, fui pesquisar e descobri que o IUB não só ainda existe (“desde 1941”, como ressalta no site) como se adaptou aos novos tempos e, evidente, oferece cursos também pela web.

A Cristina Moreno de Castro, nossa popular Kika Castro (aliás citada ontem aqui mesmo neste espaço) ganhou um presentão no final do ano: um leitor de seu blog em parceria com a editora de Treinamento da Folha, Ana Estela, remeteu as 28 lições de um curso de jornalismo à distância que contratou em 1968. E as apostilas são forradas de pérolas, boas e ruins.

Coisas como “O lead deve ser uma promessa de grandes coisas e a promessa deve ser cumprida”, ou “A notícia deve ter o tamanho de uma saia de mulher, curta bastante para atrair a atenção e bastante longa para cobrir o assunto” ou ainda “Uma tendência quase geral dos repórteres esportivos é a de dramatizar certas passagens ao descreverem uma partida. (…) Não deve o jornalista deixar-se envolver pelas paixões da multidão”.

O resto tá lá, no Novo em Folha. Aliás, uma dúvida: teria sido este curso oferecido pelo Instituto Universal Brasileiro?

O que é preciso para ser jornalista, a saga

Com Ana Estela (editora de Treinamento da Folha de S.Paulo), termina provisoriamente a série “O que é preciso para ser jornalista”, da qual orgulhosamente fui um dos pioneiros.

A série consiste de pílulas de jornalistas da Folha opinando, via de regra em menos de um minuto, sobre características que um jornalista precisa ter. O conjunto da obra é bem importante. Várias dicas legais.

O chato é que amanhã vou falar de novo do blog Novo em Folha, blog de verdade, criado pela Ana e tocado (principalmente) pela Cristina Moreno de Castro, aliás @kikacastro. Aí, fica parecendo marmelada…

A Cris ganhou uma pérola de presente. Mas amanhã eu ‘repercuto’.

Por uma vida digna, seja um ex-jornalista

Criaram, na Espanha, uma espécie de CVV do jornalismo. A mensagem da ONG Salvar un Periodista é clara: por uma vida digna, seja um ex-jornalista.

Segundo seu site, a entidade “trabalha na reinserção social dos jornalistas” e, “graças a uma ampla equipe de profissionais e voluntários”, detecta jornalistas em situação de risco (“físico e psicológico”) e os orienta rumo à luz do fim do túnel do inferno laboral.

“Nossos grupos de apoio o ajudarão a identificar quais são seus problemas e, na medida do possível, transformá-lo em ex-jornalista e te dar uma vida melhor”.

Uma evidente sátira (muitíssimo bem sacada) ao sucateamento da profissão. O videodepoimento de Julián Cepeda (com destaque para a trilha sonora) é antológico.

Porém, por via das dúvidas, anota o e-mail da galera aí: salvarunperiodista@gmail.com …

(A dica é do Francisco Madureira)

História que se repete: recicle o calendário a cada 28 anos

Essa é da série Boas Ideias: sabia que a cada 28 anos o calendário gregoriano se repete? Então 2010 corresponde exatamente a 1982 _ano marcado pela performance da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo da Espanha. O time perdeu, mas ficou lembrado como um exemplo de excelência que deu azar (este ano tem Copa, e a final será exatamente em 11 de julho, como há 28 anos).

Para incentivar a reciclagem e o consumo responsável, uma ONG da Itália distribuiu calendários de 1982 “revalidados”. Evidente, a custa de mais papel. Mas a mensagem é ótima.

Uma sacada bacana que poderia até dar pauta jornalística: comparar aquela sequência de dias à atual. Quando se tinha ainda menos consciência ecológica, e futebol mais tosco porém revestido, anos depois, de glamour cult.

O Viu Isso viu isso primeiro.

Balzac disseca os jornalistas do século 19, mas parece que são os de hoje

A leitura de “Monografia da Imprensa Pariense”, escrita pelo mestre Honoré de Balzac (e publicada no Brasil pela Ediouro), é inquietante em diversos momentos, especialmente quando parece claro que o jornalismo da Paris da século 19 assemelha-se muito ao praticado na São Paulo do século 21.

“Com os anúncios tomando um quarto da edição, com as amenidades ocupando um quarto do que resta, os jornais não têm espaço” é uma detecção que claramente se adequa aos padrões atuais. Mais: “Nos jornais da situação, alguns redatores têm um futuro: tornam-se cônsules-gerais nas paragens mais distantes, são nomeados secretários de ministros, ou cumprem outras missões oficiais; enquanto que aqueles da oposição só têm como asilo as academias de ciências morais e políticas.”

Nem precisa dizer mais nada _talvez citar a apresentação que a editora faz em seu catálogo: “[O livro] denuncia a onipotência dos jornalistas de seu tempo, sua vaidade venal, a versatilidade de seu julgamento e a influência abusiva que eles exercem sobre os governos.”

É uma leitura essencial para compreender de onde viemos e para onde não iremos.