A derrota do cidadão (e o triunfo do jornalismo profissional) revisitados

O texto em que eu detectava a derrota do cidadão para o jornalista profissional na cobertura do terremoto no Haiti suscitou polêmica e debate. Ainda bem, pois exatamente para isso que foi concebido.

A colega Ana Brambilla percebeu algumas coisas como eu: que faltou conteúdo produzido ou atualizado pelo cidadão, especialmente no primeiro momento, e que nunca a mídia formal desesperou-se tanto por contribuição do público sem, entretanto, obter resposta.

Ela cita o trabalho de reportagem de Carel Pedre, a grande referência na cobertura da tragédia (ao lado do canadense Pierre Côté, este reportando de seu país, mas entrevistando, via webcam, muita gente que estava in loco). Ambos são jornalistas _Pedre é um dos mais populares radialistas do Haiti e ainda comanda programas na TV, enquanto Côté há tempos faz transmissões experimentais na web e vive de doações de sua audiência.

Yuri Almeida, aliás Herdeiro do Caos, corrobora minha sensação de que a exclusão digital pode ter sido determinante para explicar o vazio da cobertura cidadã. E cita o poder do rádio como provável canalizador de interesses comuns no cenário da tragédia. Isso só corrobora a tese de que, desta vez, a cobertura foi profissional.

Não estou assumindo a defesa liminar do jornalismo profissional, como fui advertido por quem lembrou do blog de estudantes da Unicamp que estão visitando o Haiti. O blog não foi citado no texto original porque tinha atualização muito deficiente nas horas que seguiram à tragédia, justo quando mais se precisava dele.

Depois de alguns dias, o grupo passou a escrever mais e postou até algumas fotos _uma possível demonstração de que o senso de agilidade, vital ao bom funcionamento do jornalismo, pode ser bastante distinto quando se compara amadores e profissionais.

Quem chegou eventualmente ao Webmanario por obra da busca “Haiti” + “terremoto” pensou estar diante do último bastião de defesa do mainstream. Nada mais equivocado. Os que conhecem o repertório deste site sabem que sou um dos maiores entusiastas da autocomunicação de massas _como tão bem definiu o sociólogo Manuel Castells ao se referir à era da publicação pessoal em seu livro “Comunicación y Poder“, recém-lançado.

O cidadão perdeu para o jornalista na cobertura do terremoto do Haiti, é fato. Que merece ser estudado para entendermos em que circunstâncias isso pode ocorrer de novo, desmontando ou ao menos limitando o mito da testemunha ocular onipresente habilitada a publicar na web algum pedaço da história que testemunhou.

Uma resposta para “A derrota do cidadão (e o triunfo do jornalismo profissional) revisitados

  1. Leio o seu blog com frequência pelo Google Reader e se esta não for a primeira, é uma das pouquíssimas vezes que comentei algum post. Pois bem. Em caso de catástrofes, como esta do Haiti, acho que o instinto de sobrevivência prevalece sobre o instinto de repórter. Afinal, não seria demais esperar que o “cidadão” se preocupe com alguma outra coisa que não seja salvar a própria pele? Situações que envolvam tensão política ou conflito de interesses são, talvez, mais favoráveis ao instinto de repórter do cidadão. Não parece ser o caso do Haiti, onde os haitianos brigam por algo comum. Também não vejo uma disputa entre profissional versus cidadão; mas, se houve uma vitória do primeiro, foi por W.O.

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